Por que nos sentimos culpados por algo sobre o qual não temos o menor tipo de controle?
Se levei um soco de um assaltante, fui apenas azarada. Mas não, sinto-me, acima de qualquer coisa, culpada. Eu deveria ter pego aquele táxi, ou ter saído sem bolsa. Na verdade, jamais deveria ter inventado essa viagem, que já estava fadada ao fracasso desde seu planejamento.
Sinto-me culpada, pois não ouvi os conselhos de minha mãe e, depois, de ter inventado uma mentira para poupá-la de maiores preocupações, para logo em seguida contar toda a verdade, pois me senti culpada demais por mentir para ela. Sinto-me culpada por ter sido tratada como a vítima paulista, quando deveria ter recebido um tratamento normal. Sinto-me culpada por ter realmente cogitado pedir aos policiais que batessem no meliante até a morte, para logo depois me sentir culpada por ser uma pessoa vingativa, e, por fim, sentir-me culpada de nunca ter pedido, pois o filho-da-putinha merecia. Pela humilhação pública, pelo soco, por atrapalhar meu son(h)o desde então.
Contudo, isso está absolutamente fora do meu controle. Fui apenas o descarrego que o Edivando precisava naquele momento. Pena que não descarreguei o mesmo, e, sendo assim, vivo com medo.
Não há nada mais terrível do que sentir medo. Medo de sair de casa, de andar pelas ruas geralmente vazias, de pegar um ônibus - que costumava ser meu meio de transporte preferido. Medo de olhar para o lado e perceber que tem um Edivando em potencial logo ali atrás. Medo desse projeto de Edivando me seguir. Medo de sofrer outro soco. Medo de coisa pior que um simples soco. Medo, medo, medo.
Acredito que qualquer tipo de assalto ou abordagem seja um grande apavoro para metade da população brasileira, mas nada pode preparar para o momento em que isso de fato ocorre. Invasão física é o pior dos crimes. Ele poderia ter levado todo meu dinheiro, meu celular, meu cigarro. Foda-se, fica aí, meu caro Edivando, não preciso dessas coisas. Seria ruim, mas, graças a Deus, eu posso comprar outros depois. Porém, ele não estava satisfeito apenas com meu cigarro. Ele precisou marcar sua presença.
E marcou bem. Fiquei por semanas com aquela feia e roxa estampa em meu rosto, que, de tempos em tempos, ainda é possível perceber, quando olho atentamente para o espelho. Entretanto, há algo que o Hirudoid não resolveu: a marca do pânico.
Eu realmente não sei o que farei quando minha poupança acabar e não poderei mais pegar um taxi para voltar ao lar às 23h. Terei então que enfrentar e seguir em frente. Não sei se conseguirei. A cada momento, esse dia se aproxima e fico com mais medo.
E culpada, por não conseguir falar isso para alguém. Ou seja, minto descaradamente, e todos prosseguem a acreditar que vivo bem e que já me recuperei. E ainda mais culpada, por saber que, quando finalmente o embate chegar, todos ficarão com pena da violentadinha do Brasil.
Quando disse que a pior coisa é ter medo, estou mentindo. A pior coisa mesmo é ver que as pessoas estão com pena, por verem que você está com medo.
Texto escrito dia 28 de maio de 2008, quando ainda havia dinheiro na poupança. Agora estou sem dinheiro e, para completar a falta de táxi e carona, ficarei quinze dias sozinha em casa, tendo como companhia apenas o cão. Como parte do pacote, agora preciso me preocupar com meu inconsciente, pois, diante da solidão iminente, tenho sido atormentada em sonhos pelo fantasma do Edivando. Jesusmeproteja, pois essa praga não me deixa em paz.
2 comentários:
duuuuuuude, sozinha é o cacete! adivinha quem vai te encher o saco toda hora??? sim, sim, euuuuuu! e se o fantasma do Edivando aparecer a gente manda ele pra casa do caralho!
Embora trágico, esse texto tá docaralho, assim como vários outros aqui escritos.
Essa é minha irmã!
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