sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Daniel é o caralho.

Filmes e músicas marcam a vida. Sim, isso é constatar o óbvio. Porém, há uma enorme diferença entre utilizar fotos de filmes ou citações musicais para exemplificar uma ocasião, e usar os mesmos com o intuito de discutir algo constantemente.

Sou a rainha do primeiro caso: dependendo da situação, as ditas fotos e músicas correspondem à essa. Se estou otimista, lá vai uma fotinho de "Happy-go-lucky". Se fui vítima de um cafajeste que abusou da minha boa vontade, lá estará Lux Lisbon jogada no terreno vazio. Se estou raivosa ou com o capeta, pode esperar para ver a Bette Davis. O mesmo vale para músicas: basta lê-las para saber exatamente o que se passa. Ou seja, não é necessário ser um gênio para me entender. E se utilizo estes recursos, é porque sempre concordei com aquela velha máxima: já houve alguém que falou sobre o assunto antes com maior propriedade (e, no caso de fotos, elas são meras ilustrações). Não é uma questão de "passar uma imagem", e sim uma maneira de colocar para fora algo que está contido aqui dentro sem necessariamente falar sobre.

Porém, já me vi em situações nas quais algumas pessoas levaram este, hmm, "estilo de expressão" muito a sério. Lembro-me perfeitamente de uma longa conversa com uma amiga que insistia em repetir: "meu Deus, eu sou a Clementine do 'Brilho Eterno'! Eu sou a Clementine! Aaah!". "Tudo bem", eu respondia, "eu sou o Joel, e daí, o que isso tem a ver?". "Esse é o problema! Eu sou a Clementine!". Já perdendo a paciência, tentei explicá-la que Charlie Kaufman não teve pica de influência no problema o qual ela se meteu e que, por mais que haja uma identificação, "eu sou a Clementine" não é exatamente uma boa justificativa. Se fosse tão fácil, sairia por aí falando que sou Alexander Supertramp e a essa altura do campeonato estaria morando em um ônibus no Alaska. Ou que sou Giulianna de "Vanilla Sky", e por essa razão possuo o direito de atirar um carro na parede matando a mim mesma e desfigurando o filho-da-putinha que me trocou por uma mariposa. Ou que sou Scarlett O'Hara e comprarei um vestido vermelho para aparecer na festa do sacana que me iludiu.

Esta, no entanto, não foi a pior das situações. O grande rei foi um ex-affair/ex-credo-cruz-como-pude. Era começarmos uma discussão que prontamente ele arranjava alguma parte de uma música do Pearl Jam para retrucar. Tudo para ele era "I'm not the better man!". Ok, isso já está claro, agora, por favor, vamos parar de proferir o nome do Eddie Vedder em vão e partir para o assunto em si? Não. Ele não partia. Terminado o arsenal de Pearl Jam, ele iniciava com "Labirinto". E lá se iam mais algumas horas. Então chegava o ponto mais irritante: "Closer". Eu não podia dizer um "ai" que ele começava seu discurso de como eu era Anna ou Alice, dependendo do contexto. Creio que, em determinado momento, ele teve a patchorra de me acusar de Larry. Mas, acima de todo o ridículo, havia a frase: "Eu sou Daniel, eu sou ele e acabou". Como se isso fosse motivo de orgulho. Como se isso justificasse seus atos. Como se isso pudesse diminuir a dor que me causava.

Veja bem, eu gosto de metáforas. Gosto também, como dito previamente, de utilizar filmes e músicas como pequenos exemplos a fim de trazer uma maior compreensão. Não tenho nada contra isso; sou contra usar a obra alheia quando não se tem coragem de falar com suas próprias palavras. E era isso que o sujeitinho fazia - em vez de assumir, colocava a culpa no Mike Nichols. Fez com tamanha frequência que tanto "Closer" como Pearl Jam, os quais sou fã, se tornaram símbolos de raiva. Nunca mais consegui olhar para o Jude Law sem sentir o mínimo de asco. É eu ver o símbolo da dita banda que pressinto enjôo. E, principalmente, não posso ouvir falar de "Closer" que já encerro o papo - e esse era um dos filmes que mais gostava de discutir (o filme em si, e não o quanto me identifico!).

Ao agir dessa forma, ocorreu algo que não aprecio: a perda total do significado artístico. A partir do momento que você passa a associar totalmente uma música ou um filme a alguém, seu valor é perdido, se tornando um sinônimo e não um complemento. Não importa se a pessoa é o amor da sua vida ou alguém que lhe magoou. Lembrar de uma pessoa por causa desses elementos é uma coisa, outra completamente diferente é essa situação explicada. Filmes e músicas estão aí para dar abertura a reflexão - e, claro, discussões -, mas não para serem usadas como base de tudo.

Sim, eu sou Joel, Lux, Giulianna, Penny Lane, Vicky, Alice, Anna, Amelie, Jack Twist, Ferris Buller, Charlotte, Christine Daae, Lizzie Bennet, Marianne Dashwood, entre tantos outros personagens. Assim como também tenho tatuagens inspiradas em Beatles, Franz Ferdinand e Marvin Gaye. Contudo, esses são apenas partes de mim. Sou, sobretudo, eu. Simplesmente eu.


PS: Agora já consigo escutar Pearl Jam, apesar de ainda ser dificil. Eu só me recuso a ver "Closer".


¬ chicago - if you leave me now.mp3

5 comentários:

tatiana disse...

Isso é complicado mesmo, em especial quando nós é que fazemos as associações. Sigur Rós, por ex., é uma das coisas que mais amo no mundo, mas me faz lembrar de quem não deveria.

Vida salafrária.

Pocow disse...

Adorei o raciocínio, incrível!
:)

Aline Tolotti disse...

Cassete, este tipo de gente deve ser chata meeeeeeesmo. Putz Grila!

Renato Thibes disse...

sensacional!!

e eu sou o maverick de top gun. sem nenhum motivo específico, é só porque é legal colocar óculos de sol modelo aviador mascando chicletes.

Garota no hall disse...

"A perda total do significado artístico". Isso sempre acontece comigo. SEMPRE. Não consigo ouvir Travis e outras coisas que até já gostei. Filmes também, alguns de que gostava bastante não consigo rever. No caso de Closer, é aquela história triste que me impede de revê-lo - sim, um dos filmes mais tristes que já vi, e só uma vez, no cinema.