quarta-feira, 24 de junho de 2009

Jesus loves you more than you will know


Lá nos meus 10 anos, mamãe me matriculou no Catecismo. Apesar de o "curso" ser num sábado às 11 da manhã, não protestei tanto de início. Porém, já na primeira aula, a beata/professora passou um filme sobre os "Dez Mandamentos" que era tão ruim que quase chorei - tipo quando assisti "Quem quer ficar com Mary". Enquanto ela insistia em uma análise, eu só desejava lhe falar que aquela película era uma heresia por seus próprios méritos, de tão catastrófico. Compreendendo que era melhor eu ficar quieta, fechei a matraca.

Numa outra aula, a sujeita pediu para que desenhássemos Jesus. Fiz um Jesus lindo, de alpercatas, vestidão, cabelos longos, e todo simpático brincando com seus discípulos e com a Maria rindo ao seu lado. A beata, ao ver meu desenho, fez cara de choque e comparou minha arte à do geek ao meu lado, que desenhara Cristo na cruz. Ela disse que eu tinha uma imagem deturpada daquele que salvou a humanidade. Indignada e ofendida, rebati: "Prefiro pensar em Jesus feliz do que sofrendo". Foi o suficiente para eu me tornar a persona non grata do Catecismo. Dali em diante, resolvi fazer da vida da beata um inferno, contra-argumentando toda e qualquer afirmação que ela dava: "Por que irei para o céu só por ter pedido perdão?", "Para onde vamos depois daqui?", "Por que Jesus não bateu em Pedro, depois desse ter o negado?", "Porque Judas escapou?", "Como que o Mar se partiu em dois?", "Como Cristo ressuscitou?" e outras questões sacanas que inventava somente para tirá-la de sua superioridade espiritual. Para completar a revolta da mulher com minha pessoa, durante a missa do Domingo de Ramos, cochilei no altar e, quando o Padre me ofereceu a hóstia, eu a comi, aceitando-a apenas por educação, pois a bicha é ruim que a pega. Certo dia, então, caí em bronquite e nunca mais apareci no lugar. A mulher me ligou por dias, dizendo para minha mãe que eu precisava de salvação. A patroa até que concordava, mas sabia que não tinha mais resgate. Assim, dei adeus ao Católica way of life.

Anos se passaram e comecei a ver outras religiões, desde Wicca (a mulher que nunca passou por essa fase, que atire a primeira pedra) a Espiritismo, porém, sem nunca me aprofundar em alguma. Decidi, então, que religião é somente um nome para algo que está dentro de si, e, com isso em mente, concluí que eu não tinha resquícios de espiritualidade. Não é à toa que, de repente, me vi blasfemando, dizendo horrores e quebrando os Dez Mandamentos na maior cara de pau (pelas minhas contas, só não fiz "Não matarás", mas já fiquei sabendo que "matar" não é necessariamente a morte física, mas sim algo que prejudica o outro. Se for assim, 'tô fodida).

Contudo, cinco anos atrás, percebi que faltava algo. Comecei a me sentir vazia, solitária, como se as conversas interiores nada mais eram que um traço de esquizofrenia. Então, durante uma viagem aos Estados Unidos, Deus me enviou sinais de sua existência. Escapei de ocasiões que até hoje creio que, se não fosse uma mão de alguém lá em cima, não estaria viva. Então eu soube: O que me faltava era um pouco de fé.

Com tudo que ocorreu no último ano, de leves e exageradas suspeitas de câncer (a dermatologista pirou e disse que uma alergia poderia ser tumor, o que foi o bastante para eu correr a oncologistas, apenas para ser humilhada por esses) a socos na cara, tive a certeza de uma influência além da simples sorte. Cá estou eu, com uma tatuagem que remete a Virgem Maria, com fotos de santos na carteira, um anel com uma citação da Bíblia, e rezando o Pai Nosso cada vez que saio de casa. Entretanto, mais do que patuás, acredito que a fé não se trata apenas disso - até porque, o dito vazio sentido há alguns anos prossegue aqui.

Aí, nesse fim de semana do capeta, assisti uma entrevista da Marília Gabriela com o Padre Fábio de Melo. Não discutirei aqui sobre o trabalho desse homem, mas ele disse algo que despertou minha curiosidade e, claro, esse texto: "Me aproximo de Deus no dia-a-dia". Comecei a pensar sobre isso, e caiu minha ficha: Ora, me aproximar de Jesus que é bom, necas. É muito fácil utilizar um anel, porém, fazer algo que coloca em prática os dizeres do tal objeto é infinitamente mais tortuoso. Como é que faço o bem? Não digo sair pelas ruas distribuindo comida, mas de realmente ter uma influência positiva na vida alheia, e consequentemente na minha. Porra, eu fujo feito criancinha de situações-dramáticas como a que se passa no momento, falo absurdos a amigas quando o que elas desejam é um ombro amigo, cago na cabeça de machos quando esses nem tem culpa do que estou vivendo. Não digo "eu te amo" com frequência, não agradeço pelas coisas boas na minha vida - que existem, embora não pareça -, e reclamo de tudo. Uma visão positiva é quase inexistente.

Nessas horas, vêm a cabeça o famigerado "O Segredo", que alega que, se pensarmos de um determinado jeito, o que desejamos poderá acontecer. Não acredito muito nisso, mas creio que há um fundo de verdade. Para exemplificar, recordo-me de uma pobre amiga, vítima de milhões de merdas do cotidiano, que insiste em dizer "as coisas só dão errado". Até que ponto ela mesma não está influenciando para isso? E eu, ao bater na tecla do "sou Evil-Pollyanna", também não exerço igual fator para minha vida?

Afinal, se aproximar de Deus - ou Deusa, ou Alá, ou qualquer outra entidade que não possua uma forma humana -, não é estar em contato com seus próprios anseios e refletir sobre a melhor maneira de realizá-los sem que isso acarrete em desastres?

Ok, pirei na espiritualidade. Vou ali assistir "Paixão de Cristo" e observar o pacote do Jim Caviezel. No final das contas, Jesus me entende. De um jeito ou de outro.


¬ simon and garfunkel - bridge over troubled water.mp3

4 comentários:

Jongleuse disse...

Acho que o mais importante que uma religião pode oferecer, independente de qual seja a escolhida, é o aprendizado sobre como viver em sociedade.
Os 10 mandamentos não servem para te mandar pro inferno quando você morrer, servem para te fazer se sentir no inferno enquanto você ainda esta viva.
A fé de que existe algo maior, algo ou alguém olhando por nós, nos ajuda a tentarmos ser pessoas melhores.
Bom, pelo menos é assim que funciona pra mim...
Buscar ser uma pessoa melhor, na religião ou através de qualquer outra iniciativa, é sempre válida.
Boa sorte!

Anana disse...

Fé é algo muito bizarro. Fácil de perder, algo que se conquista a cada dia mesmo. Just for the record, você fez - e muito - bem na minha vida. E faz a diferença. Fazer o bem é simplesmente ser quem você é, e você é FODA!

Nathália disse...

Religiões e igrejas (ou sinagogas, lojas, templos, pagodes...) são feitas de pessoas e por pessoas. As pessoas são cheias de falhas. Acho que fé e espiritualidade vão muito além disso. Acho que são coisas entre você e você mesmo e entre você e seu deus, independente de religião, de padre, de rabino, de livro sagrado, de lei...
Acho que tem a ver com equilíbrio, com buscar ser uma "pessoa de bem" e com buscar fazer o bem pra todo mundo ou seja: "Amar teu próximo como a ti mesmo". Afinal esse mandamento parte do presuposto de um amor próprio.
E, se vc for pensar, todos os mandamentos cristãos poderiam ser resumidos em "Amar teu próximo como a ti mesmo", afinal se você ama o seu próximo você não sente inveja dele, você não o rouba você não o mata...

Alexandre disse...

Alguém já disse que a fé não costuma falhar.. ela as vezes falha, mas é uma boa amiga. rs

E é muito mais espiritualmente humana do que religiosamente transcendental.