
Diante de pragas passadas tendo filhos, amigos de escola casando, pessoas consideradas gordinhas mostrando seu físico impecável e ex-affairs se ajeitando com gente que me-amarrota-que-tô-bege, tive que tomar uma providência. O mundo está rodando e eu prossigo alimentando paixões arcaicas, lutando contra os velhos problemas e caminhando cada vez mais ao fundo do poço. Em vez de seguir, me encontro estagnada - quando não regredindo -, e isso ocorre há anos. Dessa forma, é chegada a hora de dar o primeiro passo rumo a transformação que, vale frisar, não se trata apenas da necessidade de jogar a gordura no lixo. Preciso e desejo me olhar no espelho e não sentir asco da imagem refletida, dessa carcaça marcada por situações que há muito incomodam. E assim, Cecilia vai à academia.
Já no momento da inscrição, o senhor recepcionista me leva até o treinador, a fim de me oferecer uma maior compreensão sobre os métodos. Imaginando que o dito cujo seria um bombadão Schwarzza que possui em seu repertório um apreço pelo O Rappa e palavras de otimismo desvirtuado, preparei um discurso no qual salientaria meu sedentarismo, obesidade, gosto pelo álcool e fumo, problemas na coluna e pura preguiça. Mas me enganei. O treinador Daniel é um rapaz alto, com músculos no ponto, dono de um rosto com traços delicados, barbinha a fazer, simpático e prestativo. Ele explica com grande paixão seu trabalho e como será realizado o approach, utilizando, inclusive, os termos técnicos (o que evidencia sua possível faculdade de Educação Física). Fiquei fascinada pelo rapazote. E me matriculei prontamente.
Primeira aula. Somente eu e o caro Daniel no local. Eu uó quase sufocando no top e morrendo de calor dentro da vestimenta inapropriada. Enquanto ele me mostrava os aparelhos que se assemelham aos usados na Ditadura, eu o observava com atenção. Deixei meus olhos ferozes perambularem por seus braços, suas costas, sua coxa definida e, porquê não Brasil, por seu pacote - que, aliás, promete. Mesmo sofrendo com os malditos exercícios e seu impacto devastador em meu corpinho frio e desacostumado, não conseguia parar de analisar o pobre homem. Quanta fofura num garoto só! E, ahá, ele conhece Strokes, um bom sinal. Daí, aconteceu:
- Deita aqui, Cecilia.
- Opa.
- Abraça suas pernas.
- Ok.
(Daniel se senta à minha frente e se estira em minhas pernas, segurando-as com força. Jesus me abana)
- Iiiiiisso, 'tá doendo?
(A coluna grita. Eu sofro. Ele aperta mais)
- Hã, mais ou menos.
(Ele aperta mais. Não faz isso, véio. Estou na abstinência há séculos, você em cima de mim dessa maneira só piora)
- E agora?
- Puta merda, você quer me matar?
(A frase possuía conotação ambígua)
- Não, é fácil! Viu como está esticando sua coluna? 'Tá sentindo?
(ôh)
- Iiiiiiisso, sente bem!
(Cristo, acaba logo com essa tortura dupla)
- 'Tô sentindo, Daniel. 'Tô sentindo.
- Iiiiiisso, muito bem! Viu, não falei que era fácil? Você é boa nisso!
(nem te conto, colega)
Pronto. Com terror, constatei o inadmissível fato: estou com crush em um treinador de academia. Um dito cujo com cara de moço correto, de braços fortes, que vai feliz realizar musculação às 7 horas da manhã, possivelmente aluno de Educação Física e fã d'O Rappa. É o fim da linha, minha gente.
Porém, é um agradável e surpreendente fator motivacional. Só desse jeito para eu acordar às 10 da manhã, me vestir com aquelas roupas horrorosas e encarar os instrumentos de tortura. É realmente muito fácil me convencer. Basta colocar um macho de qualidade na minha frente que eu entrego o escudo.
E assim, Cecilia vai à academia. De lápis no olho e batom, claro.
¬ los hermanos - sem ter você.mp3
8 comentários:
Parabéns pela iniciativa e força de vontade menina....
É assim que se fala....
Recentemente voltei a academia tb... E infrno esse negócio, né?
Por que aquela tal de ginástica passiva não funciona, né? ia ser tão mais fácil!
Eu vou sempre na academia... Só porque tenho um cliente que É uma academia... =P
Um incentivo a mais para as idas à academia. Preciso de um desse.
Taí, problema resolvido. rs
Olha, voce foi!
Ótima história, boas tiradas, texto bem escrito e humor no ponto certo. Parabéns!
Ahhh!!! E o "...porquê não Brasil, por seu pacote - que, aliás, promete.", merece um capítulo a parte... rsrsr
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