domingo, 9 de maio de 2010

Padecer no paraíso, really?


(fica a dica: se não assistiu aos filmes citados, pode ter spoilers)


Em homenagem ao Dia das Mães, e baseado em milhões de listas por aí que fizeram o trabalho melhor que eu (como essa), relato a seguir algumas das minhas mães preferidas da ficção. Tem para todos os gostos: Desequilibradas, superprotetoras, ideais, sofridas, por vezes até negligentes. Mas todas são, à seu modo, as chamadas "mulheres de fibra" que adoro ver em ação - especialmente se suas atitudes ilustram um pouco a minha mulher de fibra particular.

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20) Mrs Lisbon (Kathleen Turner) - "Virgens Suicidas"

Mrs Lisbon tem tudo para ser mal interpretada: conservadora até o talo, a sujeita crê que prender suas cinco filhas em casa vai ser o suficiente para protegê-las das maldades do mundo - que, na sua opinião, geralmente vêm na forma de homens ou vinis de rock 'n' roll. Entretanto, ela não contava com a astúcia de sua prole, desencadeando um sofrimento imenso que acaba por destruir a si mesma e sua família. Kathleen Turner faz um trabalho belíssimo que impede que sua personagem vire uma vilã aos olhos de moçoilas como yo. Eu a entendo, juro.



19) Mrs Bennet (Brenda Blethyn) - "Orgulho e Preconceito"

Possivelmente a mais chata da lista, a vida de Mrs Bennet se resume a procurar o marido ideal para suas filhas - e por marido ideal, entende-se um cara rico. Mrs Bennet também possui a mania de dar piti sempre que as coisas se tornam estressantes, principalmente quando sua filhota Lizzie decide argumentar contra o casamento por conveniência. No entanto (e sendo fruto da mente de Jane Austen), essa mulher não é tão superficial quanto aparenta: sabendo da instabilidade financeira da família, ela reconhece que só um macho rico salvará suas moças de uma vida precária. Ou seja, como toda mãe, ela só deseja que as filhinhas estejam bem encaminhadas.



18) Miranda Hobbes (Cynthia Nixon) - "Sex and The City"

Os seriados também oferecem belos exemplares de mamães. A jornada materna de Miranda é talvez a mais marcante da telinha, por ser ela uma mulher que nunca havia pensado em filhos até se ver grávida. Em uma das melhores cenas da série, Miranda faz um ultra som de rotina e descobre que será mãe de um menino; e sua expressão perdida e nem tão feliz ao saber tal notícia é ao mesmo tempo hilária e triste - afinal, o que há de tão especial em saber o sexo do futuro rebento se ela nem ligava para isso? Crescendo como mãe e mulher, Miranda já era uma personagem boa, mas depois desse episódio, virou minha preferida. Por que? Ora, preciso dizer que ficar grávida "de repente" é um dos meus maiores medos?



17) Kate Coleman (Vera Farmiga) - "A Órfã"

Já nos primeiros momentos de "A Órfã", Kate Coleman perde seu filho em uma cena tão terrível que fui obrigada a rodar - e só quem já testemunhou um aborto espontâneo sabe o quão amedrontador esse momento pode ser, portanto, grávidas, evitem esse filme ao máximo. Após o infâme evento, a pobre mulher decide adotar uma criança e em seu colo cai Esther, uma menininha estranha e de passado obscuro. Sofrendo feito uma condenada na mão da aprendiz de Bette Davis from hell, Kate sente na pele que ser mãe está longe de ser o paraíso que tanto insistem em vender. Aliás, recomendo também àquelas que pretendem adotar que evitem esse filme ao máximo.



16) Christine Collins (Angelina Jolie) - "A Troca"

Se Kate Coleman comeu o pão que a Esther amassou, fazendo até a mais materna das senhoras desistirem de procriar, Christine Collins não fica para trás na campanha. Vítima de "grandes corporações" após o desaparecimento de seu filho, Christine sofre mais que protagonista de novela do Manuel Carlos em sua luta para recuperar o moleque perdido, mostrando que mãe que é mãe não conhece limites.



15) Sarah Pierce (Kate Winslet) - "Pecados Íntimos"

Kate Winslet tem se provado uma mãe relutante em seus últimos filmes. Se em "Foi apenas um sonho" ela simplesmente não nasceu para o maior trabalho feminino, em "Pecados Íntimos" ela até cria bem sua filhota fofa. O problema é que Sarah também possui ambições, que foram rapidamente para o segundo plano depois de sua transformação em dona de casa do subúrbio. Eis aí uma mistura perigosa: maternidade e desejo de ser mais. Apesar de às vezes ser um tanto negligente, não há como julgá-la - afinal, se você estivesse na mesma situação, o que faria?



14) Sheryl Hoover (Toni Collette) - "Pequena Miss Sunshine"

Alguma vez você já perguntou para a patroa, brincando ou não, se você é feio? Eu já. Embora a resposta não tenha sido a esperada ("só está gorda, Cecilia"), sabia que a resposta velada na crítica era negativa. Qualquer mãe dirá que seus filhos são lindos, mesmo que sejam a visão do inferno. Além disso, independente do medo e insegurança que sintam, saberão dar uma palavra de incentivo. Sheryl está aí para provar que, ainda que você decida pagar um mico gigantesco, ela estará ao seu lado achando tudo sensacional.



13) Marjorie (Cara Seymour) - "Educação"

Ser mãe também é deixar seus filhos exercerem o livro arbítrio. Jenny jurava que estava abalando ao entrar numa relação com o charmoso e sofisticado David, mas sua mãe Marjorie knew it better. É aquela história do agasalho: "leva que vai fazer frio". Você ignora, é surpreendido por um vento do Pólo Norte, pega um resfriado e é obrigado a admitir, enquanto a velha lhe dá um Tylenol, que ela tinha razão. Marjorie sutilmente alerta que David possivelmente não é flor que se cheire, mas não impede que a filha se foda sozinha, digo, aprenda com os erros. As patroas e suas visões além do alcance sempre são certeiras. Se feliz ou infelizmente, aí cabe a você decidir.



12) Mãe de Jack Twist (Roberta Maxwell) - "Brokeback Mountain"

Em uma cena que dura menos de cinco minutos, Roberta Maxwell oferece uma performance que humilha metade dos membros da chamada "Young Hollywood". Ali, ela enaltece a já citada visão além do alcance, ao deixar claro numa troca de olhares com Ennis Del Mar que sempre soube que seu rebento Jack Twist era gay, mas calou-se para evitar que o maridão preconceituoso descobrisse. Embora nunca saibamos sua opinião sobre o tópico (e nem acredito ser importante naquele contexto), ela protegeu seu filho até o fim.



11) Beatrix Kiddo (Uma Thurman) - "Kill Bill"

E já que estamos falando de proteção materna e falta de limites, ninguém vai mais longe que Beatrix Kiddo. Ela muda de vida e de identidade após descobrir a gravidez, e não contente mata, soca, dá pontapés e destrói metade dos cenários para vingar-se de uma morte que até então imaginava ser verdadeira. Tudo isso em nome da filha - e seu choro aliviado no banheiro é uma das coisas mais lindas que Tarantino já nos deu, e nem precisou de grandes diálogos para fazê-lo.



10) Donna Sheridan (Meryl Streep) - "Mamma Mia"

Donna representa aquilo que todo filho tem medo de saber: Sua mãe um dia foi biscate. Ou teve um romance tórrido com Robert Kincaid ("Pontes de Madison"). Em suma, você não foi enviado pela cegonha. Reconhecer essa faceta da própria mãe pode ser difícil e incômodo, no entanto, são suas histórias prévias que a tornam mais humana e consequentemente auxiliam na construção de um novo relacionamento entre criador e criatura. Por exemplo, minha mãe ficou ainda mais cool após eu descobrir sobre seu tímido sucesso em Copabacana. Ou seja, é bem mais fácil compreendê-la agora sabendo que sua porção-Donna também cometeu erros, sofreu de amor e dançou Abba no bailinho.



9) Mrs Gump (Sally Field) - "Forrest Gump"

Por que não explicar as coisas em frases como "A vida é como uma caixa de chocolates"? Ora, uma mãe tem que rebolar para ensinar algo válido para o filho, e encontrar maneiras didáticas de fazê-lo não deve ser fácil, mesmo que o herdeiro possua o mais alto QI. Sabendo passar pequenos conhecimentos para Forrest até em seu leito de morte, Mrs Gump é uma mulher simples que faz de tudo para dar o melhor para seu menino. E concordemos, é bem sucedida.



8) Elaine Miller (Frances McDormand) - "Quase Famosos"

Ela pode parecer careta, superprotetora, uma verdadeira mala. Porém, Elaine só deseja o bem para William, reconhecendo que o campo o qual seu filho quer explorar pode ser perigoso. Ela põe moral, mas confia o suficiente para deixá-lo partir. Ela chuta mas afaga. Ela cala mas sabe quando e como falar para estabelecer seu argumento. E sejamos justos, qualquer mulher que consegue deixar um ídolo do rock desnorteado merece aplausos.



7) Ann (Sarah Polley) - "Minha vida sem mim"

Dizem que o momento mais doloroso da vida é quando a mãe morre. Graças ao bom senhor, esse momento ainda não ocorreu, mas tenho medo do que será de mim quando ele chegar. Ann está com um diagnóstico infeliz nas mãos e, sabendo do perrengue que as filhas passarão num futuro não tão distante, grava fitas pessoais para que elas continuem com sua presença. Simplesmente lindo.



6) Rosemary (Mia Farrow) - "Bebê de Rosemary"

Vera Farmiga em "A Órfã" poderia muito bem ser a nova versão da pobrezinha Rosemary, no entanto, há uma enorme diferença entre adotar uma "criança" com predisposição à psicopatia e carregar no ventre o filho do capeta. Mesmo sendo avisada de que o bebê não será apenas um infante danado, Rosemary luta pela vida de seu pequeno Exu até o último instante - e é impossível não sentir a dor dessa mulher ao ouvir seu tenebroso grito final. Para ela, o demo encarnado era somente seu filho, nada mais. Isso que eu chamo de amor.



5) Jackie Harrison (Susan Sarandon) - "Lado a Lado"

Não importa se ela é terrível ou carinhosa, ver Susan Sarandon em papéis maternos me tocam mais que qualquer outra, uma vez que ela possui uma forte semelhança com a minha velha - principalmente seus olhos esbugalhados, os quais herdei com orgulho. Mas nenhum me marcou tanto como "Lado a Lado", um facílimo provocador de lágrimas. Jackie é uma mãe sem grandes traços fora do comum, que sofre de câncer. Sabendo de seu iminente destino, ela deixa tudo relativamente pronto para que seus filhos lidem com isso da melhor maneira possível. Como falei anteriormente, o temor perante a morte da patroa me assola, portanto, não é fácil assistir esse filme. Mas sei que, quando chegar a hora (e espero que demore) a dona Jackie aqui encontrará alguma maneira de me ajudar.



4) Selma (Björk) - "Dançando no Escuro"

Já discutimos sobre mães sem limites, mães que fazem tudo para o bem dos filhos, mães que os protegem até o fim, mães sofridas. Pois Selma é a junção desses fatores, sujeitando-se à pior situação imaginável em prol de seu rebento. Ela pode até morrer, mas vai feliz por saber que conseguiu o que queria para o futuro do filho - e de quebra, nos faz chorar feito criança em um dos finais mais deprimentes da história do Cinema.



3) Ruth Fisher (Frances Conroy) - "Six Feet Under"

Ruth Fisher não é a mais perfeita das mães - pelo contrário -, mas é exatamente sua normalidade que faz com que ela seja a melhor matriarca dos seriados. Sua relação com os filhos já crescidos Nate, David e Claire é tão, tão... normal, que passei cinco anos sofrendo por ver na tela os resultados das minhas atitudes, demonstradas na figura de Claire e mais recentemente em David. Ao final de cada episódio, mal conseguia olhar para a patroa, tamanho pesar. Entretanto, ainda que não saiba o que é de fato ser mãe, assistir Ruth Fisher é como ter um sneak peek das alegrias e tristezas da maternidade ao longo dos anos.



2) Maria - Qualquer filme sobre Jesus Cristo

Preciso realmente falar sobre Maria? Porra, ela é a mãe do Messias!



1) Fraulein Maria (Julie Andrews) - "Noviça Rebelde"

Engraçado que a mãe número um dessa humilde lista seja uma madrasta. Fraulein Maria inicia o filme usando o dom da música para conquistar os filhos do Capitão Von Trapp em sua empreitada como babá, apenas para terminá-lo como a mãe que eles sempre quiseram ter. Fraulein é isso: a mãe ideal. O colo, o conselho, o carinho, tudo está ali, e com direito a uma canção para ilustrar. Mais que isso, ela é minha principal mãe cinematográfica, responsável por boa parte de minha criação. Valeu, Maria.


* Menções honrosas: Mrs Flax (Cher em "Minha mãe é uma sereia"); Lorelai Gilmore (Lauren Graham em "Gilmore Girls"); Lorraine Baines McFly (Lea Thompson em "De volta para o futuro"); Dorothy Boyd (Renée Zellweger em "Jerry Maguire"); Claire Bartel (Annabella Sciorra em "A mão que balança o berço").


E meus te-amos e obrigadas eternos à patroa. Porque ela continua sendo a melhor companhia de uma sessão de Cinema.

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