quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Under pressure


Estou acostumada a tomar decisões por impulso. Mesmo tendo adaptado essa faceta com o decorrer dos anos, continuo funcionando melhor quando não há um grande planejamento, assim a frustração é diminuida caso algo dê errado.

Porém, quando seu sonho é ir para o exterior, ter um plano não é só necessário, como prudente. Qualquer situação em uma viagem curta resulta em lucro, nem que seja pela experiência de vida, mas uma mudança drástica como essa não pode ser tratada da mesma forma; principalmente se levar em consideração o fato de que essa é a primeira vez que saio de casa - uma casa bem localizada numa cidade relativamente pequena que possui uma mãe que sempre tem 10 reais no bolso, uma faxineira/cozinheira e um quarto individual. Além disso, meu currículo é vergonhoso, tendo tido apenas dois empregos que duraram no máximo seis meses. Tenho certificados que dão um certo ar de badass, mas isso mal vale algo aqui, quanto mais lá fora. Em outras palavras, sou um vácuo no que diz respeito a experiência pessoal e profissional, e preciso reverter esse cenário. Tenho 25 anos na cara e ainda me sinto uma criança.

Claro que estou escolhendo o caminho mais difícil. Faria mais sentido se, por exemplo, eu me mudasse para São Paulo: é perto da familiaridade do lar, as pessoas falariam minha língua, trabalhar como lavadora de pratos sequer seria uma opção, e qualquer desespero financeiro seria resolvido com uma ligação local para papai. No entanto, sinto que já perdi tempo demais. Passar um ano na selva paulistana poderia me dar uma base mais fortalecida para encarar outro país, mas consumiria preciosos 12 meses.

Então surge a grande idéia de ir para a Irlanda. A irmã já foi, então há um certo conforto, pois ao menos alguém próximo conhece o local; e isso também ajuda a acalmar os nervos da mãe (e ora, os meus também). O povo é conhecido por ser beberrão e simpático, não muito diferente dos brasileiros. Eles falam inglês, língua que estudo e amo desde pivete. E o mais importante, há a possibilidade de trabalhar e uma política mais light quando o assunto é imigrantes. Mas a terra dos leprechauns está afundada na crise e a opinião da galera legal das comunidades do Orkut é "não venham, pois fica mais emprego p'ra gente".

Essas condições apontam para uma só coisa: um planejamento cuidadoso. E eu não sou boa nisso. Cada bifurcação é uma agonia: que agência de intercâmbio é melhor, qual escola é mais acessível, que data, onde morar, que documentos, quais habilidades podem ser transformadas em emprego, quanto de dinheiro levo na mão, quanto deixo separado aqui? Uma questão leva a outra e no final acabo chorando em frente do documento em branco do Word que grita "Cecilia, pense muito bem!" e "Cecilia, você precisa ver isso logo!". A vontade de me jogar na cama e deitar em posição fetal é enorme, mas o relógio está correndo e se eu bobear, passarão mais seis anos e não fiz porra alguma.

Desse modo, eu, que nunca utilizei o poder da concentração, agora preciso dele como se fosse água. Como raios estou lidando com isso sem o auxílio de psicotrópicos é um milagre, mas vejo que daqui até maio - o mês que escolhi por pura nostalgia -, terei de recorrer. Ao mesmo tempo em que há aquele vuco-vuco de fechar o acordo urgente, há também o pavor de que, se for a decisão errada, fodeu.

Na atual conjuntura, só me resta achar o foco e rezar para Cristo que tudo dê certo. E fazer sessões intensas de terapia.

4 comentários:

Julia disse...

Não se desespere tanto, o inesperado sempre encontra um jeito de se aconchegar onde menos esperamos.
Respire algumas vezes e continue o que fazia, caso não funcione, repita o processo e grita para alguém te ajudar.
Vai dar tudo certo.

marthacomth disse...

Take it easy, little Cecilia.
Ok, morar no exterior gera um super medo em relaçao à garantia de condiçoes dignas de vida. Mas por outro lado, é a fase em que vc se autorisa a fazer besteira pq vai estar levando ao extremo o principio de "tentar antes pra ver o que acontece depois". Vc NAO PODE ter nenhuma certeza sobre o quao certo vai dar, vc apenas sabe que vai ser uma oportunidade de viver uma experiência unica (clichê but true). Eh soh a minha opiniao, é claro. Mas vc pode tanto pirar e tentar ser uma outra pessoa num contexto em que ngm te conhece quanto ter uma sindrome de Peter Pan com a vida adulta (ainda mais dificil quando as pessoas nao falam sua lingua), ou vc pode ainda QUERER ser adulta da sua propria maneira... Enfim, enfim. Soh posso te assegurar que vc vai descobrir mto sobre vc (mas isso vc jah desconfia, nao é?). O resto vc nao pode saber... Entao se joga :)

fabiana disse...

Garantia de condições dignas de sobrevivência nunca se tem, nem aqui nem lá fora, mas, quem não arrisca...

Anômima disse...

Eu me identifiquei muito com seu relato, suas dúvidas e sua decepção com a vida por aqui. Concordo que seja uma decisão que requer muito planejamento e "pense bem", ao mesmo tempo em que a ansiedade diga "não aguento mais esperar". Por um lado, você tem alguém na Irlanda. Por outro, a crise está realmente feia por lá. No mais, uma tentativa só te dá mais experiência. Se não der certo, volte com uma coisa na cabeça: "eu tentei e foi bom enquanto estive lá".