terça-feira, 3 de março de 2009

Toda vez que meu pai dá as caras, fica mais saliente sua expressão confusa perante a mim. Tenho quase certeza que ele deve achar que sou esquizofrênica. Enquanto minha mãe tenta de um tudo para dá-lo uma pequena porção de fantasia - ou seja, sua luta contínua em me transformar na caçula perfeita -, ele paga meu cartão de crédito, o que significa que ele tem acesso íntimo às minhas peripécias: é posto de gasolina, bares, empresa do táxi, Estante Virtual, mais bares.

Aí ele vem para cá e me vê. Estou aparentemente normal. Sem sinais de má saúde, exceto a obesidade. Um sorriso no rosto. Mínimas reclamações da faculdade, geralmente ligadas a "são muitos trabalhos". A única vez que ele me viu com uma cerveja na mão foi no meu aniversário, e só porque meu tio estava junto e ele que me oferecia a latinha. Cigarro, nunca, nem pensar, uma vez que ele sequer entra no meu quarto para sentir o cheiro - e só ficou sabendo porque minha irmã me entregou.

Aí ele deve pensar: então por que tanta consulta médica? Por que as contas do bar? Cadê o cigarro? E a faculdade, como está, uma vez que os comentários se resumem a relatos pífios?

Ok, ele tem muito o que pensar, mas deve achar no mínimo estranho as intervenções da patroa, que não abandona meu lado toda vez que ele está por perto. Ela deve ter medo que eu fale demais. Tudo bem, vamos poupá-lo de detalhes como "eu levei um soco em Salvador - viagem, aliás, que você pagou -, e desde então só ando de carona ou táxi", ou "lembra que mudei várias vezes as datas dos vôos nos Estados Unidos? Foi tudo por causa de um macho", ou "sabe a faculdade? Pois é, só valeu pelo diploma e pelas experiências pessoais, porque o restante será jogado no lixo", ou "eu bebo mesmo, pai, foi mal aê". Claro que ele não necessita saber dessas peculiaridades. Porém, não justifica a constante "média".

É sempre assim: ele vem, e eu me transformo em outra pessoa. Eu não aguento isso. Sou a rainha da política da boa vizinhança, no entanto, não sei fingir ser alguém que não sou, principalmente tendo consciência que meu interlocutor possui ao menos uma idéia da realidade. Fico a brincar com os talheres, batendo os pés, arrumando a cozinha ou realizando qualquer outra coisa para desvincilhar o pensamento de "é tudo uma farsa, papai".

Em meio a isso, está minha mãe, interferindo no papo, não me deixando a sós com ele, aumentando o volume da televisão segundos depois que abaixei. E falando atrocidades como "ela vai para tal lugar, é presente de formatura!". Sim, isso já era um diálogo combinado, mas não para agora. Não assim, a troco de nada. Não quando o assunto falado mal tinha a ver com esse. E, principalmente... Presente de formatura? Sim, eu ia usar essa em algum momento, porém, não para essa situação. Eu não mereço presente algum - hello? -, e meu objetivo não é a pura "rolação" como foram as outras aventuras. Pela primeira vez na vida encaro uma viagem como algo além do turismo. Esse, aliás, é a última coisa em minha mente, pois compreendo perfeitamente a crise financeira e o quanto de dinheiro que isso acarretará, e eu nem posso ajudar. Mais: eu não economizei o suficiente nesses meses. Se isso entrou nos planos agora, não posso jogar essa informação ao pobre homem, sabendo que ele ainda tem uma continha do cartão a pagar.

O que minha mãe acaba de fazer é ridículo. Mais uma vez, estou no posto de filha interesseira. Admito que já atuei desse modo por muitas vezes, e é vergonhoso, mas dessa vez não era para ser assim - simplesmente porque não é uma situação que pediu por tal movimento. Me sinto violada e manipulada. E uma filha idiota perante os olhos de meu pai, no único instante que a minha idiotice não falou mais alto.

Minha vontade é enviar um e-mail DR para o patrão, contando minha vida inteira. Assumindo a palhaçada em mim. Cada detalhe sujo, cada falha, sem deixar um para trás. Contudo, ele não merece isso. Ele já tem muito na cabeça. Me resta, portanto, apenas suportar a patroa. Seja lá quais sentimentos estão a levando a agir da maneira enlouquecida que ela tem demonstrado, eu só queria entender. Um pouquinho de luz nos fatos não faz mal a ninguém.


¬ abba - super trouper.mp3

4 comentários:

Aline Tolotti disse...

Vai entender! Seremos mães, avós também. Quem sabe um dia, conseguimos a peripércia de saber como é cuidar de um filho. Deve ser barra, também. Como p/ nós é uma puta barra ser filho. Também não tenho uma relação excelente com meu pai, aliás, nunca tive. Mas sabe a conclusão, por ora, que tirei? Ele sabe, e eu sei do que acontece. Há coisas que não precisam ser ditas e escancadaras. A verdade é crua demais, dói demais. Eu deixo assim, ele lá e eu aqui, fingindo perdão e honestidade um ao outro. Enquanto ainda existe ao menos um sentimento puro e igual, nosso amor. De pai por filho e filho por pai. Isto nada muda, e ninguém tira.
Beijocas.

Aline Tolotti disse...

Oi! Desculpe, o comentário acima é meu. O login foi do pseudônimo. rs..
Bjs.

Anna Carla disse...

Tem um trecho de um conto da Lya Luft que diz que entre os todos amantes (leia-se aqui pessoas que se amam não necessáriamente enamorados romanticamente)...
"há zonas de segredos
necessárias, que também podem unir. Invadidas, talvez provocassem inúteis
sofrimentos. Leva tempo aceitar isso sem mágoas."

Sou mãe posso te garantir que independente de qualquer zona secreta a grande maioria dos pais costumas amar seus filhos, incondicionalmente.

Beijoabraçoapertodemão.

Garota no hall disse...

Esse negócio de paiXmãeXfilho é uma coisa que sei bem. Mas busco minha independência de ideias e de atitudes, não fazer nem falar o que me incitam. Se fez uma pergunta que não quero responder, não respondo. Enrolo, dou voltas, mas a resposta não sai. Por isso vivo tão bem sozinha.