
Sexta-feira à noite. A visita de uma amiga que há muito não via. Minha irmã com cara de animadinha. E o convite: "Então, quer sair?". Vocês sabem que estou há um ano com um dito "stress pós-traumático com sintomas de pânico" (palavras de Dr Sérgio, o barbudo fofinho dono de um consultório desorganizado). Ou seja, uma pergunta tão simplória e corriqueira como essa não é digerida com tanta facilidade - são horas listando os prós e contras, analisando as pessoas que lhe acompanharão, pesquisando sobre o local e outras neuroses que nem valem a pena citar. Para completar a aflição, havia o convite de amigas para outra festa no dia seguinte.
Pois aceitei. Não sei o que me deu, mas aceitei. Já no banho, comecei a me arrepender. Não conheço o lugar, o bairro é tão perigoso quanto a Rocinha, minha irmã e os outros dois acompanhantes não sabem da extensão do caso - o que acarretaria o velho "finja que está tudo bem mesmo que você esteja tendo um ataque", algo que somente prejudica. Seria melhor ir com minhas amigas. Elas ao menos já conhecem esse lado, seja por meio de relatos, seja por terem presenciado algumas crises, ainda que leves. Contudo, lá se vão dois meses de remédio. Já consigo andar uma quadra sem grandes alardes e me controlar caso haja alguém muito próximo a mim numa fila. Além disso, eu precisava de um momento de alegria junto a minha irmã, por razões óbvias. Rezando por uma noite tranquila e tendo o aval de mamãe, que apoiou a decisão, coloquei minha famigerada sombra preta e fui.
E há mais de um ano não tinha uma noite tão divertida. Não foi apenas a balada, que é talvez a melhor coisa que já inventaram nessa cidadezinha de merda, mas porque, pela primeira vez desde fevereiro de 2008, pude dançar sem olhar para o lado. Pude ir ao bar sem me preocupar com os presentes. Pude ir ao banheiro sozinha sem temer que algum projeto de Edivando apareceria. Minha mente estava enfim vazia, não havendo vestígios do sujeito. Me senti tão livre que não me importei com as coreografias esdrúxulas ao som de Elvis e se estava parecendo uma louca por ter um sorriso aliviado nos lábios. Aquele momento era só meu.
Ainda assim, nas vezes em que saí para fumar um cigarro e me deparei com Edivandos em potencial passeando pela rua, o medo ocorreu. Porém, não era aquele temor de outrora. Não senti o coração palpitar de tal forma que poderia pular para fora de meu organismo, não suei frio, não tremi. Era um medo normal.
Foi então que concluí: Embora eu já esteja a meio caminho andado na recuperação e próxima do fim por saber que o depoimento contra o maldito está a um mês de distância, eu sempre terei medo. E não me sinto mal por isso, uma vez que não é o simples medo; é um senso de autoproteção e responsabilidade, é reconhecer meus limites quando no âmbito social. É ter certeza que há certas coisas as quais jamais irei me submeter de novo.
Não preciso, e muito menos desejo ser aquela pessoa que o era aos dezoito anos. Aquela que voltava da balada às quatro da manhã à pé, que esperava sozinha o ônibus, que ia para lugares obviamente duvidosos utilizando o mesmo transporte, que sentava em botecos sujos; em suma, praticamente pedia por um delito. Não. Não mais irei a bares só porque a cerveja é cinquenta centavos mais barata. Foda-se, eu pago R$ 4,50, who cares. Não deixarei de pegar um táxi retornando para casa só porque os outros acham que isso é um absurdo. Não me colocarei em situações em que haja uma dúvida. Não quero deixar de viver, mas tampouco quero ser irresponsável para comigo e ir contra meus instintos. E foi necessário eu levar um dolorido soco na cara e passar por todo esse igualmente doloroso processo para perceber que não há problema algum em não ser mais a Cecilia de outrora.
Aconteceu? Aconteceu, e foi um caralho. Mas agora são outros quinhentos. É hora de seguir em frente e encarar essa nova eu. Evidente que ainda há um longo caminho pela frente, e talvez haja momentos em que não me sentirei como na sexta-feira. Contudo, apenas esse pequeno vislumbre de liberdade já me dá uma imensa sensação de vitória e consequentemente uma felicidade que mal cabe em mim. Sim, é uma vitória, um instante merecedor de volta olímpica, hino nacional e narração emocionada de Galvão Bueno. Um pequeno passo para as pessoas ao meu redor, porém, um grande passo para mim.
Amigos, eu ganhei a primeira batalha. E nunca desejei tanto dar um abraço coletivo em meio mundo.
¬ o rei - não quero ver você triste.mp3
7 comentários:
Obrigada pela visita!
Boas falas hein?
É isso aí! Levantando, sacodindo a poeria e dando a volta por cima, tudo isso em samba exaltação!
Tenho certeza que o seu momento merece um narrador melhor que o Galvão...
Mas fico muito feliz por você! Muio mesmo!
Parabéns... um passo de cada vez, esse é o espírito!
Que óootimo!
É isso aí, dude, uma batalha por vez. A primeira de muitas vitórias!
Beijos e keep on rocking in the free world! (nossa...)
Good News. :)
:) Gostei da sua postagem, fico feliz em saber que tudo vai indo bem.
Ceci wins!
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