Ele nasceu no Rio de Janeiro, em Jacarepaguá, também conhecido como "Jesus, como é longe". Seu bairro era palco de ensaios da escola de samba Império Serrano. Ela, por sua vez, nasceu em Belém do Pará, também conhecida como "Jesus, como é longe". Porém, com a sede de mulher independente que não se satisfazia com a vida simples paraense, juntou os trapinhos e partiu para a capital carioca em 1974.
Chegando lá, ela fez amizade com um sujeito black-power, um advogado malandro que comia uma Chacrete. Eles se tornaram inseparáveis, aprontando horrores por Copacabana, no auge de seu esplendor. Então, o black-power a apresentou a seu irmão, e assim, ela conheceu ele. Alguns anos depois, ele a avisou que seu trabalho marítimo exigira uma longa viagem de navio. Então, ela abandonou o trabalho e embarcou com ele. Mal sabia ela que, naquele instante, estava grávida da primeira filha. Em 80, já de volta ao Rio, tiveram a segunda filha, e só então decidiram se casar oficialmente. Enquanto ele viajava a trabalho, ela cuidava da família. Então, a empresa ofereceu um cargo maior que não demandaria tantas viagens - no entanto, esse cargo seria no novo escritório da companhia no litoral paulistano.
Ela ficou puta. Afinal, ela não saiu de Belém para acabar numa cidade pequena em São Paulo. Assim, ele veio, e ela ficou, até que perceberam que isso não daria certo. Desse modo, vieram todos de mala e cuia, e em 85, nascia a terceira e inesperada filha.
Essa terceira filha sou eu. Paulistinha, para o horror da família carioca, que viria a fazer do meu sotaque a piada mais utilizada em encontros. Mas eles não deixaram que eu virasse tão paulista assim. Entre suas influências, estão a minha pronunciação do R, a paixão pelo Rio, o uso de palavrões, o gingado e o amor por escolas de samba.
Como era a caçula e não podia ir para a farra, ficava em casa com a tia e a mãe, assistindo aos desfiles de escolas de samba. Meu pai continuava a achar que o Império Serrano era a melhor de todos os tempos, e minha mãe era Portelense de coração. Minha tia, também Portelense, fez questão de ensinar o quão ridícula era a Mangueira. Assim passei meus carnavais infantis: regada a pudim de leite e madrugadas. Passei a amar a Portela por pura pressão e Mocidade Independente de Padre Miguel e Viradouro por livre arbítrio. Criei antipatia pela Imperatriz Leopoldinense, simplesmente porque eles eram metidos.
Mesmo com a morte da tia e a adolescência, o carnaval se tornou um período sagrado, uma tradição familiar. Mas, com a vinda do Franz Ferdinand em fevereiro de 2006 num show exclusivo no Circo Voador, parti para o Rio de Janeiro. Embora eles fossem o motivo da viagem, acabei descobrindo o carnaval carioca em seu íntimo. Passeando pela Apoteose antes do início do desfile do Grupo A, vi carros alegóricos na rua sendo montados, as baianas perambulando pela rua morrendo de calor, carnavalescos nervosos, e ambulantes vendendo uma batida deliciosa e de procedência duvidosa. Já na Lapa, completamente bêbada, descobri um boteco com uma junkbox de cd's de sambas enredos, e foi escolher aquele clássico samba do Silvio Santos que prontamente várias pessoas surgiram na porta, cantando em uníssono. Sentada em outro lugar, bebi uma cerveja vendo os desfiles pela TV, com direito a comentários do garçom. Ainda assim, em todo momento, senti falta da minha mãe.
Já em 2008, inventei de ir para Salvador e vi o outro lado do carnaval. Apesar de ser óbvia minha implicância com a Bahia, o que realmente me magoou foi ter passado mais um carnaval longe de casa. Ali, tive certeza de que não nasci para isso. Sou daquelas que a alegria carnavalesca dura um dia. No segundo, já estou meio cansadinha. No terceiro, adoeço (sério, em Salvador eu fiquei doente, com direito a visita ao médico de plantão do camarote). O que de fato me agrada é deitar no sofá, com o ar condicionado ligado, comendo pudim de leite e vendo os desfiles. Gosto de xingar a Mangueira, só por xingar. Gosto de acompanhar a história do enredo. Gosto de pegar uma cervejinha na geladeira e dividi-la com a patroa. Gosto de sambar com ela e minha cachorra no meio da sala.
Por isso, não invento mais sair de casa nesse período. Nesse quesito, me conheço. Prefiro a quietude da tradição familiar à completa esbórnia. Talvez isso me faça uma velha, mas não me importo. Portanto, alô povão agora é sério! Ficarei bem calma em casa, torcendo para a Viradouro e Mocidade. E sambando com minha mãe. E vendo minhas raízes cariocas ir às alturas.
Um comentário:
De Acordo minha amiga...tb quero daki prafrente aproveitar a quietude do carnaval em programas domesticos...já fui pra Salvador, já fui na sapucai ver os desfiles de perto...prefiro assim como você ficar em casa bebendo e vendo os desfiles na Tv...No Ano que fui na Sapucai(experiencia unica e acho que todo mundo deveria ter pelo menos uma vez na vida para ter real noção do que é aquilo lá) choveu e choveu muito....do primeiro desfile ao último... sai ás 6 da manhã sem ver a ultima escola passar, ensopada, com sono... foi maravilhoso ter ido, mas ficar deitadinha no meu sofá e ver os desfiles NÃO TEM PREÇO por isso assino embaixo a sua petição e passo o carnaval em casa tranquilinha... mas de uma coisa discordamos...meu coração CARIOCA é verde/rosa vermelho/branco...sou doente pela mangueira e pelo salgueiro....
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