domingo, 31 de maio de 2009

A Síndrome de Wolverine

(com evidentes spoilers sobre "X-Men Origins: Wolverine". Importante frisar que não li o quadrinho, então só me baseio pelo filmeco)


A questão aqui não é discutir sobre a qualidade de "Wolverine", pois essa simplesmente não existe, e há muitas críticas por aí que comprovam isso com maior propriedade. Também não me prenderei tanto à louvável masculinidade de Hugh Jackman, pois seria falar o óbvio. Ele canta, dança e representa com um charme que transforma até as mais castas em verdadeiras taradas. O foco desse texto é Wolverine - aquele carrancudo sarcástico que todos aprendemos a amar desde o primeiro "X-Men".

Em nossa primeira imagem de Logan, avistamos um selvagem dentro de uma jaula num ato digno de "Ram Jam". A partir de seu encontro com Vampira e as consequentes aventuras com a galerinha do Professor Xavier, descobrimos que suas palavras atravessadas nada mais eram que esconderijos, pois havia ali um coração endurecido. Mesmo com toda a pose de durão (arre), Wolverine era capaz de se doar e de se importar pelo próximo.


Dessa forma, não há lá tanta novidade nesse filme-solo. O que realmente me pegou é que, dessa vez, a faceta mimimi de Wolverine alcançou os mais altos patamares. Nada vemos do homem bruto que conhecíamos. Aqui, "Jimmy" é um sujeito amável que fica todo cheio de frufru ao presenciar certas barbaridades, que prefere se isolar numa colina com uma mulher chata pra burro e que, no final das contas, não passa de um loser. É nesse âmbito que nasce a Síndrome de Wolverine.


Explico: Logan se entrega a primeira mocinha que vê pela frente devido a uma carência causada pela falta de laços familiares (a mãe não vale um real, o irmão é maníaco, e por aí vai). Ele pode até estar vivendo na mata, mas quer companhia. Inocente, Wolvie crê nas palavras da sem-graça, e quando essa morre, jura vingança com um grito desesperado - um dos muitos que se seguirão. Assim, o rapazote parte em sua jornada de sangue, encontrando mutantes tão sem-graças quanto a falecida, pulando para lá e para cá de helicópteros, e realizando uma cirurgia dolorosa (de longe a melhor cena do filme, pois ganhamos uma rápida, porém insatisfatória, visão de como Hugh veio ao mundo). Então, na hora do vamuvê, o malvadinho Stryker decide, a troco de nada, relatar suas estratégias.

A falecida, na realidade, nunca se foi. Bastou uma injeção e algum ketchup para o burro do Logan cair na arapuca. Tudo bem que ela possui, literalmente, o poder da persuasão - e isso sim é verossímel, pois só um poder desse para fazer alguém gostar dessa criatura -; no entanto, o que ele queria era um pouco de afeto, e aquela historinha brega da Lua lhe foi o suficiente. O pobre homem, reconhecendo que foi um otário, sai andando, desiludido da vida.


A síndrome de Wolverine pode ser constatada nessa passagem, que exemplifica aquele clássico momento no qual você percebe que fora enganado por seu(sua) parceiro(a), que todo o trabalho que você passou tentando de algum modo reconquistá-lo(a) foi em vão, uma vez que o cafajeste (ou a vadia) só estava lhe usando com intuitos egoístas. E você, palerma, caiu direitinho no conto do vigário, afinal, você desejava um pouco de amor, carinho e compreensão. É quando você se olha no espelho e vê um carimbo de "loser" na sua testa. É quando você escuta "Balada da Arrasada" no repeat se julgando um lixo por ter acreditado em tamanha sacanagem. Patife (ou bruaca), usufruiu do meu lado mimimi!


O problema é que Logan prossegue acreditando na vaca, e assim o filme se estende por mais alguns minutos. É claro. Como o principal portador da Síndrome que leva sua alcunha, Wolvie necessita dar o exemplo, e, uma vez que sua condição já é precária, só lhe resta a amnésia. Quem sabe assim ele aprende.


E eu, auto-diagnosticada com a Síndrome de Wolverine, peço apenas por uma bala de adamantium para não continuar no caminho traçado por nosso caro meiguinho mutante.

Um comentário:

Garota no hall disse...

"Aqui, "Jimmy" é um sujeito amável que fica todo cheio de frufru ao presenciar certas barbaridades, que prefere se isolar numa colina com uma mulher chata pra burro e que, no final das contas, não passa de um loser. É nesse âmbito que nasce a Síndrome de Wolverine." => Genial!
Adorei o texto, vc se focou em um aspecto do filme que quase ninguém prestou atenção.