Eu nem lembrava do Dia dos Pais. Isso é normal. Todo ano, esse dia é apenas lembrado em cima da hora, e sempre é sinônimo de desespero, diante do terrível dilema: "o que dar de presente?".
Após darmos um esperto dvd portátil, pensávamos que nossos problemas tinham acabado. Agora é fácil, só dar um dvd e tá safo. Porém, não adianta dar filmes, pois o patrão não tem tempo de assisti-los. E, apesar de considerarmos presenteá-lo com um dvd musical, sempre fica aquela questão: "será que ele realmente vai assistir essa porra?".
Para piorar ainda mais a vida das rebentas, o sujeito, quando decide largar o orgulho e enfim pedir por algo, sempre recorre às mesmas opções: camisa azul (já tentamos inovar no quesito coloração, sem sucesso) e sapato Starsacks, que já saiu de fabricação há séculos, para frustração do coroa. Todo ano pensamos em algo diferente - talvez um cinto, uma carteira, quem sabe um utensílio para casa -, mas ele é resistente a coisas novas, e só pede por algo assim quando tal objeto já está com uma aparência vergonhosa (característica na qual, para o horror da patroa, herdei).
Sei que isso parece irrelevante, contudo, esse é o único momento de nossas vidas no qual podemos fazer valer tudo que o cara já nos deu, desde viagens ao vil metal, que ele sequer é obrigado a nos dar, pois, perante a lei, a única que tem direito de recebê-lo sou eu, que ainda estou na faculdade. Além disso, sinto-me extremamente envergonhada por não saber exatamente que tipo de presente meu pai deseja. Ok, ele também não sabe o que eu quero - uma vez que ele teve a patchorra de me dar uma Barbie quando completei 15 anos, ato que fez minha terapeuta rolar no chão de tanto rir - mas, ainda assim, meu orgulho de filha caçula grita para os céus, pensando que, talvez, a namorada dele, e sua respectiva prole, sabem o que ele querem. Afinal, eles convivem mais com ele do que nós.
Esse papo de "nosso amor é tudo que ele precisa" não me convence. Até porque, ele provavelmente não me ama tanto assim quando recebe a conta do cartão de crédito, recheado de nomes de bares. Eu queria saber dar aquele presente corretíssimo, e não o clichê presente-lojas-Marisa.
Eu queria saber da vida dele, assim como desejo que ele soubesse da minha, além do fato de eu ser uma semi-alcóolatra (again, cartão de crédito!), desempregada, estudante desapegada, viciada em viagens e fumante. Mas sei que isso é impossível. Para ele, eu parei aos 7 anos - idade na qual eu estava quando ele saiu de casa. Não que eu queira que ele saiba dos meus problemas com homens (afinal, de acordo com Jung, a culpa é toda dele), ou que eu ainda não sei o que fazer da minha vida, entretanto, gostaria de ter a liberdade de falar tais coisas sem ruborizar quando digo que estou solteira e carente, ou quando solto um "porra" na mesa de jantar em nossos esporádicos encontros.
Ter um pai distante é um saco. Não apenas pela influência desse fato em minha vida afetiva (repito, não se pode negar que o camarada Jung está certo), mas também porque não sei como agir diante dele. É uma mescla de vergonha com proteção - não deve ser bacana para um pai, em principal o distante, saber que sua filha é uma desregrada. Não consigo ser eu mesma, mas gostaria de poder sê-lo.
Caralho. E isso tudo só porque não sei o que raios dar de presente para o velho.
Dia dos Pais é uma merda.
[ no som: john mayer, "daughters". nada mais apropriado ]
Um comentário:
O grande problena dos 'pais distantes' é que, invariavelmente, nós, 'filhos distantes' somo muito parecidos com eles.
Anyway, liga e pergunta para a namorada dele o que ele quer de presente!
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