quarta-feira, 1 de julho de 2009

Ele não está tão afim de você, ouviu?


(com evidentes spoilers para quem não assistiu ao filme. Não que precise de bola de cristal para saber o final, mas fica o aviso)


Não se fazem mais comédias românticas como antigamente. Quantos não foram os sábados em que chorei ao ver Freddie Prinze Jr se declarando para inúmeras mocinhas, dando um show de graciosidade e falta de talento. Devo assumir que nunca liguei para esse último, afinal, quem se importa se o pobre rapaz não sabe chorar nem sob tortura? Sua função era somente uma: ser aquele homem fofo que no final corria atrás da amada. Ele fazia o papel sujo no lugar dessa, ou seja, ele que passava pelo embaraço de dizer que amava alguém. Freddie Prinze fazia tudo direitinho. Passava pelo reconhecimento da moça, brigava com ela a troco de nada exatamente na primeira hora de projeção, e na última meia hora ele ia lá, resolvia toda a confusão com um discurso e o casal enfim ganhava seu "felizes para sempre"; fórmula que resultava no tremendo afago nos corações femininos desesperados por um amor.

Daí que alguma mente esperta e sádica resolveu trazer a realidade à tona, e assim Freddie Prinze Jr perdeu seu emprego e surgem filmes como esse "Ele não está tão afim de você" para acabar com minha raça.

Evidente que o filme possui sua cota de finais felizes, mas, antes de discuti-los, analisemos os personagens que personificam a agrura de uma solteirona (deixarei de fora as casadas):


- Ginnifer Goodwin é Gigi, a representante-mor do mimimi que procura a todo custo por um macho decente, não possuindo sucesso em suas investidas. A razão é óbvia: Ela passa mais tempo dissecando cada detalhe de seus encontros do que de fato usufruindo-os. Ao fazer uma amizade com um rapaz que aparentemente contém todos os segredos da alma masculina, ela embarca numa luta interna entre ser pistoleira e assumir sua porção mulherzinha, para no final concluir que essa última é a mais justa, mesmo que isso acarrete na pura solidão;


- Drew Barrymore é Mary, que, embora quase numa ponta, é o exemplo do que passamos nessa vida virtual. Sabiamente ela diz: "Se eu quero parecer atraente, eu não me arrumo, eu mudo meu perfil". Ela stalkeia machos no MySpace (o Orkut dos americanos), conversa na webcam, manda scraps, tudo antes de conhecer o sujeito pessoalmente. E, claro, esse, se não estiver tão afim, dará o pé na bunda por esses meios, aumentando ainda mais a agonia;


- Scarlett Johansson é Anna, uma piriguete que quebra um dos Mandamentos ao cobiçar o homem (delicioso, aliás) de Jennifer Connelly, usando um molequinho sem graça para acalentar sua auto-estima.


Temos aqui três exemplos máximos da mulher solteira. A pistoleira que se apaixona pelo homem casado, a doida que vive no âmbito tecnológico, e a pobre coitada que tenta, tenta, mas não passa de uma pária no quesito afetivo. Atire a primeira pedra quem nunca se viu em algum desses papéis.

Confesso que sou uma mistura de Gigi e Mary, e não me orgulho. Não é à toa que quis matá-las durante todo o filme, desejando dizê-las "Acorda para a vida, minha filha". O problema é que sou eu quem necessita acordar, e os finais felizes dessas moças não auxiliaram em porra alguma, indo contra ao próprio contexto da película.


Ora, fazer com que Gigi tenha como sua alma gêmea o grande camarada bartender é gritar "Viu, o amor existe e você que não estava enxergando!", mas nós sabemos que isso nada mais é que uma lorota. Pegar amigo só dá merda, e sou prova viva disso, tendo carregado essa cruz por duas vezes. Já Mary... Bem, se apagar o profile do Orkut é a solução, então estou perdida, uma vez que o sujeito com o qual me envolvi - em via única - a partir desse (ou, melhor dizendo, parti desse para ir ao pessoal) me deu o fora de qualquer modo, realizando no campo virtual a mesma estratagema que homens têm usado na vida real: o "ignora-que-uma-hora-ela-entende". Por sua vez, Anna terminar sozinha após ouvir seu macho dando uma rapidinha com a esposa e depois engajar-se num relacionamento vazio é uma puta sacanagem, já que ela, apesar de ser responsável por sua própria cova, foi a que mais sofreu na palhaçada toda (importante frisar que sabemos disso apenas porque compreendemos a situação, não pela atuação de Scarlett, pois pelo que parece ela só conseguiu ser boa atriz sob as rédeas de Sofia Coppola).


Dessa forma, "Ele não está tão afim de você" sinaliza a mudança das comédias românticas. Temos aqui mulheres que comem o pão que o diabo amassou e não ganham uma recompensa digna. Essas histórias são uma mentirada do cacete. A grande diferença entre essa e a mentira do Freddie Prinze Jr é que, na última, ele conseguia aumentar nossa esperança, aludindo àquele aspecto que nos faz pensar: "Um dia terei isso!". No caso aqui discutido, o efeito é contrário: Passamos os minutos finais enganados na cara de pau. Se quisessem o impacto-Freddie Prinze, os finais seriam mais ou menos assim: Gigi solitária mas com a certeza de que sua mimimice eventualmente seria correspondida, pois passara por todas essas confusões para chegar a conclusão que é melhor mesmo ficar sozinha à suportar tamanha imbelicidade masculina; Mary descobrindo o grande amor no MySpace, e Anna com um homem decente.


Dito isso, admito que, lá no fundo, os criadores de "Ele não está tão afim de você" têm razão: A verdade, por mais dolorosa, é a melhor saída. Eu só não queria saber disso agora, carente, sozinha, e querendo fervorosamente um cafuné. Por isso, vou ali assistir um Freddie Prinze Jr e já volto.

3 comentários:

Jongleuse disse...

Comecei a ler o livro mas parei no meio. Achei repetitivo demais.
Quanto ao filme... achei extremamente contraditório. O filme que prega a não ilusão, o não romanceamento de cada sinal, acaba apresentando no final extamente isso.

Renato Thibes disse...

O filme é bom, pena que a mulherada não aprende. Justin Long rules. E o Freddie Prinze Jr que se lasque, eu sou do tempo da rainha Molly Ringwald!

Confeiteira Sonhadora disse...

EU GOSTEI DO FILME....APESAR DE SER UMA DOSE DE REALIDADE BRUTAL E DE EU REALMENTE NAO ME IMPORTAR COM ISSO GOSTEI MUITO. ACHO QUE ERA UMA COISA QUE EU PRECISAVA MESMO VER.ATÉ DO FINAL EU GOSTEI.

ACHO QUE EU ANDO REAL DEMAIS.
CANSEI DE ILUDIR A MIM MESMA ACHANDO QUE O FREDDIE (OU UM CARA SEMELHANTE) FOSSE ESCALAR A TORRE DO CASTELO E ME SALVAR E FOSSEMOS VIVER FELIZES PARA SEMPRE.

JÁ TIVE UMA HISTORINHA DE AMOR ASSIM. JÁ TIVE MEU MOMENTO PRINCIPE ENCANTADO, PRINCESA, CONTOS DE FADAS E FELIZES PARA SEMPRE, SÓ QUE MEU FELIZES PARA SEMPRE TERMINOU COM UM PÉ NA BUNDA DA PRINCESA QUE CHOROU 10 MESES POR ISSO. O PRINCIPE SE CASANDO COM O PRIMEIRO RABO DE SAIA QUE PASSOU PELA FRENTE. PARA MIM FOI MAIS UMA MALDIÇÃO QUE UMA BENÇÃO.

RESOLVI QUE EU NÃO QUERO MAIS NADA DISSO. NÃO QUERO O PRINCIPE, NÃO QUERO O CONTOS DE FADAS E MUITO MENOS QUERO O SOFRIMENTO. NÃO QUERO SOFRIMENTO ALGUM. PREFIRO FICAR SOZINHA.

CANSEI DE SER ENGANADA E DE SER ILUDIDA POR HOLLYWOOD E SEUS HOMENS PERFEITINHOS.

A VIDA REAL NÃO É ASSIM ENTÃO QUE VENHAM OS HOMENS DA VIDA REAL.