quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

O outro


Para alguém que possui um grande número de amigos no Orkut, é difícil compreender a solidão. Mentira. Se você olhar atentamente para sua lista, quantas dessas pessoas realmente lhe importam? No meu caso, poderia muito bem resumi-los em cinco, no máximo dez. Apagaria inclusive membros da família a quem não troco sequer um "oi" há anos, e se o faço, é porque minha mãe atirou o telefone em mim para eu desejar "Feliz Natal".

Clichê e redundante que pareça, é de conhecimento geral que relacionamentos humanos são complicados, em especial com o passar dos anos, quando cada vez mais você se encontra sozinho e desamparado, entregue a uma inércia afetiva que jamais poderemos entender. Por essa razão, filmes como "Lars and the real girl" e "The Visitor" são verdadeiras perfeições para nós, solitários inveretados.


O primeiro citado nos conta a história de Lars, um moço recluso e tímido que encontra seu par após pedir pela Internet uma boneca inflável. Não aquela clássica bocuda, e sim uma com semelhanças incrivelmente creepy com seu material bruto. Se para sua família, Bianca (sim, a boneca) é um atestado claro de alucinação por parte de Lars, para ele a moça é nada mais do que isso - uma moça, alguém com uma história, alguém para lhe acompanhar, para lhe entender, a única que ele suporta o toque. Enquanto isso, temos "The Visitor", que nos apresenta a Walter Vale, um professor pacato que há anos ensina o mesmo conteúdo e evita qualquer situação a qual ele necessita estar entre pessoas. Quando ele precisa ir em uma convenção educacional em Nova York, descobre um casal de imigrantes vivendo em seu antigo apartamento.

A primeira instância, esses filmes não têm nada em comum além de ótimas direções, lindas histórias e belas atuações dos protagonistas (fantásticos) Ryan Gosling e Richard Jenkins, respectivamente. Contudo, ao analisar bem suas temáticas, é possível estabelecer um paralelo: em ambos os casos, temos em nossa frente homens solitários que, em determinado momento de suas vidas, são obrigados a enfrentar aquilo que mais temem: o contato.


Se em "Lars and the real girl" entramos na mente do rapaz (e consequentemente acreditamos em seu amor por Bianca) por meio de consultas psiquiátricas as quais ele jamais percebe que está sendo submetido, em "The Visitor" vemos o professor em um processo de mergulho na vida alheia. Nas duas situações, presenciamos a "saída da bolha", a "quebra da concha", ou seja lá qual metáfora você deseja utilizar para retratar a maneira como um indivíduo se depara com o instante que necessita sair de seu mundo e encarar o de fora.

Por esse motivo, assistir esses filmes é doloroso para qualquer um que se identifique, de uma forma ou de outra, com tal situação. Apesar de retratado de modo engraçado - é impossível não rir das cenas do Prof. Walter Vale feliz com seu djambe ou de Lars conversando com a família sobre o bem estar de Bianca -, há algo sutilmente penoso em testemunhar o processo, ou "elaboração do luto" como diria minha cara psicóloga, desses seres.


No entanto, existe otimismo (Poppy-way-of-life mais uma vez vindo à tona). O mais fantástico dessas produções é que, após tudo que vemos, podemos nos sentir um pouco esperançosos. Afinal, o contato com os outros é que faz de nós o que verdadeiramente somos. Não há vida (como em "Lars") nem expectativa (como em "Visitor") quando não nos aproximamos de outras pessoas. É a necessidade plena do ser humano em sentir o toque alheio, em ter alguém a quem contar ou dividir experiências.


Podemos ter uma essência solitária, porém, a vida nada significa se não há alguém para nos envolver. Alguém (a moça - de carne e osso - que possue uma crush em Lars), ou algo (o djambe), que faça a vida valer mais a pena.

2 comentários:

Garota no hall disse...

Quando vão lançar Lars no Brasil? E Half Nelson?? Ah, distribuidoras incompetentes brasileiras... se nem o último do Tarantino chegou oficialmente aqui >:-(

Zandali disse...

passando para conferir tuas indicações e te deixar menos carente! rs...

essas reflexões sobre as relações humanas (?? - rs) são sempre muito bem-vindas... ah, mundo caótico!

mas, gosto da metade da linha lista do orkut, o que chega a 300 pessoas + ou - !

beijos mil!!