segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Sobre o além e outras bobagens

Já houve um tempo em que contemplei a idéia de suicídio. Primeiro na adolescência: a amiga gordinha, a filha mal compreendida, a única "BV" (boca-virgem, se é que essa expressão ainda existe) e por consequencia virgem da classe, apaixonada por um moleque que obviamente não retribuia - e sequer possuia conhecimento do fato -, sem planos para o futuro ou perspectiva, e muito "Dawson's Creek" na cachola. Era motivo suficiente. Lembro-me de um instante que, num surto de Andie McPhee - nomenclatura que utilizava com orgulho -, fiquei horas observando uma tesoura. Imaginei o objeto cortando meu corpo, o sangue escorrendo, o espírito se esvaecendo rapidamente de meu corpo, e enfim a resposta do que havia no outro lado do muro (a grande questão e curiosidade-mor). Aí imaginei minha mãe entrando no quarto e descobrindo o cadáver inerte. Imaginei o velório, a conta do crematório e a dor de cabeça que causaria na patroa. Aí veio a imagem da mesma com seus olhos marejados. Motivo o bastante para a desistência: se vi minha mãe chorando alguma vez na vida, foi em "Mamma Mia" e "A Troca" - ou seja, casos recentes, portanto, desconhecidos para mim então. Não queria ser a responsável por quebrar a bolha da velha.

Havia esquecido da ocasião quando, anos depois, em uma crise pior por já estar mais adulta, recordei desse momento. E, por alguma razão, me pareceu uma saída brilhante. Pronto, era só encontrar algum objeto cortante e realizar o trabalho sujo. Uma coisa organizada, tipo Julianne Moore em "As Horas". Durante um banho, olhei para o inocente gilete e considerei. Mas não, ia doer, e ainda corria o risco de ser interrompida na hora. Pior, alguém me encontrar a tempo e passar pela vergonha da "tentativa de suicídio". Aí lembrei que mamãe passou toda a minha infância alertando contra os perigos do Aerolin, meu remédio da bronquite. Para ela, tomá-lo em demasia acarretaria em um infarto. Mas não, ia ser foda, deve doer horrores. Procurei por outros remédios, e nada. Não ia tomar um Imosec e morrer de prisão de ventre - micão -, e misturá-lo com Dramin só traria enjoo. Fiquei puta com minha covardia até na hora de bater as botas e desisti.

Anos passaram e nunca mais pensei em suicídio. Não por achar uma atitude ridícula - compreendo o que pode levar a isso -, mas simplesmente porque percebi o quão egoísta é. Egoísta, mesquinho, e pura "franguice". Ora, se o bicho 'tá pegando, encara. Vai ser difícil, porém, esse atalho em nada ajudará, afinal, que grande coisa se pode fazer no além. É capaz de você continuar na merda ("Amor além da vida" está aí para provar o argumento). Então que fique no plano terreno. No entanto, Morte não é exatamente um assunto que evito. Aliás, reflito demais sobre o mesmo. Nas horas de desespero, já imaginei uma morte ocasional, a troco de nada. Uma rápida cirrose estilo Garrincha, um acidente de carro, um choque fatal na hora de colocar o carregador de celular na tomada.

E aí que toda vez que estive em uma situação que isso poderia de fato ocorrer, me borrei todinha. Foi a médica dizer que a alergia nos seios poderiam ser câncer que corri para um oncologista e implorei por uma mamografia, fazendo bafão no seguro pois eles não queriam autorizar (só pode realizar esse exame desgraçado após os 35 anos, exceto em casos de emergência. Desnecessário dizer que achei isso um absurdo). Foi o Edivando me dar um soco que vislumbrei uma arma em seu moletom e tive um treco. Foi eu bater o carro que prontamente pensei que aquele poderia ter sido o momento. Logo, concluo que, no final das contas, todos os anos de síndrome de Ian Curtis foram para o saco, uma vez que sou realmente uma cagona e não desejo morrer tão cedo. No máximo, lá para os setenta anos e está excelente. Me parece uma idade digna.

O problema é que, a partir do instante que você deixa de pensar na própria morte, você começa a pensar na dos outros. Aí que me vi chorando perante o Ground Zero, vulgo ex-World Trade Center, pensando nas vidas ali perdidas enquanto observava aquele cemitério gigante. Aí que Heath Ledger, primeiro dos ídolos pessoais a ir, é encontrado morto e sofri (prossigo sofrendo) feito vaca, sendo aparada pela patroa, que trouxe um copo de água com açucar para me acalmar e veio ao meu quarto no meio da noite para me abraçar, sem saber como lidar diante de meu luto total. Aí que li "Intermitências da Morte" do José Saramago e escrevi um trabalho completamente pessoal sobre o quanto me emocionei com a morte e até me identifiquei com a sujeita. Aí que também li "Marley e eu" e passei mal, passando dias perturbando minha cachorra com uma enorme quantidade de amassos. Aí que inventei de ver filmes como "Imaginary Heroes" (cuja história se desenvolve após a morte do irmão mais velho), "Grace is gone" (troque o irmão do previamente citado pela mãe), "Control" (como assim, cara, no varal? 'Tá maluco?), e finalmente, este que acabei de assistir e razão pela qual escrevo estas palavras quando deveria estar dormindo: "Fonte da vida". Vindo de Darren Aronofsky, I should have known better.

Nem Hugh Jackman fazendo o Buda conseguiu me salvar da completa tristeza. Não sei porque raios este povo diz que há três tempos no filme. Para mim, não há o Wolvie no passado, presente e futuro. Talvez tenha interpretado errado, mas creio que as três histórias são uma só, e as situações ocorridas na Espanha do século 16 e na bolha intergalática do suposto futuro nada mais são que experiências, pensamentos, lembranças ou imagens do inconsciente do protagonista sobre um único assunto: a iminente morte da esposa e como ele lida com a mesma. Dessa forma, sua busca pela Árvore da Vida é um reflexo de sua esperança vã de que há um modo de escapar da ceifa.

Pois não há. Não há e não adianta. Um dia, todo mundo vai dessa para encontrar Antonio Fagundes e Cristiane Torloni. E é aí que a agonia cresce, pois não há como imaginar um mundo sem minhas irmãs, amigos, cachorra e, principalmente, meu pai e minha mãe. E esses dois últimos já passaram dos sessenta, o que significa que eles iniciaram a fase do "porque quando eu for", como se tivessem acabado de se matricular em um invisível curso preparatório para a morte. De repente, surgem planos de adquirir bens imóveis, seguros de vida, previdência social e o caralho a quatro, tudo para garantir o futuro das bonitonas aqui que aguentarão a barra de permanecer nesta vida tacanha quando eles partirem. E por mais que aprecie e agradeça a preocupação, eles não sabem o quanto dói ouvir uma coisa dessas. Dá vontade de gritar "cala a boca, seus otários". Porém, fazer o que, é inevitável e uma hora vai acontecer. Eles estão sendo até bacanas em avisar, mas porra, evitem a fadiga.

Em suma - há algo para resumir? -, o cagaço agora é permanente. E tudo isso porque vi Hugh Jackman alcançar um nível digno de Décima Profecia (é, porque ainda tem essa). Definitivamente, preciso parar de pensar e dormir.


¬ bob dylan - outlaw blues.mp3

3 comentários:

Garota no hall disse...

Adorei sua visão sobre o filme, é bem parecida com a minha. Estou com vontade de revê-lo agora; aquela cena da Rachel Weisz na banheira é linda, me deu vontade de chorar...
Sobre "tendências suicidas", eu tive uma vez na vida, mas não quis me cortar ou me jogar do viaduto - ia doer e odeio sangue. Mas é estranho, porque tenho muitos pensamentos macabros - como quando estou atravessando a rua e imagino um carro vindo em alta velocidade e penso qual seria minha reação, voltar ou pular à frente. Doideras, eu sei...

fabiana disse...

Olha, eu nunca tive tendências suicidas, sabe. Já 'testemunhei' 2 suicídios e não foi legal, é muito mais triste saber que alguém teve coragem de tirar a própria vida que a morte natural em si.

Alexandre disse...

Quando já era quase adulto descobri (ou melhor, oculturam e depois contaram pra mim) que um amigo meu de infância tinha se matado com um tiro na cabeça. Motivo: ele ouvia muito Legião Urbana. Pura fachada, óbvio.

Mas eu fiquei um bom tempo com esse fato na cabeça tentando entender os mecanismos do suicídio. Sempre guardo a imagem que tive dele que nem de lonjge lembrava um sujeito suicida.

Acho que é uma das atitudes humanas mais complexas e intrigantes, psicologicamente falando.

Fraqueza de espírito? Covardia? Martírio? Honra? Existem várias facetas interessantes.

Diria que o suicídio cai melhor pras duas primeiras opções.

Prefiro mil vezes que cortem minha cabeça de joelhos (como um bom samurai) do que "furar" meu próprio bucho, em que pese os mais nobres e honrados motivos.