terça-feira, 5 de maio de 2009

Cecilia vai à academia


Diante de pragas passadas tendo filhos, amigos de escola casando, pessoas consideradas gordinhas mostrando seu físico impecável e ex-affairs se ajeitando com gente que me-amarrota-que-tô-bege, tive que tomar uma providência. O mundo está rodando e eu prossigo alimentando paixões arcaicas, lutando contra os velhos problemas e caminhando cada vez mais ao fundo do poço. Em vez de seguir, me encontro estagnada - quando não regredindo -, e isso ocorre há anos. Dessa forma, é chegada a hora de dar o primeiro passo rumo a transformação que, vale frisar, não se trata apenas da necessidade de jogar a gordura no lixo. Preciso e desejo me olhar no espelho e não sentir asco da imagem refletida, dessa carcaça marcada por situações que há muito incomodam. E assim, Cecilia vai à academia.

Já no momento da inscrição, o senhor recepcionista me leva até o treinador, a fim de me oferecer uma maior compreensão sobre os métodos. Imaginando que o dito cujo seria um bombadão Schwarzza que possui em seu repertório um apreço pelo O Rappa e palavras de otimismo desvirtuado, preparei um discurso no qual salientaria meu sedentarismo, obesidade, gosto pelo álcool e fumo, problemas na coluna e pura preguiça. Mas me enganei. O treinador Daniel é um rapaz alto, com músculos no ponto, dono de um rosto com traços delicados, barbinha a fazer, simpático e prestativo. Ele explica com grande paixão seu trabalho e como será realizado o approach, utilizando, inclusive, os termos técnicos (o que evidencia sua possível faculdade de Educação Física). Fiquei fascinada pelo rapazote. E me matriculei prontamente.

Primeira aula. Somente eu e o caro Daniel no local. Eu uó quase sufocando no top e morrendo de calor dentro da vestimenta inapropriada. Enquanto ele me mostrava os aparelhos que se assemelham aos usados na Ditadura, eu o observava com atenção. Deixei meus olhos ferozes perambularem por seus braços, suas costas, sua coxa definida e, porquê não Brasil, por seu pacote - que, aliás, promete. Mesmo sofrendo com os malditos exercícios e seu impacto devastador em meu corpinho frio e desacostumado, não conseguia parar de analisar o pobre homem. Quanta fofura num garoto só! E, ahá, ele conhece Strokes, um bom sinal. Daí, aconteceu:

- Deita aqui, Cecilia.
- Opa.
- Abraça suas pernas.
- Ok.
(Daniel se senta à minha frente e se estira em minhas pernas, segurando-as com força. Jesus me abana)
- Iiiiiisso, 'tá doendo?
(A coluna grita. Eu sofro. Ele aperta mais)
- Hã, mais ou menos.
(Ele aperta mais. Não faz isso, véio. Estou na abstinência há séculos, você em cima de mim dessa maneira só piora)
- E agora?
- Puta merda, você quer me matar?
(A frase possuía conotação ambígua)
- Não, é fácil! Viu como está esticando sua coluna? 'Tá sentindo?
(ôh)
- Iiiiiiisso, sente bem!
(Cristo, acaba logo com essa tortura dupla)
- 'Tô sentindo, Daniel. 'Tô sentindo.
- Iiiiiisso, muito bem! Viu, não falei que era fácil? Você é boa nisso!
(nem te conto, colega)

Pronto. Com terror, constatei o inadmissível fato: estou com crush em um treinador de academia. Um dito cujo com cara de moço correto, de braços fortes, que vai feliz realizar musculação às 7 horas da manhã, possivelmente aluno de Educação Física e fã d'O Rappa. É o fim da linha, minha gente.

Porém, é um agradável e surpreendente fator motivacional. Só desse jeito para eu acordar às 10 da manhã, me vestir com aquelas roupas horrorosas e encarar os instrumentos de tortura. É realmente muito fácil me convencer. Basta colocar um macho de qualidade na minha frente que eu entrego o escudo.

E assim, Cecilia vai à academia. De lápis no olho e batom, claro.


¬ los hermanos - sem ter você.mp3

8 comentários:

Confeiteira Sonhadora disse...

Parabéns pela iniciativa e força de vontade menina....

É assim que se fala....

Jongleuse disse...

Recentemente voltei a academia tb... E infrno esse negócio, né?
Por que aquela tal de ginástica passiva não funciona, né? ia ser tão mais fácil!

 Thiago Margato disse...

Eu vou sempre na academia... Só porque tenho um cliente que É uma academia... =P

Garota no hall disse...

Um incentivo a mais para as idas à academia. Preciso de um desse.

Alexandre disse...

Taí, problema resolvido. rs

Sunflower disse...

Olha, voce foi!

Nathália disse...

Ótima história, boas tiradas, texto bem escrito e humor no ponto certo. Parabéns!

Nathália disse...

Ahhh!!! E o "...porquê não Brasil, por seu pacote - que, aliás, promete.", merece um capítulo a parte... rsrsr