
Sim, esse é um blog de Cinema (e eventualmente de seriados, se um dia surgir a oportunidade), porém, diante do final da novela das oito "A Favorita", do Rei João Emanuel Carneiro, preciso assumir algo que me corrompe desde o início do folhetim: Eu entendo a Flora.
Quando o marketing da novela estava rolando solto, disse: "Ah, com certeza a Patricia Pillar é boazinha, jamais confiaria na Claudia Raia". Sem ofensa à mãe do Enzo, mas vamos concordar, ela não inspira o mínimo de confiança, ainda mais depois de Agatha em "Sete Pecados". Quando enfim a verdade foi revelada, eu sabia que teria um motivo para João Emanuel aprontar essa.
Como essa não é uma "obra" de Manoel Carlos, sempre acreditei no fato de Flora ser a mestre dos trambiques, assassina impiedosa e cismada em destruir Donatela por uma razão. Apesar de não ter acompanhado fielmente (culpa da Lara, mina chata da porra), parava para ver as cenas da Flora, e amei cada uma. Aos poucos, foi ficando claro que a pobre coitada sofre de algo muito comum na humanidade: a Síndrome da Amiga Gordinha.

A Amiga Gordinha não é necessariamente obesa. Ela é aquela que possui uma companheira bacana, talentosa, bonita, carismática e que atrai atenção dos pedreiros ao passar por uma construção; ou seja, tudo aquilo que a Amiga Gordinha não é, ou ao menos crê não ser, pois sua insegurança e baixa auto-estima a impede de ver seus bons atributos, acreditando estar abaixo da colega. Muitas vezes, essa também não ajuda, por negligência, egoísmo, ou simplesmente por se achar a última coca-cola do deserto - o que, no inconsciente da Amiga Gordinha, só piora a situação, pois é justamente a atenção da colega que ela mais queria. Por esses motivos, a Amiga Gordinha deseja ser a outra, vivendo em frustração por nunca o conseguir e sofrendo por acreditar que sua própria existência é inútil e que estaria bem melhor se fosse outra pessoa. Sendo assim, Flora é o au concour da Amiga Gordinha.

Obviamente, tal comportamento é massacrado pelas pessoas - é a conhecida inveja, pecado capital que muitos condenam, mas que é inerente na raça humana. Todos nós já passamos por isso: gostaríamos de ter os seios de Scarlett Johansson, a boca de Angelina Jolie, o membro sexual de Mark Wahlberg, o peitoral de Hugh Jackman, a riqueza de Oprah Winfrey, o talento de Martin Scorsese e a facilidade musical de Mozart (Salieri, aliás, é o primeiro caso conhecido de Amiga Gordinha). Em níveis mais profundos, o mesmo surge em seu berço familiar ou círculos de amigos: aquela prima que é magra e consegue todos os homens, aquela amiga rica ou o colega bem sucedido que não tem dificuldade em encontrar mulheres.
Desse modo, nós, em algum momento da vida, sofremos de tal Síndrome. Contudo, é evidente que há diferentes níveis para tal situação - pode ser controlado, leve, moderado, ou forte. Essa última alcança o pior nível de todos: o creepy. A Amiga Gordinha Creepy leva sua Síndrome aos mais perturbadores patamares, querendo tanto ser o seu alvo que não mede esforços para chegar ao seu objetivo. Flora se encaixa nessa categoria.

Sempre rejeitada e colocada para baixo, Flora passou sua vida à sombra de Donatela. Para completar sua frustração, Donatela pode até ser mais talentosa, porém é burra feito porta, não sabendo sequer jogar um Stop com inteligência. Entretanto, apesar de sua idiotice, Donatela continuou em rumo ao sucesso, o que obviamente irritou Flora. Não podendo ser a outra, decidiu por destruí-la.
Até aí, "tudo bem". A grande reviravolta e o ápice da Amiga Gordinha se revelou nessa última semana do folhetim, no qual Donatela finalmente se ligou que a "inimiga" sofria da Síndrome e virou o jogo ao seu favor, demonstrando amor, dedicação e admiração pela Flora. Ao ser reconhecida, Flora esqueceu seus planos mirabolantes e se revigorou ao perceber que estava enfim no mesmo nível de Donatela. Não havia mais diferenças: ambas eram iguais, e portanto, não havia maiores problemas. Em suma, o sonho de qualquer Amiga Gordinha.
A felicidade de Flora foi algo lindo de se ver, e extremamente significativo para as Amigas Gordinhas pelo mundo afora. Eu mesma, uma Amiga Gordinha Controlada, me emocionei com Flora pedindo para Silverinha preparar uma cesta de pão de queijo com requeijão enquanto cantavam um dos sucessos da dupla Faísca e Espotela (nome por si só simbólico). Dessa forma, vocês podem ter uma idéia do quanto venho sofrendo ao assistir essas cenas finais.

Sim, eu entendo a Flora. Prontofalei. Suas atitudes são condenáveis, claro, mas ainda assim compreensíveis. No final das contas, ela fez tudo por amor a Donatela - um amor revirado, conturbado e frustrante. Na realidade, tudo que Flora precisa é de uma terapia para elaborar suas problemáticas. Essa é a única saída para que ela possa estar em paz consigo mesma, e por conseguinte, livrar as pessoas ao seu redor do estorvo que é aguentar uma Amiga Gordinha Creepy.
Torço pela recuperação de Flora. Ela merece. Em nome de todas as Amigas Gordinhas do planeta.

Obs.: O que não entendo é como as pessoas que veem a novela insistem em tratar isso com uma maneira Manoel Carlos de ser - ou seja, Donatela é a mocinha, Flora a vilã. Pelo amor de Deus, não existe maniqueísmo nessa questão. Quando enfim podemos ter uma visão abrangente de complexos sentimentos humanos em plena rede nacional, o povo permanece focado no óbvio. Uma pena.
7 comentários:
Hahahahahahahahaha
Cara, todo mundo já foi 'amiga gordinha' um dia!
Eu não assisto A Favorita por princípios, detesto lance boa-má que tomou conta da novela! Bom mesmo é o roteiro sem noção de Glória Perez que nos brindará com a ponte aérea Rio de Janeiro/Índia!
No aguardo!
SENSACIONAL!eu também entendo a Flora...ou seja, amiga gordinha eh um estilo de vida HUAhuaHUUAHhuahuAHhuahuahUa
VIVA LITTLE FAT FRIEND AHUHUAHUAHHUAHUAHUHUAUHAHU
eu concordo em genero e numero!!
adorei a lembrança do salieri!!
é isso aí!
tive uma prima que sempre roubava o show! odeio ela! hauhauhauhauhauhuauahuahuahauah
mas a filha dela me ama!
VINGANÇA!!!
beijãoooooooooo
hauhauhuahuauahua
Oi Srta.
Concordo contigo, pois esta cena é clássica. [Todo podólatra Adora]
Tenha uma excelente quinta-feira.
Até breve.
Beijos.
Ps. Obrigado por acessar e pelo recado.
Sensacional a tese. Contribuo com uma correção bíblica: antes do Salieri havia Caim, o irmão gordinho. Such a loser.
Nossa!
Que bom que eu 'cai aquí'...
Seu texto é sensacional!!!
Concordo tanto...
Parabéns!!!!!
Nunca vi um capítulo dessa novela, só sei o que o pessoal comenta, e sempre tenho a impressão de "boa vs. má". Mas sabe que esse texto me deu até curiosidade de ver algumas cenas da novela? Mas eu não vou ver, está no final e detesto pegar o fim sem saber o começo ou o meio.
PS: Eu não queria ter a boca da Jolie, credo!
Postar um comentário