Em 2001, estava eu implorando à patroa: "Mãe, é o Backstreet Boys, você não 'tá entendendo a GRAVIDADE que será eu não ir a esse show". Ela estranhou, afinal, minha fase BSB estava no ápice entre 98-99, e em 2001 quem imperava era o Nsync, que havia visto no Rock In Rio daquele ano. Minha irmã, desejando compensar sua frustração pelo péssimo show do New Kids On The Block que vira em 1992, não apenas apoiou como se ofereceu para acompanhar a menor de idade. E lá fomos nós. Eu, com minha camisa e faixa brilhosa na cabeça. Ela segurando minha mão na fila e fazendo de um tudo para me entreter e diminuir meu nervosismo - estava para ver os Backstreet Boys, caralho! Eis que eles surgem: seres lindos, quase mágicos, logo ali no palco, tão distante e tão perto.
Anos se passam. Eu viro rockeira e deixo meus tempos de boy bands se resumirem a tardes de nostalgia. Meus gritos se transformaram em urros de "yeeeeaaah!" em shows como Pearl Jam, Franz Ferdinand, The Killers e outros. Via notícias, achava bacana, mas sequer cogitei comprar os novos cd's ou trabalhos solos dos antigos ídolos. No máximo, adicionei no MySpace, para manter a atualização mais constante. Até dezembro do ano passado.
Em meio a compra em ritmo alucinado de Madonna e Radiohead, li "Crepúsculo", livro já discutido milhões de vezes neste blog. Algo naquela obra resgatou minha adolescência há tempos perdida, onde eu podia me descabelar sem o mínimo de vergonha por causa de um rapazinho famoso, ou simplesmente por ver o clip na TV, ou ao cantar as músicas. Na mesma época, resolvi organizar minhas fitas cassetes, o que só agravou a fase "retorno aos 15 anos", uma vez que essas estão repletas de documentários e memórias. Eu ainda me lembrava de cada gestinho feito por algum Backstreet em determinada apresentação, cada "Say what?", cada palavreado ou expressão.
Então descubro: Backstreet Boys farão um show em março. Ignorando a crise econômica e os afazeres da vida adulta, comprei, apenas avisando aos amigos. Quem quisesse ir, que fossem, isso não me impediria. Eu precisava disso. Minha irmã - a outra, não a que me acompanhou no primeiro show - decidiu ir, sem esperar muito.
Ontem, já na fila, havia material para qualquer estudo. Percebi que não era a única que antecipava por esse momento. Haviam adolescentes que ainda acompanham o trabalho recente da banda. Pais de família pacientes. Moças da minha idade com faixas, camisas e cartaz em mãos. Outras, também da mesma faixa etária, se resumiam a uma vestimenta normal, pois reconhecem que esse tipo de atitude é daquele tempo, e não refletem o hoje. Mulheres feitas, mulheres grávidas, mulheres metaleiras, mulheres com blusa do Beatles, mulheres que arrastaram seus namorados, gays, homens solitários. Em suma, uma variedade impressionante de pessoas reunidas com um único intuito: ver aqueles homens, independente de seus motivos pessoais (uma moça solitária, que parecia pertencer mais a um show do Iron Maiden, virou para nós em desespero para comentar algo que foi tão espontâneo que me emocionou: "Meu Deus, espero por isso há 10 anos"). Ainda assim, ninguém ali é mais criança, principalmente eu, e uma aparentemente inocente medida de segurança pontuou esse fato com louvor: uma pulseira escrita "maior de 18".
Então, eles aparecem, pontuamente às 21:30: já começando com a porra, eles embalam "Larger Than Life", um verdadeiro hino à boy bands, uma gratidão recíproca entre banda e fãs. E se até aquele instante pensei que meus gritinhos alucinados estavam abafados, fui surpreendida por um automático tom de voz afinado que, para mim, não havia mais. Não era necessário pensar em dignidade ou vergonha; eu estava cagando para isso. Quando dei por mim, estava pulando, jogando o cigarro fora, a cerveja ao chão, e gritando "BRIIIAAAN!" cada vez que ele aparecia no telão. Não importei com minha estatura baixa, que me impediu de vê-los no palco: o que me interessava era ouvir as músicas ao vivo e saber que eles estavam logo ali, "personificando" uma era.
E se as lágrimas demoraram a vir tamanho choque de me ver em tal situação, elas não hesitaram em comparecer já nos primeiros acordes de "I want it that way" e o medley de "Quit Playin' Games", "I'll never break your heart", "As long as you love me" e "All I have to give" (que, num verdadeiro golpe baixo por parte da banda, foi acompanhada pelas cenas dos classicos clips no telão, que mesclavam o antigo com as imagens ao vivo - sem contar que serviu como uma bela homenagem e massagem no coração pela ausência de Kevin, que faz falta, sim, mas é algo que nunca deixa de ser lembrado).
Ainda mais bonito foi observar a áurea desses homens. Eles não desejam combater a idade; suas coreografias são simples e rápidas, e eles preferem o microfone na mão àquele embutido na cabeça. Seus rostos são marcados pelo tempo, seus gingados não são mais o mesmo. Porém, eles sabem de seus papéis na vida daquelas pessoas e não se restrigem a realizar aquilo que sempre amamos: os bons e velhos gestos obcenos, os beijinhos jogados para a câmera, as eventuais reboladas, ou um mero levantamento de camisa ou tirada de casaco, que surtem o efeito esperado, ou seja, o grito. A diferença é palpável: enquanto em 2001 o grito era apenas um complemento, dessa vez esse se tornou essencial, refletindo exatamente o pensamento de cada mulher ali presente. Todas já tiveram sonhos com esses rapazes, já quiseram estar em sua companhia. E se essa diferença não estava clara, um comentário simples, no entanto verdadeiro, resumiu bem - após a performance solo de AJ (agora gordinho e limpo), em que ele encenou sem o mínimo de pudor o coito, uma moça já nos seus 30 disse "ai, gozei".
Contudo, mais do que causar a euforia sexual, Backstreet Boys é uma boy band que possui as mais belas canções. Não estou aqui discutindo o valor artístico, o que importa é a influência dessas na vida de cada um - e, em especial, na minha. Vê-los é ao mesmo tempo uma viagem no tempo e uma confirmação do passado glorioso, mas que nunca deixa de pertencer ao presente. Seus maneirismos prosseguem o mesmo, suas vozes possuem a mesma força de outrora. E, apesar de inicialmente pensar que esse show serviria apenas para esse objetivo, este pensamento foi um engano. O que esse show representou foi um fechamento de ciclo. Vou além: um fechamento de ciclo que pode muito bem ser revisitado. Backstreet Boys are back, alright, e para ficar, pois eles não precisam ser deixados para trás. Com tanta coisa ruim para ser esquecida, Backstreet Boys não podem ser. Não por representarem uma boa época, e sim por nunca deixarem de avançar. Idade e fase da vida são fatores irrelevantes (seu set list, que mistura os clássicos ao material novo, sabiamente reconhece os instantes em que um deve dar lugar ao outro).
Portantos, meus gritos, meu choro descontrolado, meus pulos e realizações de coreografia não são razões para o embaraço ou a perda de dignidade. Estou pouco ligando para isso. Relato meus feitos na perfeita noite passada com orgulho. O que eu queria era colocar para fora, numa bela catarse, todos os anos em que negligenciei uma parte que ainda existe em mim, e que está mais viva que nunca.
Eu posso ter Radiohead para ir. Posso ter outros shows de rock. No entanto, sempre serei a adolescente que grita ao mínimo movimento de um Backstreet Boy. Minto: adolescente não. Uma mulher crescida, que prefere assumir esse lado a abandoná-lo. Sem isso, nada seria. Sem isso, nada serei.
E assim concluo...
AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH!!!!!!!
¬ backstreet boys - show me the meaning of being lonely.mp3
7 comentários:
Caraca... Menina você escreve cada vez melhor. Em 2001 eles também vieram ao Rio eu já morava aqui há 4 anos. Já estava no segundo ano de faculdade.Me lembro que foi uma loucura o show, e mais ainda tentarvê-los no copacabana palace. Sempre gostei deles. Não tenho vergonha de assumir isso, até porque acho que gosto é uma coisa particular. Nenhuma outra boy band emplacou tanto na minha quanto eles. Nem gostava muito de boy band, mas gostava deles. N´sink, Five... Ouvia, tocava na rádioa, mas os Backstreet sempre tiveram diferencial, além de rostinhos e corpinhos Lindos. O Kevin era um dos meus favoritos e com certeza faz muita falta. Para mim eles lembram sempre esse período de mudanças, do começo da minha faculdade, das festas que eu ia, das reclamações dos garotos quando começa a tocar os primeiros acordes. Hoje em dia não me classifico em nenhuma tribo de música, porque adoro músicas em geral. Principalmente umas antigas e segundo minha irmã muito bregas. Sei ás musicas que eu não gosto em contrapartida, mas não me privo de ouvir nenhum estilo. Você falou uma coisa no seu texto que mexeu comigo, que a muito não ouvia e meus futuros filhos sequer saberão o que é: FITA K7.Gente eu tinha coeleção. Músicas selecionadas. Tudo que eu gostava. Está tudo hoje encaixotada junto com as coisas de uma das minhas mudanças em poder do meu pai. Pai este que tem grande influência na vida musical. Que desde criança fez questão de cultivar determinadas "pérolas" em nossos gostos musicais. Comigo colou mais do que com a minha irmã. Saudades da fita K7...elas me lembram tantas e tantas coisas boas... minha infância....
Fico pensando que ao ver o show ontem quantas coisas não devem ter se passado pela sua cabeça, momentos, lembranças, comparações com o primeiro.
Deve ter sentindo muito a falta da AVA ali com você e ter se lembrado muito dela. Me lembro quando vocês foram da vez passada.
É bom ter algo assim que traga lá de dentro um resgate dos momentos. É BOM TER MOMENTOS PARA RESGATAR. Isso é sinal de que vivemos. De que passamos por essa vida e não foi á toa, em vão. De que temos histórias para contar.
E isso de forma alguma é motivo para vergonha, e lembrar disso de forma alguma é humilhante.
Quem se importa em ser adulto em um momento assim??????
Todo mundo gosta de se apegar um pouco ao passado e uma forma de fazer isso é não se esquecer dele. Não importa a idade que você tenha. Estar ali foi resgatar uma parte da sua história, fundamental para fazer pensar, funadmental para seguir em frente.
O tempo passa, as coisas mudam, a gente cresce, mas sempre que possível é bom voltar, é bom visitar o passado, ver se ele ainda esta ali do jeitinho que a gente se lembrava. "colar" novos pedacinhos ás antigas histórias. A GENTE NÃO CONSEGUI PASSAR POR CIMA OU OMITIR por tempo demais aquelas coisas que fazem parte intrínsecas de nós mesmos, uma hora elas acabam aparecendo.
Espero que esteja feliz e realizada.
Beijos e bom final de semana.
"Good times" [fazendo cara de quem se lembrou de alguma coisa e contempla essa imagem na memória].
Senti-me assim no show do Oasis. Foi uma realização muito grande, tanto que eu acho que não iria a outro show deles. Ainda gosto bastante, mas para mim aquele marcou, foi uma coisa, assim... difícil de explicar. Quero mudar, olhar para frente e conseguir outros objetivos, realizar desejos que ainda esperam por mim.
Teria ido e chorado contigo se tivesse grana. Uma parte daquelas menininhas tolas sempre há de morar em nossos respectivos corações.
Eu fico bem puto com essa história de que os Backstreet Boys já são um negócio nostálgico. Pra mim eles são tão novos que sempre estiveram por aí, no máximo deram uma pausa de 6 meses igual o Los Hermanos, sei lá.
Mas no G1 já tavam chamando os caras de tiozões. O mais velho tem 33. Eu tenho 31, cacete. Pra mim tiozão é o Deep Purple!
Bom, eu sou tiozão. Melhor assumir logo.
EXCELENTE...
Quem sou eu se não essa mesma descrita tão perfeitamente por ti???
Amei... A falta de pudor, a simplicidade dos sentimentos, a coragem de gritar...
Tenho uma lista de nomes para berrar no ´top of my lungs´... descaradamente... Como uma adolescente de 32 anos!!!!!!
QUE VENHAM TODOS E CANTEM PARA MIM:-)
Ai, me emocionei. Juro. Cara, eu era assim como você. Uma fã louca-alucinada por eles. Não pude ir ao show, minha mãe achou uma besteira. Não tinha ninguém mais velho para me acompanhar. Ninguém me entendeu e eu fiquei assim, depressiva, achando que nunca mais seria a mesma coisa. Minha vida estava arruinada! rs
Eu ouvia todos os dias, sabia todas coreografias, todos os sorrisos de cada clipe, amava loucamente, defendia e levantava a bandeira BSB.
Aí o tempo curou. Tanto curou como não cicatrizou. Te falar que não sabia que eles vieram, ou vem pra cá, mas me deu uma vontade LOUCA de ver o show. Ai ai ai
"é ao mesmo tempo uma viagem no tempo e uma confirmação do passado glorioso" foi a definição perfeita.
Eu era louca pelo Brian também e gritaria loucamente se o visse no palco, mesmo hoje!
Esse lance de 'passado' é uma coisa que aflige também, ano passado fui assistir 'O melhor amigo da noiva' no cinema e ofilme começa com os personagens há dez anos (1998) e toca uma música do Smash Mouth que, putz, foi outro dia, né mesmo?
Enfim...
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