
Lá pelo meio dos anos 90, a outra irmã passou por uma fase Ethan Hawke fortíssima. E como ninguém aqui em casa vive uma fase sem influenciar, querendo ou não, a outra (vide a fase Nicolas Cage da irmã mais velha, e minha fase Ewan McGregor), isso acarretou diversos fins de semana assistindo "Vivos", "Sociedade dos poetas mortos", "Grandes Esperanças", "Caindo na real" e, claro, "Antes do amanhecer".
Quando vi esse último, classifiquei-o como um dos meus preferidos, pois era lindo e representava o ideal romântico. Porém, não o compreendi exatamente. Claro, eu tinha uns doze anos e, por mais que soubesse que estava perante a uma obra prima cinematográfica, não poderia usufruí-la por inteiro, por não ter experiência de vida nem bagagem intelectual para esmiuçar cada pedacinho.

Anos se passam e lá vem "Antes do pôr do sol", a continuação mais esperada de todos os tempos. Já mais velha e com certa noção afetiva, enlouqueci diante do que era apresentado. Era a resolução aguardada por anos, independente da maneira que você interpretou o final. E, principalmente, acreditei que Celine poderia muito bem ser eu; e minha viagem aos Estados Unidos só estabeleceu ainda mais a busca de um Jesse.

Em 2005, arrumei minhas malas e fui passar um mês na terra do Obama. Já no segundo dia em Nova York, decidimos ir a um pub celebrar minha chegada e as curtas férias de minhas amigas. Após tentar alguns bares, que não aceitaram vender álcool para mim pois tinha dezenove anos e essa idade ainda é considerada "de menor" por lá, entramos no pub em frente ao nosso albergue, com o pensamento de, caso não aceitassem, sentaríamos, eu tomaria um suco, e iríamos embora. Foi então que vi: atrás do balcão do pub, havia um homem alto, de pele branquinha, cabelos pretos e um olho claro que brilhava na escuridão. Em sua primeira palavra, o identificamos como irlandês. Ele olhou minha identidade rapidamente, devolveu e entregou o ouro gelado. A partir daí, bastou-me algumas cervejinhas para criar uma coragem adolescente de ir puxar um papo com ele. Horas depois, já estava nos braços do sujeito, vergonhosamente comprovando a teoria de que brasileiras são um bando de putas. Entre indas e vindas à Nova York, retornei ao pub diversas vezes, até que o pobre homem percebeu que eu já estava mais envolvida do que o aceitável e deu-me um pé na bunda, preocupado não apenas com sua ilegalidade como também pela loucura de uma sulamericana correndo atrás dele, bêbada, em pleno metrô à 1 da manhã.

O que deixei de citar nessa brincadeira é que uma das coisas que mais me influenciou nessa paixonite descontrol foi o fato de que, tanto no vôo de ida como no de retorno, assisti "Antes do pôr do sol" no avião, o que foi o motivo que desejava para inventar qualquer sentimento mais forte do que o simples tesão sexual de uma menininha virgem perdida pelas ruas da cidade que nunca dorme. Era como se eu tivesse um Jesse em potencial ali na minha frente. Fiz coisas incrivelmente embaraçosas, como deixar uma carta no balcão do bar, colocar músicas significativas na jukebox e esperar na porta do pub para sua saída, tudo por crer que aquele era o meu Jesse particular. Claro que nada disso deu certo e eu voltei para o Brasil no maior clima "balada da arrasada", e com o tempo, desisti da idéia de voltar aos Estados Unidos somente por essa razão (hoje tenho outras, mas isso não me impede de, caso eu vá, dar uma olhadela no bar, só para desencargo de consciência). Ainda assim, o irlandês prossegue sendo uma figura idealizada, e sua importância foi e é vital. E, durante esses anos, "Antes do Pôr do Sol" se tornou filmografia básica como modo de enaltecer aquela passagem (uma das falas que mais gosto do filme é: "Quando se é jovem, você acha que vai encontrar várias pessoas com as quais você se conecta. Depois você percebe que são com poucos que se consegue isso").

Contudo, dia desses, decidi baixar e gravar os dois filmes. Verificando se estava tudo em ordem, comecei a ver "Antes do amanhecer", que há tempos não assistia e que já havia até mesmo esquecido algumas cenas. Quando percebi, estava na frente do computador chorando. Por que? Pois cada vocábulo saindo da boca de Celine é o que penso e sinto. Ela tem vinte e três anos, está na faculdade sem muita vontade, vive de sonhos, não sai do lugar, se irrita com milhões de coisas no mundo, e possui um romantismo exarcebado o qual reconhece que não tem fundamento algum, pois não consegue ter um relacionamento sem apontar os defeitos de seu alvo. E se a identificação foi muita, o roteiro em si só piorou a situação, pois enfim compreendo o que eles estão falando.

Não sou mais a garotinha de catorze anos vendo um filme simplesmente porque é fofo. Em cada frame, presenciei uma verdadeira bomba atômica de sentimentos e palavras, e finalmente entendi a profundidade das coisas que estão sendo ditas na tela. E ocorreu aquilo que recordo de ouvir minha irmã dizendo: "se ver na tela é foda". É, de fato. Cá estou eu perante uma versão rebuscada e européia de mim mesma.
Em determinado momento, Celine diz para Jesse que eles são personagens do sonho de uma velhinha. Pois, para mim, esse casal vítima do joguete do destino representa meu presente. É a personificação máxima de tudo que me faz sentir como uma mulherzinha, é aquele desejo de encontrar alguém que lhe compreenda e com quem se pode dividir uma conexão naquele momento único da vida em que você se expõe por completo, levado por algo que está além do que se vê.

Não procuro por um Jesse, pois é inútil. Porém, procuro por algo que sei que está por aí, em algum lugar perdido nesse mundão danado. É a grande corrida para um final não conhecido, o olhar para os lados e estar aberta ao que vir. Pode ser que não ache um Ethan Hawke (é pedir demais?), mas sei que eventualmente alguém ou algo surgirá e fará sentido. E só então poderei me tornar um personagem do sonho de uma velhinha.
5 comentários:
Amo estes dois filmes.
Marcaram muito a minha vidinha.
Era novinha quando assisti "antes do amanhecer" e me apaixonei pelo filme. Vi várias e várias vezes. Surtei quando assiti "antes do por do sol". Os roteiros são excelentes. Chorei igual criancinha pela possibilidade "do que poderia ter sido" e me fez pensar como coisas bobas podem alterar sua vida para sempre. Como o destino deles seria diferente se a avó dela não tivesse morrido e ela tivesse ido encontrá-lo em viena e reviver aquela noite tão mágica. No final do "Antes do amanhacer" quando vai mostrando vazio oslugares por onde eles passaram durante a noite é um conjunto de cenas fantastico. Cara...não adianta.... eu choro igual criancinha quando vejo e pronto. Rola uma identificação. Tb tive uma fase ethan hawk fortissima. Outro que eu amo é "caindo na real" também rola a maior identificação com a minha vida mais atual.
Amo esse filme e a sequência pelos diálogos o último quando terminou achei que deveria continuar. Foi muito engraçado.
E essas coisas acontecem moça.
Bjo
ambos os filmes são muito lindos. sou apaixonada.... melhor do que encontrar um Jesse é encontrar um Jesse com quem você fique por um bom tempo. Porque na minha vida encontrei vários Jesses em potencial, e alguns reais, mas não durou. Encontrar essa conexão e depois ter que encarar a dura realidade dos homens imbecis é pior do que esperar pra sempre.... Também estou esperando por algo ou alguém que faça sentido. Mais difícil que encontrar agulha no palheiro...
É, eu também espero, espero, espero... Mas o fato é que dificilmente gosto de alguém, e quando gosto, é difícil para mim. Às vezes penso: se espero tanto, é por que sou romântica? Eu sei que o convívio humano é algo complicado - principalmente para mim, que me irrito muito facilmente, embora pareça ser calma -, e no menor deslize, já começo a imaginar "quanto tempo mais conseguiria ficar com alguém que faria isso novamente?". Enfim, sou f*.
Lagriminhas aqui, êrmã!
=;
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