terça-feira, 21 de abril de 2009

Eu amo minha mãe


Não sei se foi a união pelo escárnio frente ao Dr. Führer, ou o isolamento involuntário devido a falta das duas outras partes, mas, desde sexta-feira, minha mãe anda particularmente falante. Se há uma coisa que a patroa é, é reservada. Essa característica já rendeu diversas sessões de terapia, revolta das filhas e mergulhos apaixonados pelo seu armário em busca de alguma coisa que revelasse um pouquinho dessa criatura tão enigmática quanto um episódio de "Lost". O segredo por trás da matriarca é tamanho que, assim que percebemos que a casca do ovo está se quebrando, criamos uma tática: deixa a velha falar. Faça o máximo para retirar a maior quantidade possível de informações. Faça poucas perguntas, e quando as fizer, escolha-as com cuidado para não atrapalhar o fluxo. E, principalmente, quem ousar interromper leva bronca depois (eu bem sei, já fui vítima de puxão de orelha das minhas irmãs por causa disso). A privacidade da sujeita transformou suas filhas em verdadeiras espiãs da CIA, e com certeza teríamos futuro na profissão - afinal, são anos de prática.

Porém, desde o último feriado na semana passada, ela tem se mostrado mais aberta. Ela relata suas aventuras atrás do Rei Roberto, a maneira como quase morreu no gargarejo de um show do Ronnie Von, e como seu irmão teve um surto de ciúmes quando a viu dançando de rostinho colado ao som de Beatles num bailinho da cidade. Já eu falei mais sobre moi em um dia do que uma adolescência inteira, contando histórias de colégio, brigas com amigas, ex-affairs, primeiro beijo e, porquê não, até sobre o dito cujo que me deflorou. Em determinado momento de pura revelação, aproveitei para dar um piteco impensável, mas esperado por anos: "o problema que ficamos puta - eu, pelo menos - é que você tira as conclusões sem saber do babado. E quando sabe, continua com a mesma conclusão, e isso não apenas irrita como também é injusto. Sem ofensa, mas é". Ela, com toda sua sabedoria aquariana, responde: "Claro que fico com a mesma opinião, é minha, ninguém tasca e eu só mudarei quando achar que os outros estão certos. O que geralmente não estão". Só esse pequeno vislumbre de sua personalidade já daria pano para manga de textos infinitos. Contudo, a patroa ainda guardava maiores surpresas.

Há alguns meses, fomos ao cinema assistir "Revolutionary Road". Enquanto eu respirava fundo a cada cena, a pobre mulher quase falecia ao meu lado. Eu senti que aquele filme a tocara mais do que qualquer outro e, apesar das razões para isso serem óbvias, jamais imaginaria a profundidade da coisa - e o primeiro sinal disso foi as lágrimas que correram em seu rosto; função essa que sempre cabe a mim, a chorona do grupo. Anteontem, ela pediu para eu gravar esse filme, pois queria tê-lo. Fiz o trabalho e coloquei no DVD. Meio dopada pelo antibiótico, a única coisa que lembro de ouvi-la dizer foi "Isso lá é vida!", em uma das cenas em que April prepara o almoço para a família. Então, ontem, em meio ao café da tarde, estávamos discutindo a beleza técnica de Sam Mendes e as grandes atuações de Leo e Kate quando, de súbito, ela repete a mesma frase dita anteriormente. Percebendo sua reação, incentivei. E lá veio a bomba:

"Aquela cena dela fazendo o almoço é de matar. Isso lá é vida! Cuidar do marido e dos filhos? Só isso? Não. É horrível você saber que desejava mais e obter só isso. Eu, por exemplo, poderia estar trabalhando na Petrobrás. Na mesma época em que decidi acompanhar seu pai na viagem, meu chefe me ofereceu uma vaga na Petrobrás. Uma vaga maravilhosa. Um dinheiro sem noção. Um cargo da porra. E eu neguei, porque a mulher deve seguir o marido, né. E já estava tudo pronto. Então fui viajar, e logo depois descobri que estava grávida (da primeira filha). Eu já estava grávida e não sabia. Aí acabei não voltando para o trabalho. Seu pai viajava, trabalhava muito, e quem tinha que cuidar da casa era eu. Eu não tinha mais ninguém, a família estava longe, não tinha como trabalhar e cuidar dos filhos, isso não era comum na época. E eu também não queria abandonar vocês na mão de empregada. Aí fui ficando. Veio a segunda, e então tivemos que casar para poder viajarmos e levar a filharada junto. Até então, só éramos namorados que moravam juntos. Fui lá, assinei o papel, e pronto. Aí ofereceram para seu pai o emprego aqui. O dinheiro era bom, mas eu não queria vir. Ficamos um tempo assim: ele ia e voltava, e eu morando sozinha com tuas irmãs e a empregada. Mas aí ficou difícil e, fazer o quê, a mulher deve seguir o marido, né. Então vim. Aí te tive. E é isso".

Ok, hang on just a fucking minute. Como assim você abdicou sua vida ao lar? Eu já tinha certa idéia disso, mas não que você poderia ter uma vida inteira diferente, e não a fez por conta do maridão. Isso é fuerte, muy fuerte. Você se arrepende? E não, não estou perguntando isso para fazer a vítima e usar como argumento em futuras brigas, como "óh, minha mãe nunca me quis" - já sei que nunca fomos planejadas e somos frutos de seu esquecimento da pílula, e nunca utilizei isso como desculpa. Você se arrepende? Não pensa que sua vida poderia ser diferente?

"Claro. Já pensei muito nisso. Só que são decisões. E como sempre, as decisões vem em dupla - você sempre tem duas escolhas fodas a fazer ao mesmo tempo, e não pode ficar se arrependendo por ter desistido da outra. Era o que precisava ser feito. Se eu tivesse a mente fraca, teria me matado como a Kate Winslet. Não me arrependo arrepeeeeendo, tive vocês, nunca me deram trabalho, então bah. Mas já pensei nisso sim, em como tudo poderia ser diferente. Só não me martirizo por isso".

Depois de um longo suspiro, mudamos de assunto. Evidente que ambas não conseguiriam carregar um papinho depois dessa. Esta é o tipo de revelação que eu acreditava que somente viria à tona depois que ela tivesse morrido, quando eu achasse um de seus diários, num ato típico "Pontes de Madison". Mas não. A Francesca decidiu falar isso agora. E, de repente, tudo ficou claro como água cristalina.

Então está explicado. Não é à toa sua constante preocupação com a dependência da filha perante o namorado, seu olhar de admiração e orgulho para a outra que trabalha feito vaca em busca da independência, sua revolta diante de minha moleza. A agonia em ver suas filhas traçarem o mesmo caminho deve ser tanta que ela não se aguenta e acaba surtando. Ela não quer ninguém dependendo de marido, tendo que abandonar sua vida em prol do parceiro. Não quer suas filhas brigando, pois sabe que no futuro teremos apenas uma a outra, algo que ela não teve por estar distante de suas irmãs. Ela quer que sejamos mulheres fortes e independentes apesar de nossos homens, assim como ela o era antes de embarcar naquele navio.

Assim, com um mísero café da tarde, ganhei um respeito completamente novo por essa senhora que me pariu lá no alto de seus quase-40. E eu nunca senti tanto amor pela minha mãe como naquele momento em que a observei de olhos marejados pensando em sua identificação com a Kate Winslet.

E, se eu já achava minha mãe foda antes disso, agora ela o é mais ainda.


¬ beatles - ticket to ride.mp3

6 comentários:

Anonymous disse...

Bege, fucsia, veludo pink!!!
Eu amo a vó!
Isso explica tudo. Explica a culpa do Pê. Explica minhas aflições inconscientes. Caralho. Pôe a lora pra ler esse texto.

Alexandre disse...

Sua mãe disse tudo. Vida, a de verdade mesmo, é isso. E não dá pra fugir disso. São nessas horas de decisões que sopesamos nossos valores, idéias, vontades, raízes.

E procure convidá-la mais pra cafés como esse. Procure as brechas e descubra mais sobre a sua progenitora.

:)

Confeiteira Sonhadora disse...

Muito bom...
As verdades da nossa vida aparecem assim mesmo como revelações.
Muito interessante essa conversa.
Sempre li você falando que saberia mais da vida de sua mãe quando encontrasse os diários dela. Achei uma oportunidade muito válida tudo que foi falado e dito.
Espero que existam outros filmes e outras conversas como esta na sua vida menina. São conversas assim que nos fazem ver, entender e conhecer verdadeiramente os nossos pais.
Apesar de vivermos com eles nunca sabemos TUDO que aconteceu na vida deles.

tatiana disse...

Rolou uma identificação true aqui.
Teria milhares de coisas pra dizer, mas fiquei emocionada e sem palavras agora.

fabiana disse...

Ay, Jésuis! Que descoberta!

Garota no hall disse...

Que texto spoiler, contou o final do filme... hahaha.
Brincadeiras (mas é verdade!) à parte, que conversa, hein? Deve ter rendido muitos pensamentos, ideias e lapsos de memória.