segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

O vício Twilight


Desisti da leitura de "Dom Casmurro". Me perdoe, mas minha cachola no final de semestre está demasiadamente limitada para prestar grandes atenções nas entrelinhas do camarada Joaquim Maria. Cansada de análises e sedenta por uma literatura fácil, decidi baixar a saga Twilight, de autoria da americana Stephenie Meyer.

O primeiro livro, "Twilight" - vulgo "Crepúsculo" -, nos apresenta a Bella Swan, piveta de dezessete anos que se muda para Forks, cidade chuvosa e deprê, para morar com o pai e deixar a mãe em paz com o novo marido. Solitária, tímida e pateta que só, Bella está revoltada com a mudança, uma vez que Forks é uma província de merda. E, sendo pequena, a garota vira o centro das atrações logo no primeiro dia de aula. No refeitório, ela se atenta a um determinado grupo. As novas amiguinhas fazem questão de apontar: "Ih, esses são os Cullen, gente estranha!". Não conseguindo disfarçar o interesse imediato pelo mais novo da família, Edward Cullen, Bella é alertada pelas colegas a se manter longe do sujeito - afinal, o cara, além de creepy, é chegado num celibato, pois em dois anos na escola não saiu com alguém.

Então, na aula de Biologia, Bella é obrigada a sentar com o único que não possui um parceiro de laboratório. Quem? Quem? Edward, é claro. A partir daí, o moleque apresenta uma sucessão de situações "what the fuck", deixando a garota transtornada com seu comportamento no mínimo peculiar. Certo dia, já estando completamente fascinada pela criatura misteriosa (quem não, minha gente), Bella é quase atropelada. Quase, porque Edward se joga em cima do carro e salva a mocinha. A pobre coitada fica com uma interrogação imensa na testa, pois o rapaz, na brincadeira, não sofreu um arranhão. Após uma série de diálogos, na qual o sujeito deixa claro que é perigoso e por isso ela devia se afastar, a inconseqüente acaba descobrindo - com direito até a pesquisa no Google - que ele é, na realidade, um vampiro. E sua turma também.

(aconchego fatal)


Vejam bem, a história é boba, clichê e deveria agradar somente adolescentes em busca de um homem bonito, gentleman, protetor, romântico, galante, viril e com um toque de mistério como Edward Cullen. Deveria. Quando dei por mim, estava envolvida com a dinâmica do casal. Bella joga sua responsabilidade e segurança no lixo ao desejar se aproximar cada vez mais de seu amô, ao passo que Edward, depois de explicar sobre sua história e atitudes passadas (a moça é a personificação do sangue uhú, tipo "alma gêmea vampiresca", e ele só quer chupá-la - com o perdão da expressão), luta contra seus instintos fatais ao decidir ficar ao lado da bendita, apesar de não querer transformá-la em um "monstro".

Evidente que tudo isso é contado de modo simplório por Bella (a tradução a qual li também não ajuda. É provável que tenha sido realizada por uma idiota qualquer, devido a quantidade de erros), a narradora que supostamente seria a protagonista. Talvez seja essa a maior falha por parte de Meyer. Como personagem principal, seria bom que nos identificássemos com a menina, contudo, sua inconseqüência e mania de dizer "mas eu não 'tô com medo, Edinho" acaba por irritar, afinal, ela deveria compreender a luta do sujeito. Ok, ela é uma adolescente vivendo um primeiro amor complicado, mas porra, um mínimo de senso de proteção tornaria tais sentimentos conflitantes não apenas mais complexos como também verossímeis. Dessa forma, quem ganha vida - ironicamente - na obra é Edward, que ao mesmo tempo que mantém sua essência jovem, possui em si uma áurea de homem sábio e preparado que, diante de um impasse, necessita rever seus conceitos, levando a outros patamares a boa e velha máxima de "o amor vale tudo".

Por causa disso, as melhores passagens da obra estão na exploração do relacionamento dos dois, tendo as conversas engraçadas o maior destaque. Bella possui uma curiosidade infantil sobre a natureza de Edward, enquanto ele só está preocupado com dúvidas supérfluas (para nós, humildes mortais) como qual a cor, flor e música preferida da moça. Mas Meyer mostra para o que veio no que creio ser o melhor trecho de "Twilight", em que, numa clareira, o casal finalmente expõe suas frustrações e medos, analisam as consequências e limitações que esta relação pode trazer, e, por fim, decidem ficar juntos no matter what. Na ocasião, Edward também deseja saber se está pronto ou não para se entregar independente de sua fraqueza perante o ser humano, em especial Bella. Além de descrever a descoberta do rapaz de maneira extremamente sexual (bom para as velhotas como eu), a escritora oferece à agonia do vampirinho uma beleza inesperada.

(quem há de resistir a esse sorriso?)


Enquanto lia, baixei o filme - que estreiou no Brasil no dia 19 de dezembro. A decepção foi grande, uma vez que o livro estava fresco em minha mente. Primeiro, a cena descrita acima deve ter no máximo dois minutos (metade disso mostra o casal abraçadinho enquanto toca uma musica romântica), e o diálogo é resumido de tal forma que você não entende mais pica alguma do que vem a seguir, já que nunca vemos o que fez esses dois optarem pela união. Só daí a força do filme cai terra abaixo. Claro, como torcer para dois seres que ignoram qualquer obstáculo em troca de algo que aparentemente é só uma paixonite, uma crush juvenil? Meu Brasil, Edward joga uma árvore longe e mesmo assim Bella continua lá, achando tudo lindo! Não, não e não. Se no livro o cara atira a plantação para o espaço, há uma razão para o ato, muito bem explicada, e por isso podemos ficar tranqüilos e entender o processo.

Segundo, é uma pena que a diretora Catherine Hardwicke ("Aos Treze") decidiu por enfatizar a ação ocorrida no final e não no relacionamento dos amantes, que acontece rápido demais, chegando ao ponto de você se perguntar: "mas já estão se amando e fazendo promessas? O que eu perdi?" (principalmente depois do episódio da árvore). Pô, o bacana do livro não é a luta! Essa é somente um pano de fundo, um determinante para saber se o amor realmente vale tudo. Não contente, Hardwicke transformou a parafernalha do combate em um show de horrores, não possuindo o suposto vilão James (vivido bem "mais ou menos" pelo gostosinho Cam Gigandet, conhecido como o Volchok do seriado "The O.C.") o efeito - já fraco - que há na obra, logo, o confronto é ainda mais desinteressante; e o bafafá em torno dessa (a iminência da mesma decorre durante toda a projeção) acaba por desviar da questão principal, ou seja, Bella e Edward.

Outra, por a paixão dos mocinhos ser apresentada de forma tão "como assim", ficamos com uma impressão confusa quanto as atitudes de ambos. Minha Nossa Senhora, a troco de que Bella permaneceu com o sujeito em vez de dar no pé? Afinal, desde o início ela sabia que estava em perigo, pois o próprio Edward avisou. No livro, essas advertências transcorrem de maneira natural, e somente no início, quando ambos ainda estão "amiguinhos"; diferente do filme, onde o "dentes-afiados" repete incessantemente sobre o assunto, sendo até chato. Ora, se um cara me diz milhões de vezes que representa um risco a minha existência, eu sairia correndo, independente do quão atraente ele seja. Assim, Bella fica mais Joselito que o imaginável e, por conseguinte, mais irritante, não sendo possível ter grandes simpatias por alguém que age como ela.

(o teu chamego é meu xodó)


Seria bem mais válido aproveitar a química entre a talentosa Kristin Stewart ("O quarto do pânico") e o "me-morde-todinha" Robert Pattinson (o Cedrico Diggory em "Harry Potter e o Cálice de Fogo") para estabelecer a relação de Bella e Edward, a fim de dar maior realidade para a forma como o moço reage no ato final. Kristin tenta, tenta, mas não consegue realizar muito com a limitação que lhe é oferecida por Hardwicke, enquanto Robert... Desculpe, meu bem, você é um tesão e exatamente como o vampiro é no quesito beleza, porém, em suas mãos, Edward foi transformado em um rapaz carrancudo, tendo somente seus dotes físicos como alicerce.

A única cena em que percebi Edward transportado para a tela foi a do laboratório de Biologia, onde ocorre o primeiro diálogo do casal. Ali, Robert conseguiu passar a razão pelo fascínio de Bella perante sua figura, sendo simultaneamente obscuro e aberto, estranho e confiável, largando um olhar penetrante que faria qualquer mocinha se derreter em cima da planária. Do restante, Edward me pareceu um tanto rude, até em suas tentativas de proteger a amada - falha que acredito ser da diretora, que não deve ter o instruído corretamente, uma vez que Robert já demonstrou ser bom o suficiente (por favor, ênfase na última expressão. Ele é uma graça, mas devo admitir que não possui muito talento) em "Cálice de Fogo", quando fez de Cedrico, personagem que tinha tudo para ser o antagonista de Harry, um cara que por trás da pose de herói do Torneio Tribuxo é gente boa e tem um bom coração, permitindo que nos importemos com seu destino, mesmo sendo um mero coadjuvante.

(dilícia)


De qualquer modo, a adaptação meia-boca não tirou o quesito vício da série, ao menos no papel. Não sei onde raios eu estava com a cabeça quando decidi ler isso. Em poucos dias terminei os quatro livros (este aqui discutido, "Lua Nova", "Eclipse" e "Breaking Dawn"), mal dormindo e/ou saindo do quarto. "Twilight" me fez sentir como uma adolescente, aquela porção afogada em meu peito, não deixando que a faceta fangirl viesse à tona já que sou bem grandinha para esse tipo de coisa. Mas às favas para esse comportamento. Abri a porteira da tenra idade de quinze anos e abandonei a dignidade, largando suspiros apaixonados, pulando na cadeira de maneira histérica, deixando pequenas lágrimas rolarem sem qualquer tipo de esforço e sonhando com Edward Cullen me prendendo forte num arvoredo enquanto sussura "who's your Lestat" em meu ouvido.

Não que seja óh-meu-Deus-que-obra-prima. Stephenie Meyer não desenvolve tanto sua narrativa, sendo por vezes redundante e tendo "Lua Nova" a responsabilidade de levar o fardo de "puta coisa repetitiva". Se não fosse pela minha curiosidade e amor instantâneo por Edward, teria abandonado. No entanto, Meyer também surpreende em suas tentativas de ser JK Rowling (a comparação é inevitável), sendo óbvia a influência da criadora de "Harry Potter" na estrutura e história de Meyer. São exatamente nessas passagens que a saga Twilight flui melhor. Ainda que possua potencial, a autora tem muito a aprender com a musa de Hogwarts. "Twilight" é bacana, bonito e é por ser simples e um tanto previsível que se torna envolvente, confortável e confortante. E viciante.

(crééééu)


Em contrapartida, a película, como já claro, perde a quilômetros para as adaptações da obra de Rowling. Se por um lado os filmes do "Harry" são fiéis e conseguem expor na telona todo o encantamento e complexidade dos personagens, isso não ocorre com "Twilight", que sequer tem Chris Columbus como desculpa (e olha que admiro seu trabalho nos dois primeiros "Harry"). Tomara que haja um crescimento nos próximos filmes da saga de Meyer. É com esperança que verei "Lua Nova", que começará a ser rodado no início do ano vindouro e lançado em 20 de novembro do mesmo, com o incrivelmente mais competente Chris Weitz, de "O Grande Garoto", na cadeira do diretor.

Agora é esperar para ver. Enquanto isso, prossigo sonhando com Robert Pattinson. Porque, Jesus me abana, o cara é uma delícia. E eu não abandono tão fácil o meu lado fangirl.


PS: Muitas fãs fervorosas estão enlouquecidas com o péssimo recebimento da crítica diante do filme. Elas clamam que isso se dá pois a galera não leu o livro. Meu povo, é justamente por ter lido que o achei um fracasso!

Um comentário:

INGA disse...

Aahahahah suas LOCAAAS ! Passei mal de rir (com as frases típicas, claro!) descobrindo este cafofo virtual docês...
Por isso, acompanhar...

"Vamos seu maldito... VENHA!" (só pra continuar o raciocínio do Abra boca, diga AH!) hauahauhauah