Eu, mamãe, duas irmãs, a cachorra e papai, que mora longe. Essa é a estrutura de minha família. Somos seis (contando o poodle) criaturas de signos diferentes, visões de vida diferentes, e forças diferentes. Em situações consideradas "dramas", temos os papéis já estabelecidos: Enquanto a irmã mais velha oferece um otimismo exarcebado, a mãe fala "eu avisei!", irritando a todos com sua verdade. Enquanto o pai é um poço de sensibilidade com um cartão de crédito, a irmã do meio segura todas as pontas, mantendo todos em seus lugares, praticamente o Padre Fábio de Melo sem o Cristianismo. Já eu... Eu faço omelete, corro atrás de café e cerveja, e faço piadas sobre as celebridades do momento. Em suma, sou a revista Quem em emergências. Nesse ponto, até a cachorra apresenta uma postura mais digna, pois ao menos ela permanece no local, ao passo que eu, após perceber que a tática-Tititi está indo para o saco, corro para um canto e por lá fico, fugindo da situação como se essa fosse o filho do demonho.
Sempre fora dessa maneira, até sexta-feira. A mais velha liga e avisa que perdera o bebê, pela segunda vez em menos de dois anos. Se a dor na primeira ocasião já fora imensa, dessa vez foi ainda maior, devido a expectativa que rondava a criança. "Agora vai", pensávamos. Mas não. Deus quis assim, e assim se deu. O que não esperava era que, agora, eu tinha de tomar o lugar da irmã do meio no quesito "segura o tchan", uma vez que ela está longe. Mais surpreendente: Eu não sabia que era tão difícil ser essa pessoa.
Ok, Cecilia, pensa. A mãe está pirando, a irmã está chorando ao telefone. Ninguém sabe se será necessário a corrida ao hospital, uma vez que o bebê ainda não saíra, estava simplesmenten inerte no ventre. Ok, não pense nisso, a mãe está pirando, a irmã está chorando ao telefone. Arrume-se. Arrumada? Ok. A irmã disse para não irmos ao consultório. Ok, acalme a mãe. Entre no Google e pesquise situações semelhantes para obter informações que servirão de conforto. Ok, continue acalmando a mãe. Foda-se, 'bora para o consultório, a irmã querendo ou não. Ligue para o táxi, dê o endereço. Ok, chegamos. Abrace a irmã e o cunhado e não pense. Ok, hora de oferecer um mistinho. A troco? Não sei, apenas ofereça. Seja mais direta: Quer um cigarro, irmã? Ignore os protestos da mãe e o absurdo desse seu comentário, e acenda o seu. Ok, vamos para casa. "Pode ir para a festa da faculdade, Cecilia". "Tem certeza, irmã?". "Tenho". Foda-se, eu vou. Selecione uns filmes para a irmã. Comédias, "Wall-E". Ok, Cecilia, não se sinta culpada, vá para a festa. Ok, já na festa, finja que está tudo lindo. Isso, dance "Pimpolho". Abstrai, abstrai. Converse com o menino, faça a sedutora. Ah não, engole o choro. Engole o choro, Cecilia. Engole o choro, caralho!
Puft. Adeus ao sonho olímpico. Vi-me chorando perante o pobre moço, que nada tinha a ver com o surto. Mas ele ouviu com atenção, disse as palavras corretas e, principalmente, permaneceu por minutos me abraçando, sem questionar, desvincilhar, ou demonstrar sinais de "onde foi que amarrei meu burro". Ou seja, ele soube o que eu necessitava naquele instante: Um ombro amigo.
Contudo, é hora de retornar para casa. E, no sábado, a irmã pede para relatar o caso ao pai e a outra irmã. Vamos lá, Cecilia, sente-se no computador e escreva um e-mail para o pai. O telefone toca. É ele. Ah não, ele não leu o e-mail, precisarei contar ao vivo. Ai Jesus-Luz. "Pai, aconteceu isso". "Puta que pariu...". O homem sensível que me passou os genes do mimimi chora. Não, eu não aguento saber que meu pai está chorando.
Ok, finja que não aconteceu e vá ao show da Marisa Orth com a mãe. Continue acalmando-a, pois ela não pára com os discursos preocupados. Pobre mulher, ela está desesperada. Não posso demonstrar emoção na sua frente. Finja confiança e relate os sites que encontrou no Google. Não adianta muito, mas tente. "Adie sua viagem, Cecilia". Obrigada, finalmente ela me disse isso. É muita sacanagem eu querer viajar agora.
Ligue para a outra irmã e conte tudo de novo. Ah não, repetir a história dói demais. Planejar viagem em meio a isso dói mais ainda. Tudo bem, adiada. Avise o pai. "Pai, vou adiar". "Tudo bem, filha. Veja aí e me informe". "Sim. Você está bem?". "Já chorei pra danado". Não pire, Cecilia, utilize a mesma estratagema do Google. Uma hora há de funcionar.
A mãe vem conversar. "Mãe, acho que vou cancelar essa porra. O que você acha?". "Fico puta, eu queria muito que você fosse. Mas não sei, também acho melhor". Joguemos no papelzinho então. Cosmos, devo viajar? Me envie um sinal: Três vezes o papel de "NÃO", em caps look. Já entendi. Não vou. Sim, é muito egoísmo. É priorizar o errado. Independente de todos os problemas, ela continua sendo minha irmã e necessita de mim, embora se comporte como se não - algo que sei bem como é, por agir de igual forma. Sem contar que não posso deixar minha mãe sozinha. "É, Cecilia. Se fosse há alguns anos atrás, eu aguentaria. Não mais. Agora já fico muito abalada com essas coisas". É o suficiente.
Que se dane viagens e quaisquer outros fatores. Eu preciso estar aqui. Alguém tem que segurar as pontas. Eu só não sei se consigo, se tenho estrutura para suportar tal situação. Eu só não sei se serei capaz de manter uma superfície calma e confiante enquanto todos a minha volta se despedaçam. Será que possuo essa segurança em algum lugar? De onde, óh Deus, uma menininha como eu conseguirá retirar a força para ser a base? Alguém, pelo amor de tudo que é mais sagrado, pode me explicar como raios eu terei a capacidade de prosseguir nessa faceta?
Eu só quero ser a sujeita que faz omelete, corre atrás de café e cerveja, e faz piadas sobre as celebridades do momento. É só o que consigo ser.
¬ beethoven - 9ª sinfonia.mp3
3 comentários:
Hoje eu realmente não sei o que dizer.
Queria poder te dar um abraço agora.
Eu sinto tanto. Tanto.
Fazia muito tempo que não passava aqui, fui abaixando, lendo, descendo... lendo... eu não posso dizer que imagino o que vc ou ela sentiu, pq realmente não sei o tamanho e a profundidade da dor. Como já falei p/ ela, eu sinto muito, de todo meu coração e espero que a dor logo se cale ou suma, o que imagino ser mais difícil. Seu relato é fato, e tão real quanto o próprio acontecido. Deve ser muito difícil ser forte e ter estrutura para manter suas próprias bases de pé. Espero que tenha conseguido, e a dor esteja mais amena. Beijos apertados.
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