sábado, 28 de fevereiro de 2009

Milk

Muito tem se falado ultimamente sobre a questão da homossexualidade, principalmente por causa do filmaço "Milk", que rendeu ao sempre fantástico Sean Penn o prêmio de Melhor Ator no Oscar. Eu posso discutir bastante sobre o assunto, mas pouco escrevo sobre o mesmo, uma vez que é algo muito próximo a mim.

Anos atrás, uma grande amiga me chamou a sua casa para conversar. Eu já previa o que era, devido ao seu tom cauteloso no telefone - e porque ela não é uma pessoa que chama alguém "para conversar". Ela vinha, muito cuidadosamente, deixando pequenos sinais: ou dizia que estava andando muito com uma nova colega lésbica, ou jogava comentários como "nossa, a Angelina está linda!". Então, após uns cinco minutos em silêncio, ela finalmente revelou: "Amiga, eu sou gay". Eu poderia tentar parecer uma pessoa melhor, alguém evoluído, mas não vou mentir. Foi um choque, por mais esperado que fosse. Por alguns segundos não soube como reagir, e quando enfim o fiz, eu ri. Gargalhei, na verdade. A única coisa que consegui falar foi "porra, eu já sabia". Foi o suficiente: sua feição, antes de medo e vergonha, de repente se transformou em um olhar de alívio, como se ela esperasse o pior.

E é claro. Como saber como eu reagiria? Principalmente se tratando de uma pessoa que, até aquele momento, não dividia tanto de sua vida, e que era famosa por seus amassos com homens na balada. Do nada, eu era amiga de uma lésbica. Até então, eu só havia conhecido gays por internet, e eram homens. Em minha inocência e rodeada de heterossexuais inveteradas que jamais chegariam perto de uma mulher com objetivos sexuais, era tudo muito novo, e prontamente quis saber detalhes. Por meses, tivemos sessões de "esclarecimento gay", mas ouvir falar é uma coisa, outra é ver por si mesmo. Então, quando vi, me pareceu a coisa mais normal do mundo. Eram duas pessoas extremamente apaixonadas uma pela outra, a única diferença é que, em vez de um beijo entre um homem e uma mulher, eram duas mulheres se beijando, e de forma tão amorosa que não pude conter um "oh, que fofas!". Mais do que duas mulheres, era minha amiga feliz por estar em um relacionamento saudável. E só isso já era motivo suficiente para eu apoiá-la com todo fervor.

Lembro-me que um dos gays que conheci por internet certa vez me disse: "Depois que você conhece um, de repente começam a aparecer outros, e quando você der por si, já estará no meio das bichas e das sapatas". E é verdade. Não demorou muito para eu ser a única hetero em uma mesa predominantemente gay - homens ou mulheres. E essa era minha rotina normal: meus amigos reunidos falando das mesmas coisas que discuto com os amigos heteros. Eu só me dava conta que estava na companhia de homossexuais quando alguém gritava "cala a boca, sapatona", ou "gente, aloca esse viado!", ou "gente, que cara gato" - vindo de um homem, e "aff, ôh mulher boa" - vindo de uma mulher. No entanto, não negarei que no início foi dificil me acostumar. Era algo completamente desconhecido, mas nada semelhante aos esteriótipos e aos avisos da sociedade que aquele era um grupo de pervertidos. Aliás, a conclusão que cheguei foi que a tarada da história era eu. Nunca uma mulher flertou comigo, e, caso o fizeram, era porque eu estava num bar gay e suporam que eu era. Porém, assim que esclareci que era hetero, fui respeitada.

Evidente que tudo isso é a parte bacana do negócio. As risadas, os xingamentos que podem soar pejorativos mas que na realidade não passam de brincadeiras. Contudo, é impressionante perceber o quanto as pessoas que estão de fora ainda não compreendem este mundo - que não deveria ser tratado como algo à parte, mas que ainda é visto como. Sendo amiga de vários gays, acabei virando vítima de algo que nunca pensei que fosse acontecer comigo: o puro preconceito. Já percebi colegas de faculdade lançando um olhar torto ao me verem na companhia de uma lésbica. Já testemunhei relatos do sofrimento destas pessoas ao "saírem do armário". E, o pior, minha mãe ainda crê que alguma colega irá me atacar e me influenciar para o lesbianismo (logo eu, que vivo a comentar sobre o falo), além de acreditar que, por ter esse grupo de amigos, os homens se mantém afastados de mim, o que não poderia ser mais longe da verdade. Ou, caso prove ser a verdade, não são esses homens que quero ao meu lado.

Claro que não sou Madre Teresa. Tenho meus preconceitos e luto contra eles, pois sei o quão ridículos são, e reconheço a dose de dor que isso acarreta. Evidente que também possuo certa dificuldade com homens gays, por uma simples e egoísta razão: eles nunca se interessarão por mim. Mesmo que um hetero não se sinta atraído por mim, ainda há uma remota chance, inexistente no homem gay (e eu possuo tendência de ter crush neles, o que só aumenta minha frustração). Claro que passei mal ao ver pela primeira vez a cena de sexo de "Brokeback Mountain" - claro, era Heath e Jake, dois machos que pegaria fácil, além de nunca ter imaginado que Heath seria o ativo (desnecessário dizer que o choque foi apenas momentâneo. "Brokeback" é um dos melhores filmes que já vi, e um dos meus preferidos da vida). Contudo, eu realmente não entendo o porquê do preconceito contra gays. Creio que esse parta da falta de compreensão, e da falta de chance que dão a eles. Se os conhecessem, veriam que não é nada anormal. São pessoas como qualquer outra. O amor é igual, o sexo atribui igual prazer, os relacionamentos são igualmente perfeitos ou complicados.

Por isso, assistir "Milk" foi tão difícil. Vi meus amigos ali, lutando. Vi o sofrimento destes - e vejo constantemente, bem ao meu lado. Vi o que acarreta a falta de compreensão. E mal posso crer que um evento ocorrido há trinta anos atrás continua sendo tão atual. Dizem tanto que a humanidade evoluiu, porém, ao perceber algo como isso - ou fatos como a Prop 8 sendo negada -, fica óbvio como a sociedade permanece a mesma. E só resta a indignação.

Eu me preocupo horrores com qualquer amigo meu, e por essa razão, meus familiares não conhecem meus amigos, pois sei o risco que eles correm. Evito de toda maneira que eles sejam vítima da discriminação. E espero que um dia eu possa apresentá-los sem necessitar me preocupar, assim como também espero que eles possam ser livres para serem o que são sem terem dedos apontados para eles como se fossem monstros. Em um mundo tão cheio de barbaridades, ser gay é ficha. 'Tá na hora de saberem disso.


¬ bob dylan - 115th dream.mp3

3 comentários:

laila disse...

que texto bem escrito, muito bom, parabéns =)

Aline Tolotti disse...

Seah Penn lindo-maravilhoso!
Cara, nem tenho mais o q comentar de tanto que já falei bem deste filme por aí. Adorei de tudo.
Beijos.

Garota no hall disse...

Nossa... um grande relato sobre o homossexualismo. É engraçado a primeira vez que vc senta em uma mesa com gays, divertido mesmo. Depois vc se acostuma e enxerga as coisas com mais naturalidade.