Errante pela faculdade, tentava encontrar um laboratório de informática. Queria entrar no Twitter, ver notícias de Cinema e esperar as amigas chegarem. Uma luz: ahá, a sala de internet da biblioteca. Odeio aquele lugar, mas vumbora. Mal chega a porta da sala, vejo pela porta de vidro:
Era ele, o bendito Phantom of the Opera. Na trilha sonora mental, escuto os primeiros acordes da canção e por um instante imaginei brumas ao meu redor, uma mudança de luzes e minha linda voz ecoou: "In sleep he saaaang to meee". Acordando do sonho cinematográfico, continuei observando-o pela porta de vidro, até que percebi que pessoas passavam ao meu redor e que, àquela altura, eu deveria estar parecendo uma stalker. Assim, decidi entrar. Passo rápido para o corredor próximo a ele. De costas, calculei cada um de seus movimentos, perambulando os olhos pela sala para garantir que a namorada dele não estava lá. Não estava. Então hoje é o dia de entrar em contato novamente.
Ele levanta, assina algo e sai. Eu desligo a máquina rapidamente e voei, pensando em uma maneira de parecer que o encontro foi por acaso. Percebendo que já havia o perdido de vista, resolvi sair da biblioteca. Quando de repente, eis que ele surge em minha frente. Eu parei, ele parou. A Christine Daae urra dentro de mim. E ele faz aquilo que nunca deve fazer: me abraçou.
- Oi querida!
(tira esses braços daqui)
- Oi querido!
(tira não)
- Tudo bom?
(ai Jesus não me aperta assim)
- Tudo em riba, e contigo?
(Santa Maria Mãe de Deus me acuda)
- Tudo indo.
- Parabéns.
- Ah, obrigado.
(não sorri desse jeito, rapaz, tenha amor por sua vida)
- Quantas primaveras?
(só para saber quanto tempo faz que você me deixa nesse estado)
- 26.
- Nossa, já? 'Tá velho, hein.
- 'Tô idoso. [...] Preciso sair daqui.
- Eu também, odeio essa biblioteca. 'Bora fumar um cigarro lá fora.
E nesse instante ficou claro o efeito desse sujeito em mim: derrubei a chave no chão, abri o locker errado, entreguei o cartão para a bibliotecária sem precisar, e uma série de situações-Jim-Carrey.
- Vou participar daquele seu projeto.
- Que projeto?
- O de Cinema.
- Sério?
(ah não, adeus vida acadêmica)
- É, eu uso bastante no meu curso, é interessante.
(agora precisarei ir linda para o projeto)
Encontro a amiga lá fora, que sorri maliciosamente quando vê a minha companhia. "Vamos para o bar?", diz ela. "Só se for agora. Quer ir, chuchu?", convido-o. "Vamos". A partir daí, ele desbancou a realizar seus discursos. E enquanto ele falava, com seu jeito peculiar de embaralhar as palavras por ser ansioso demais para deixá-las sairem naturalmente, eu o estudava. Até agora não sei qual era o assunto que discutíamos. Eu já estava fora dali há muito tempo.
Como pode um sujeito ter tanto efeito em mim? Como eu, uma Monica Geller de plantão, uma verdadeira control freak consegue tirar todas as guardas assim, só porque ele está ao meu lado, com apenas um encosto de cadeira de plástico nos separando. Nenhum outro jamais teve esse impacto. Já pirei em tudo quanto é macho, já me descabelei, já chorei milhões de vezes ouvindo Bonnie Tyler, sofrendo de amô. Já fiz absurdos, já corri perigos pela rua, já atirei meus princípios, minha paciência, minha auto-estima pela janela. Mas nunca, nunca perdi meu controle. Eu sempre estive a par das situações inteiras. Sabia o que falar mesmo que nas maiores pirações. Já sabia, inclusive, que tudo daria errado sem ao menos iniciar. Mas com ele não. Com ele, todo o controle vai para o espaço. Fico completamente vulnerável, sem conceber os momentos em que devo ser biscate ou menininha. Eu simplesmente acabo sendo, ou uma, ou outra, ou as duas de uma vez, atingindo o ápice da esquizofrenia afetiva. Com ele, a cabeça esvazia. Não há pai, mãe, culpa católica, problemas no Senado, aquecimento global, desmatamento da Amazônia, crise financeira. A cabeça-oca oca de uma vez. Adeus, mundo cruel.
Mas eu não posso perder o controle. Se eu o fizesse hoje, ou seja, se eu tivesse ido atrás dele após o "até mais", todo o trabalho que venho feito nos últimos meses vai para o lixo. O processo de emagrecimento, a terapia, o Paxtrat e a puta-que-pariu. O momento é de focar nisso, e nas coisas sob as quais não tenho controle e que preciso aprender a lidar com elas. Em suma, a contradição: Para aceitar o descontrolismo, preciso me controlar. E ter ao lado o maior estopim para isso não seria bom.
Portanto, controle-se, Cecilia. Não vá fazendo o bom e velho papel. Admita o papel de agora e o "acople" a essa situação. Você não é mais a Cecilia de outrora. Coloque a cabeça nos eixos e não deixe que ele te desarme tanto assim. É um belo sorriso, é claro, mas seja sensata e vá com calma.
Até porque, amanhã é amanhã e, como ele é bipolar e, hãn, tem uma namorada, hoje pode ter sido apenas um dia em que ele se sentiu simpático. E você não precisa se desligar de si para cair nessa de novo.
Um comentário:
*respira*
É o amô que mexe com a minha cabeça e me deixa assim vibes.
E olha, comadre, eu sou sempre, sempre a favor do amô.
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