Seis da manhã. Cecilia deveria estar no banho, fazendo sua maquiagem e vestindo sua calça jeans vergonhosamente furada. Em uma hora, teria que estar no ponto de ônibus, fumando seu cigarro matinal e ouvindo suas músicas no foninho, enquanto pensa em qual ônibus pegar para chegar ao estágio. Mas ela tem preguiça.
Cecilia deveria estar feliz por enfim ter uma ocupação nessa vida desregrada. Não deveria sentir tanta dor, afinal, o estágio dura no máximo três dias e faz parte do currículo. Mas ela só pensa: "puta que me pariu, tô fodida".
Cecilia fala palavrão até em pensamento. Sem nenhum tipo de pudor, profere tais palavras em filas de banco, trânsito, seminário, balada. É feio para uma menininha, mas ela não é tão menininha assim. É uma ogra, um monstro do pântano, que faz cara de paisagem quando alguém chora em sua frente, que usa seu cigarro como arma de combate para queimar levemente os cabelos impestados de Kolene das cocotinhas irritantes na balada, que diz aos músicos para nunca mais cantarem tal música pois esta é demodê; que fala, durante um encontro com um fuck buddy em potencial, que está pensando em outro. E que ainda defende com fervor sua reação com argumentos como "porra, estou sendo sincera, não era isso que você pediu, seu otário?".
Oras, o sujeito não deveria ter se assustado tanto. Afinal, ele sabia que Cecilia preza pela sinceridade descontrol, por mais que esta possa ferir o orgulho alheio. "Que se foda", Cecilia pensa, "pelo menos não é o meu". Claro, ela já sofreu demais; seu orgulho fora pisoteado trilhões de vezes por leões ferozes e hoje prefere sua dignidade. Depois de tanto, Cecilia finalmente pode se dar ao luxo de ser egoísta. Egoísta, malvada, vingativa. A madrasta da Branca de Neve.
Mas Cecilia, na verdade, nem gosta muito de estar nessa situação, por mais divertido que seja no início. Como boa representante da "turma do deixa-disso", Cecilia prefere a reclusão a causar danos, enjaulando seu próprio lado negro em nome de um bem maior.
Então, Cecilia se joga nos trabalhos acadêmicos, uma vez que as Olímpiadas já terminaram e ela não tem mais nada para ocupar suas noites. Decide, em plena consciência, que permanecerá acordada até as seis da manhã, para que possa ajeitar seu horário de sono e realizar atividades pendentes como seminários, estágios, supermercado, faxina no quarto. Mas Cecilia sabe que, no fundo, não está com paciência para nada disso, e permanece sentada diante do computador observando os minutos passarem na barra de tarefas e escutando a uma lista do Windows Media Player denominada "Para ouvir durante a noite". Cecilia prefere ficar aqui, deleitando-se na boa seleção de músicas, e pensando que seu computador, esse danadinho, realmente a conhece, por ter feito tal conjunto de canções que falam diretamente para ela nesse momento.
Mas, infelizmente, Cecilia não pode fugir por tanto tempo. Portanto, irá entrar no banho, fazer sua maquiagem, vestir sua calça jeans vergonhosamente furada e enfrentar o estágio desagradável. Reza aos deuses para que tudo dê certo e que possa correr de lá o quanto antes, podendo visitar o antigo trabalho em paz e realizar os afazeres domésticos sem grandes alardes. E enfim adormecer na cama de casal, pensando que ela é, sim, uma menininha, que só deseja um bom travesseiro e um cafuné.
[ no som: feist, "1 2 3 4". "oooh, you're changing your heart" ]
2 comentários:
também ando com essa sensação de que o meu playlist do itunes me conhece melhor do que todo o resto do mundo.
Gente, meu media player me entende perfeitamente também, a ponto de tocar 'put behind you' bem naquele momento entediante do dia.
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