quinta-feira, 1 de julho de 2010

A caixa de pandora


Eu tenho uma caixa rosa, tamanho médio para grande, guardada na parte mais difícil do armário. Ela está lá por um motivo: a dita é o abrigo de lembranças. É lá que se encontram as cartinhas escritas entre as colegas de escola, cadernos de pergunta, cartões de aniversário, ingressos, passagens, agendas, crachás, receitas médicas, alguns objetos (como o colar havaiano roubado de um sujeito que peguei numa festa à fantasia). Em suma, tudo que possui um certo valor sentimental e/ou merece ser guardado.

Em saquinhos plásticos, separo a bagulhada de acordo com quem me enviou, logo, a caixa está dividida em categorias, como é de se esperar de alguém que percorre perigosamente os limites do TOC. Porém, como sou dona de uma preguiça enorme e não acho saudável (emocional e alergicamente) passar muito tempo explorando a caixa de pandora, de ano em ano retiro um dia para limpá-la e arrumá-la, aproveitando também para permitir um momento de nostalgia.

O interessante é que percebi, durante a arrumação de 2010, que a limpeza também serve de catarse. Coisas que por algum motivo não joguei fora há um ano atrás dessa vez foi direto para o lixo sem hesitação - por exemplo, objetos que guardei da viagem à Salvador. Aliás, uma pulseira utilizada na capital baiana misteriosamente se rompeu durante o tempo em que a caixa estava lá quieta, o que só me fez ter certeza de que já era hora de me livrar de tudo que remete a tal viagem infâme. Essa prática também se prova útil para a arrumação em anos vindouros: quando abrir a pandora novamente, sequer lembrarei do que foi despejado no ano interior, uma vez que possuo uma memória semelhante à do protagonista de "Amnésia".

Se por ventura algo sobreviveu à crise de desapego, reencontro-o na próxima arrumação, e o sentimento que provém dessa pode ser lindo. Dessa vez, li uma carta toda colorida e repleta de imagens de "Dawson's Creek" escrita por uma das melhores pessoas que já conheci, falecida em 2009. Ela me dera a carta em meu aniversário de 12 anos, e essa é a única coisa que tenho dela, sendo portanto o único link concreto entre nós - e por isso mesmo, tão precioso para mim agora que não mais a verei ou ouvirei sua risada característica.

Também reli o bilhete do meu primeiro amorzinho (não correspondido, importante frisar). Ele escreveu "à segunda mulher da minha vida, te amo" atrás de uma imagem de dois bebês com os dizeres "amizade eterna". E essa foi apenas uma dos muitas cartinhas do moleque. Considerando-me sua "melhor amiga" e sendo um cafajeste precoce, Vitor enviava essas mensagens durante lições tediosas de Química, e assim que as li, pude me ver novamente naquele laboratório tendo ataques do coração no melhor estilo "crepusculístico" ao observar seu sorriso danado enquanto me passava sorrateiro o papelzinho.

De novo, as escritas de Vitor permaneceram na caixa, separadas na categoria "Machos". Eu simplesmente não tenho coragem de jogar fora aquilo que representa a primeira aparição do padrão que retornaria anos depois na forma de dois outros amigos. Talvez porque ache graça da safadeza infantil do menino. Talvez porque ache graça do que sentia por ele. Ou talvez porque isso me faz recordar da maior lição da terapia: não repetir o velho erro de acreditar que ser amiga de um crush é a melhor maneira de se aproximar. Afinal, esse padrão ridículo agora é consciente, então nada mais justo manter as evidências.

Sim, evidências! A comprovação de uma vida, partes de outras Cecilias que já habitaram a mesma praça, o mesmo banco, as mesmas flores e o mesmo jardim. Cada uma foi essencial para que eu chegasse ao momento presente, e da pandora, só quero retirar o lado bacana dessas moças. Porque coisas ruins são fáceis de reviver - difícil é revisitar os instantes de felicidade.

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