
Hoje revi, pela milésima vez, um dos meus filmes preferidos: "O Fantasma da Ópera", versão dirigida por Joel Schumacher e estrelada por Emmy Rossum e o ai-me-segura Gerard Butler. Como já estou acostumada, nada me parecia novidade. Contudo, algo me veio à mente ao assistir a esta cena, e como essa me deu uma nova visão da história:
Em "Music of the night", Phantom, após aparecer sorrateiramente no espelho de Christine Daae e levá-la ao seu calabouço, descreve as maravilhas que poderão ser encontradas caso a moça se renda à "música da noite", e como ele estará ao seu lado para acompanhá-la em seu processo. Ele a mostra, satisfeito, seu brilhante espaço com um opulento piano ao centro, consciente que Christine aceitará sua proposta sem grandes esforços, afinal, ela jura - e ele sabe disso - que Phantom é "o anjo da música" enviado por seu falecido pai (discussões psicológicas sobre esta relação pai-filha ficarão por conta da Ava, que possui maior propriedade sobre o assunto), portanto, Christine já havia caído na emboscada de O.G. bem antes dele a resgatar de seu camarim.

Mesmo sabendo que a moça está completamente em suas mãos, ou, como costuma dizer, "sob suas asas", Phantom atua como um belo exemplar do ser galante, utilizando seu misterioso sex appeal a fim de comprovar o argumento e deixar claro que Christine não está lá apenas para cantar - e ela, evidentemente, adora isso, apesar de se manter acuada e assustada com a novidade e com a intensidade que Phantom exibe (vide sua reação ao se deparar com a boneca de cera, ou em "Stranger than you dreamt it", que demonstra o quão perigoso e instável o sujeito pode ser), ocasionalmente olhando para trás, reconhecendo que, ao entregar sua mão àquele homem, está abandonando sua existência prévia (e, percebendo a hesitação da garota, Phantom prontamente diz: "Purge your thoughts of the life you knew before"). Ou seja, o que Phantom a oferece é um novo mundo repleto de paixão e descoberta, mundo esse que Christine só poderá usufruir em sua companhia (após explicá-la sobre a situação na qual está prestes a se enfiar, ele diz "only then can you belong to me". Enough said).

Assistindo essa cena, lembrei-me de um livro da Clarice Lispector chamado "Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres". Na obra, Clarice relata a história de Lóri que, sob a supervisão de Ulisses - um homem mais velho, de áurea sábia e com discursos convincentes na ponta da língua -, inicia sua jornada em busca da individuação. Ulisses a garante que quando ela chegar ao fim de sua caminhada se encontrará mais feliz, e somente assim eles poderão fazer amor, pois Lóri estará completa em si mesma, sendo capaz de se entregar a alguém da maneira correta.

Lóri é tão inocente quanto Christine. Enquanto a primeira é uma solitária professora primária que possui um largo currículo de relações vazias, se mantém distante da família e que só encontra a felicidade na sala de aula; a segunda é uma garotinha órfã que vive a cantar, tendo como único relacionamento a antiga paixonite Raoul, que retorna em um péssimo timing, causando imensa confusão na mente já debilitada da bichinha. Ambas encontram em seus homens - Ulisses e Phantom - uma oportunidade de descobrir coisas novas, sendo eles os catalisadores que as conduziram a este destino. Eles as apresentam a uma visão de vida totalmente diferente daquela a qual estavam acostumadas e, justamente por isso, estão submersas em escuridão. É como se estivessem perdidas em uma rodovia deserta no meio da noite: elas desconhecem o mapa e para onde irão, apenas têm o conhecimento de que o caminho lhes foi dado e que devem arcar com as conseqüências rumo a obscuridade presente em si mesmas.

Sendo assim, Phantom não passa de um Ulisses barítono. Um Ulisses infinitamente mais complexado, inseguro e possessivo, mas Ulisses. Pode-se dizer ainda que o protagonista de Clarice é, talvez, a união entre O.G. e Raoul. Em outras palavras: a influência contraditória de Ulisses em sua amante, servindo tanto de estopim para os pensamentos turbulentos de Lóri como também de pilar e referência positiva. A noite e o dia em um só ser.

Em "Fantasma da Ópera", Phantom representa o lado negro da força que leva Christine aos níveis mais confinados do seu inconsciente. Perceba a forma extremamente sensual que ela se comporta na presença de Phantom - alças do vestido caídas, pernas de fora, sombra preta nos olhos, o tom de voz mais forte -, e como ela vacila entre o medo e o fascínio perante o mesmo, como os citados olhares por cima dos ombros, a demora em alcançar suas mãos estendidas, a clássica cena da escada em "Masquarade" na qual ela caminha em direção a Phantom sem saber direito o porquê etc. Já Raoul é a claridade do verão que a traz de volta à consciência: Christine veste uma vibrante capa vermelha, exibe uma expressão torturada que clama por uma salvação e insiste em pedir a confirmação do amor de seu príncipe em "All I ask of you", cena decisiva para a vida dos três personagens.

Todavia, o maior exemplo do efeito destes personagens na vida de Christine está em "Past the point of no return", quando a pobrezinha concorda em ser a "isca viva" da armadilha para abocanhar Phantom em nome da paz no teatro e em sua vida conjugal com Raoul. Se no início ela segue o planejado, basta O.G. pegá-la de jeito - como já havia feito ao se conhecerem - para desarmá-la por completo. Somente ao ouvir Phantom diz as mesmas palavras que Raoul havia dito momentos antes que Christine consegue acordar de seu transe, lançando um olhar de vergonha a Raoul ao perceber o papelão dado, e pedindo uma silenciosa desculpa a Phantom pelo o que está prestes a realizar, sabendo o que isso causará a ele.

De qualquer maneira, é Phantom, e não Raoul, que age como o herói de Clarice. É ele que aguarda pela decisão de Christine, mesmo que impacientemente. É ele que a introduz ao percurso em busca de si mesma, que incita sua curiosidade tanto sexual como amorosa, que a faz combater seu aspecto de boa-moça com a mulher que viria a se tornar. É ele que a faz encontrar sua voz.
No entanto, Phantom não contava com Raoul, logo, seus atos em prol de Christine acabaram por conduzi-la a um destino que não foi a seu favor - diferente de Lóri e Ulisses, que puderam enfim consumir seu amor. O que me faz concluir: coitado do Phantom. O feitiço virou contra o feiticeiro.
7 comentários:
Ainda não li tudo, vocês escrevem muito! rs.. Mas lerei com calma. Guardei o link no meu blog.
Beijos.
Não vi o filme. Não sou ligada em musicais, depende muito para eu dar uma chance e assistir (leia-se Gene Kelly).
ai, me emocionei com a descrição tão detalhada, vi no cinema, gostei mas agora deu vontade de ver de novo!
Então, é curioso como vim parar aqui, achei que você fosse um heterôonimo de uma amiga minha mas acho que me enganei.
Adoro a imagem título do blog, foi imagem do meu caderno por mais ou menos uns 6 meses, inicialmente tive outra foto do mesmo filme por quase um ano, depois fui metamorforsiando o layout até ficar como está. Adoro cinema também, de quando em vez escrevo com esta temática, isto quando minha rotina de "mãeesposadonadecasaquetambémtrabalhafora" me permite. Gostei do espaço e tornarei a visitar.
Fique a vontade para visitar o caderno também!
Beijoabraçoapertodemão!
Reflexão complexa amiga.... assisti o fantasma da opera estes dias atrás na tnt...adoro este filme, mas nunca tinha parado para pensar em tantas coisas e tantos elementos...isso me dá vontade assitir de novo rsrsrs = ) MUITO BOM..... fora que eu adoro musicais....
A única coisa que eu sei é que, esse filme fez eu me apaixonar por musicais!
Assisti o filme umas 3 vezes e gostei muito dessa descrição que fez. Estou louca para ler o livro. O fantasma realmente e muito sedutor ... estou apaixonada rsss
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