
Lá nos meus catorze anos, fui a um show do Beatles Cover com minha irmã. Foi nesse dia que experimentei cerveja e caipirinha e, como consequência, tive meu primeiro porre. Também foi nesse dia que fumei meu primeiro cigarro.
Embora tenha apreciado o bichinho, passei anos sem pegá-lo novamente, sendo somente uma fumante passiva. Meu quarto, por ser a sede do computador, era o único lugar da casa que minhas irmãs, já fumantes velhas de guerra, podiam fumar livremente quando não em seus próprios quartos. Minha mãe reclamava, mas nunca me importei, assim como nunca tive vontade de pedi-las por um. Da mesma forma, elas nunca ofereceram, e viviam pontuando os males do dito cujo.
Porém, um dia, já aos dezenove, acordei com uma vontade enlouquecida de fumar. Saí com um amigo, e o pedi. Naquele momento algo havia acordado em mim, mas, resistente, tirei isso da cabeça e prossegui minha vida. Até que uma outra amiga me liga e diz: "Deixaram um cigarro comigo. Vamos sair?". Eu fui. Sentamos nos banquinhos da praia armadas de batida de vinho barata e um Carlton vermelho cheinho, e fumamos o pobre maço até seu derradeiro cigarro. Não contentes, compramos outro. Bêbada e feliz, eu o trouxe para casa a fim de dá-lo a minha irmã, mas não tive coragem. À noite, fumei-o. E assim, nascia mais uma fumante.
Desde então, diminuí o uso, aumentei de novo, fui do Carlton ao Free Light ao LM, levei bronca de pai e mãe, e fiquei conhecida na faculdade por ser aquela doida que sai da aula para fumar no corredor. Entre vários momentos, fui me descobrindo uma fumante nata, alguém que se viu completa com esse. É isso, meus amigos. O cigarro me completou. Não consigo explicar como, nem contra-argumentar os não-fumantes que não sabem o que dizem. Eu simplesmente gosto dessa porra. Ninguém me influenciou, ninguém me ofereceu, ninguém me coagiu. Entrei nessa por vontade própria, e velha o suficiente para saber todos os males que o mesmo causa. Não sou idiota e sei bem o que é que esse faz, porém, o meu negócio passa do simples vício. O cigarro é meu companheiro, é aquele que me afaga, que esteve comigo enquanto vi shows lindos, assisti filmes péssimos e filmes maravilhosos, prestei depoimento na delegacia. Nesse caso em especial, vi o quanto me chateia estar longe de um cigarro, já que Edivando fez o favor de pegar todos os meus maços e enfiá-los no cu, pois nenhum policial encontrou-os em suas calças - o que me obrigou a fumar diferentes tipos de cigarros fornecidos pelos camaradas delegados.
Dito isso, entendo o quão ruim deve ser para um não-fumante estar ao lado de alguém como eu. Por isso, sempre fiz questão de sair de perto desses e não obrigá-los a dividir comigo algo que eles nada tem a ver. Já fui chamada de "fumante legal" por colegas de trabalho, e minha mãe, apesar de não gostar do fato de ter três filhas fumantes e de comprar todos os Bom-Ar no comércio, no fundo agradece que eu resumo a atividade ao meu quarto. Afinal, o quarto é meu e aqui eu faço o que quiser.
Assim, venho por meio dessa falar sobre a tal lei anti fumo. Muito tem se falado dessa, mas a maioria das opiniões vêm de não fumantes, que, repito, não sabem o que dizem e só vêem seu lado (com razão, mas há controvérsias). Para isso, recorro ao bom e velho Top 5:
Top 5 Razões pela qual a lei anti fumo é bacana:
1. Acordar no dia seguinte de uma balada sem o cheiro no cabelo - o que obviamente também ajuda no caso de você prosseguir a noite com alguém;
2. Os amigos não fumantes, se respeitam o seu lado, saberão que estamos saindo do local por eles, o que não deixa de ser uma gratidão;
3. A diminuição, ainda que involuntária, do uso. Não posso negar o quesito saúde;
4. O número de amigos que você faz quando sai do estabelecimento para se juntar aos outros exilados;
5. Eu nunca fumo ao lado de crianças, mas como tem gente sem noção que leva a pirralhada ao bar (isso sim devia ser proibido), não preciso me sentir culpada caso tenha alguma ao meu lado.
Top 5 Razões pela qual a lei anti fumo é um caralho:
1. Não há prazer maior que a combinação cigarro + cerveja. Ou seja, uma das grandes alegrias da vida foi cortada sem dó nem piedade;
2. Eu não entendo esse negócio do toldo. Um toldo não defende porra alguma a não ser a chuva, portanto, estar embaixo de um é estar ao ar livre. Isso é exagero;
3. O fumante perderá, querendo ou não, boa parte da noitada por precisar sair ocasionalmente. Contudo, nesse ponto não me importo. Eu gosto de me retirar de vez em quando;
4. Tenho pena dos proprietários de bares. Muita gente, eu inclusive, não irá mais a certos lugares por causa disso;
5. Existe uma certa culpa e complexo em ser minoria. Tornamo-nos, então, frequentadores de swings, pessoas que têm vergonha e se sentem culpados em assumir determinada parte de sua existência por causa da opinião dos outros. Smoker is the new swinger.
Veja, portanto, que há o lado bom e o lado ruim nessa lei. Ainda assim, se o objetivo dessa é fazer as pessoas pararem de fumar, essa não funcionará comigo. Infelizmente, eu gosto demais dessa coisa. O que posso fazer é respeitar, afinal, é o mínimo. Não em nome da lei, mas porque sinto pena de quem tem que cumpri-la. Não vou ser sacana a ponto de fazer alguém pagar por algo que é somente meu problema. Desse modo, irei para a calçada sempre que preciso. Mas já digo: se mesmo assim alguém falar, virarei bicho. Se estou em ar livre, é meu direito fumar. Se sabem que a calçada é liberada - e a própria lei diz isso -, então também não reclamem e se mantenham longe. Da mesma forma que respeitamos o lugar de vocês, respeitem o nosso.
(agora, há algo muito irônico nisso tudo: Podem criar leis contra o fumo, mas o vento que carrega a fumaça fará o que bem entender. E dessa forma, ontem observei os remanescentes da minha baforada indo diretamente para debaixo do toldo. Quero ver alguém lutar contra o vento.)
¬ queen - somebody to love.mp3
4 comentários:
Gostei de ler a opinião de um fumante coerente. Até agora a argumentação máxima que tinha ouvido de um fumante contra a lei foi "os incomodados que se mudem".
Uma coisa q me irrita é a hipocresia. Tenho uma colega fumante que foi pro Japão ha algum tempo e voltou contando que lá existia uma lei anti fumo (que pra gente era novidade na época), que as pessoas se respeitam, que os fumantes são conscientes, que isso é primeiro mundo e blablabla... Agora que a lei chegou por aqui, ela foi uma das primeiras que eu vi atacando.
"Quero ver alguém lutar contra o vento." hahahaha boa!
Por mais fumante que eu seja, eu concordo com a lei (mesmo analisando todos os contras... as chatisses...). Poder estar em um 'inferno' daqueles fechados, igual o torto, e o olho não arder mais de fumaça... não tem preço.
E outra... as pessoas mais interessantes estarão do lado de fora, fumando e compartilhando suas bacanices. rs...
Beijoca!
"fumante legal" = fumante com bom senso.
pra se ter bom senso nessa seara não precisa de uma lei marqueteira como essa do senhor José Serra, acabei de escrever sobre isso no meu blog.
gente sem bom senso e babaca tem em todo o lugar desde que a humanidade existe, e os fumantes sem o dito bom senso são a minoria.
e pior, pra ser duro onde tem que ser (contra a feitura da indústria do tabaco), aí não é necessário patrulha.
Mano, adoro (cof) o Estado regulamentando toscamente o que é lícito. Meuku em chamas pro Estado.
E cigarros pra nós, evidentemente. Aqui, na calçada, na putaquepariu.
Postar um comentário