
Telefone toca. Minha amiga alcança o celular com rapidez, dá um sorriso para o aparelho, e atende: "Oi 'mor! (...) 'Tá tudo bem sim, meu vidão. (...) Então tá bom, mozão. Beijo!".
Não contendo a risada, pergunto-a o que raios havia acabado de presenciar, afinal, ela está namorando apenas há algumas semanas. No fervor do novo relacionamento, ela responde com os olhos brilhando: "Ah amiga, estou apaixonadinha!". Tudo bem, sem problemas. Mas... "'mor"? "Vidão"? "Mozão"? Não demorou muito para as risadas irem para o saco e eu iniciar minha clássica palestra de "odeio nomes fofuchos". Indignada com minha falta de sensibilidade, ela diz - para me irritar, pois sabe bem que detesto esse tipo de comentário: "Eu que vou rir quando você estiver amando e chamar o cara de mozão".
Até esse ponto concordo, uma vez que minha vida afetiva é material suficiente para um estudo acadêmico sobre amores não correspondidos. Sabe lá Deus que tipo de pessoa me transformarei quando enfim alguma santa alma vir e me salvar da perdição que é amar-via-única. Contudo, sou contra chamar o outro de "amor" se ele não o é. "Paixão" se pode relevar, já que é isso mesmo no início. Mas "amor"?
Sou a rainha de apelidos carinhosos, atirando "meu bem" e "coração" até para atendentes e comerciantes. No entanto, me recuso a ser chamada de algo que não sou. Exemplo: um determinado indivíduo costumava se referir a mim como "minha menininha" ou "meu anjinho". Compreendo que ele tinha seus motivos, porém, eis a grande pergunta: eu lá tenho cara de menina ou de anjo? Pior, desde quando quero ser ambos, em especial em relação a esse sujeito? Dessa forma, me sentia incrivelmente incomodada cada vez que ele substituia meu nobre nome por esses termos (pois sim, não havia um pingo de ironia em suas palavras). Não que eu desejava ser chamada de "vadia" ou "diaba", mas vamos concordar, "anjinho"? Ora, tenha santa paciência.
Dito isso, devo admitir que parte de mim curte um "minha querida". Aliás, uma outra criatura (e estou sendo amável ao defini-lo assim) sabe muito bem como fico balançada - para não dizer a verdadeira destaque de carro alegórico - toda vez que ele faz aquela carinha, me puxa para um abraço e diz gentilmente "ôh, querida!". No mesmo âmbito, não tenho problemas em apelidos criados pelas partes envolvidas, pois creio que esses são mais significativos do que os já manjados por aí, como o substantivo aqui discutido. Exemplo está na maneira como eu e um psycho-mor chamávamos um ao outro de "boi", ou similares expressões agrícolas, simplesmente porque passamos uma noite juntos assistindo leilões de fazenda.
O que me é insuportável não é a melosidade imposta em tais vocativos - apesar de ter certo asco de meninices desse porte -, e sim a nomenclatura dita de forma errada. Não sou amor de ninguém, então, para mim, isso não passa de uma estratagema para me fazer crer na realidade desse suposto carinho.
No entanto, minha aversão a esse tipo de comportamento não me faz um monstro rude e sem coração, como minha amiga sutilmente impôs. Evidente que meus imensos problemas afetivos - em grande parte devido a esses infelizes galanteadores e as vezes as quais caí em seus contos do vigário - me impedem de sentir qualquer coisa senão desconfiança quando alguém começa a vir cheio de nhé nhé nhé para meu lado. Ainda assim, não significa que não esteja aberta. Não espero e tampouco corro atrás (já está claro como água cristalina que aquilo que desejo está longe de ser um amor), entretanto, também não o negarei caso um dia isso venha a ocorrer.
Prossigo sendo a mesma moça de sempre: a romântica inveterada que chora vendo novela e "Titanic", que gosta de flores e toda aquela baboseira. A única coisa que peço é a verdade na intenção, seja no envio de rosas ou na forma de chamar meu interlocutor, e vice-versa. Porque, particularmente, jamais chamaria alguém de "amor" caso não o amasse.
Desse modo, fica a dica: "mozão" é o caralho.
¬ samba enredo da mocidade independente - 1985.mp3
11 comentários:
super concordo.
Perdi a dignidade. Chamo ele de "amor". Prontofalei. Ou seja, fica aqui o meu conselho: cuidado que um dia a roda vira!
Môzão, môzim e cia ltda.
Eca!
Eca!
Eca!
existem 3 tipos de seres, que muita gente cisma em fazer aquela voz de 'criança boba': cachorro, criança e namorado...Meu, o cachorro vai abanar o rabo se vc tratá-lo normal ou se fizer a tal 'vozinha'. A criança, além de tudo, vai te achar um imbecil por fazer aquilo. E o namorado, ou faz a mesma 'vozinha' ou vai olhar com cara de 'oi?"
Belo post meu anjo!
=P
Mas isso aqui tá sendo atualizado e eu ignorando? Tilt no meu link do seu blog. Fuedas, minha cara. ("minha cara" pode? rs)
Apelido? No máximo as primeiras sílabas do nome. De resto, pode esquecer. Não chamo e não quero ser chamada assim.
PS.: Esse negócio de "Mor" é muito engraçado... brega demais...
ahuhauhauhau!
concordo em gênero e número!
beijos
Adorei esse post!!! Me fez lembrar uma pessoa... Tb adoro flores, romantismos e etc, porém esses adjetivos acabam com qq relacionamento!!!
De fato, eu tenho inveja da Debora Secco. Todo cara que ela namora há dois dias, é o homem da vida dela pra sempre, e ela acredita, tanto que ela faz essas tatuagens. E não é uma vez, são todas as vezes. Não sou assim, eu muito, muito, muito raramente me entrego.
Pior chamar de Mor.
beijas
Acho ridículo esse negócio de "amor", "mor", "bem", etc. Até gosto de apelidos, mas os mais originais e com algum contexto. No mais, posso até usar um "querido" ou "anjo", mas acontece mais falando com criancinhas mesmo. Ah, e cachorrinhos, que eu chamo a todos de "neném" ou "neguinho/a", sei lá porquê rs
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