domingo, 21 de outubro de 2012



Há um exato ano, você dizia adeus a Dublin, terra linda da qual sente uma saudade imensa - tanta, aliás, que tudo que faz hoje é planejar um modo de dar um pulinho lá, apenas para abraçar irlandeses receptivos, dançar um rock 'n'roll no Whelan's e tomar uma pint original. Pena que você ainda não encontrou a mina de ouro, casou com um milionário, ou sequer ganhou o Avião do Faustão.

Sim, porque o dinheiro é a demanda da hora. Desde que pisou nesse país, o principal tema de discussão na mesa do jantar é o vil metal, mais precisamente as maneiras que você e sua família podem economizá-lo e ganhá-lo. A parte da economia é fácil: basta pegar as faturas, um pedaço de papel, uma caneta, e colocar em prática a matemática aprendida na 2ª série. Perturba-se dois ou três atendentes, aplica-se novos planos, e tcharam, economy!

Há também a questão de prioridades: inventou de ir no show da Lady Gaga? Então, minha filha, fica em casa. Acabou a palhaçada de gastar horrores em álcool toda semana. Ou vai no show ou vai naquela baladinha estúpida para saciar a macaquice de um mero sábado, ainda mais por saber que você vai beber feito o Nilo, gastando o mesmo que o ingresso. Ah, e vai esquecendo de qualquer outro show que você já viu. Se é para se comprometer, lembre-se que só a taxa de conveniência equivale ao condomínio, à internet, ao supermercado, e ao cigarro. Portanto, escolha seus eventos com sabedoria.

Eis que entra a parte do ganho. Sei que este ponto lhe agonia, pois decidiu ser tradutora freelancer ao invés de procurar um emprego fixo, e sente-se culpada por isso. É claro que mamãe e papai prefeririam que a caçula já estivesse estabilizada a essa altura do campeonato. É claro que eles se sentiriam mais tranquilos se você tivesse um trabalho normal como todo mundo. Mas você sabe de suas limitações no que diz respeito a "equipe". Este não é o seu forte - você é bem mais produtiva e feliz trabalhando só, com seu pijama, ouvindo axé, do que num escritório recebendo ordens, cumprindo metas e ouvindo lounge. Você já viveu isso e não a fez bem. Você compreendeu desde cedo que este não seria seu futuro. Logo, quando estiver entrando na onda da culpa, confie no seu taco. Nos poucos meses de experiência, você obteve certo sucesso e se orgulha disso. Só não precisa forçar este orgulho aos outros - lamento dizer, é inútil, e um tanto patético. Mamãe e papai apenas querem ver dinheiro entrando. Esperar que eles - ou qualquer outra pessoa ao seu redor - reconheça "seu valor" é perda de tempo e energia.

Você é boa no que faz. Mesmo. Este é só o início. Ok... Poderia ter começado antes. Você perdeu, sim, muito tempo na vadiagem, depois num sonho, e que bom que teve a oportunidade de aproveitá-los! Mas não é por causa disso que você precisa se martirizar. O importante é fazer sua parte agora. Só não esqueça que sentir-se culpada e sentir-se responsável são coisas diferentes. Entendo que possam se confundir devido ao seu histórico, mas o desafio é esse: cumprir com suas responsabilidades no coletivo e ao mesmo tempo realizar planos individuais de felicidade imediata. Basta pensar em uma maneira de equilibrar estas partes. Continue focando no trabalho que uma hora a coisa flui.

- Mas por que, óh ser que insiste em aparecer para perturbar meu sono dos anjos, você está me falando isso agora?

Porque, garotinha, você está adorando tudo isso. Vá, admita. Você curte essa vidinha. Como disse, pode ser algo enraizado numa culpa infundada ou um modo de se sentir útil para se redimir dos anos perdidos. Mas a verdade é que você gosta de ter coisas reais a pensar, pois cansou de passar noites rolando, sem fazer nada, deixando a mente livre para besteiras que surgiam com facilidade. E olha só, para quem não sabia muito do próximo passo, a vida está caminhando bem. Forçadamente, ela se colocou a sua frente e você está encarando como pode. A tentativa de fugir disso tudo é constante, mas você está conseguindo se manter inteira, sabendo lidar com os dois lados até com certa desenvoltura. Reclamando sempre, mas com uma dose de humor, ainda que infâme. Seguindo assim, quem sabe você consegue juntar a velha e saudosa esbórnia com essa nova carinha correta? Já era em tempo, né?

2 comentários:

Mariana Zambon Braga disse...

"welcome to the real world", she said to me...

É bem frustrante ter que colocar as coisas da vida real como prioridade e saber que você vai perder o show da sua banda do coração porque hoje em dia show de rock é coisa pra boyzinho... 400 paus pra ver o Pearl Jam é muito surreal pro meu gosto. Ok, é um festival, tem várias bandas... mas mesmo assim, hoje tudo tá tão caro... dá desgosto!

Quanto a ser tradutora freela... na boa, dude, é bem melhor do que ser fixo. vá por mim, daqui um tempo as coisas se encaixam =)
Fico feliz que tudo esteja se encaminhando! Segura na mão de Deus e, precisando, tamos aí!

Beijo!

Tatiana disse...

Ah, comadre! Creio que viramos todos adultos.
Antigamente isso me parecia um drama. Hoje, é bom também.

Boa sorte, ma cher! =)