terça-feira, 17 de novembro de 2009

Sim, eu sou Crepusculete


Em 11 de dezembro de 2008, escrevi neste blog sobre meu vício instantâneo em "Crepúsculo", para o horror de muita gente. Tal assunto percorreu por pouco mais de uma semana, tempo que levei para ler os quatro livros, ter sonhos nada inocentes com Edward Cullen, ver o filme e brochar após isso (claro, o filme é ruim que o diabo).

Após esse período, me calei. Até dei risada de mim mesma, surpreendida pela combustão adolescente que tomara conta de meu ser graças a leitura. Em dois trabalhos da faculdade, utilizei o livro como base - no primeiro, peguei um texto da "Capricho" sobre Robert Pattinson para estudar a linguagem da revista; e no outro, criei uma atividade para o Ensino Médio baseada nos PCN's do Ministério da Educação, na qual peguei um trecho do livro para discutir a moda de abstinência sexual na adolescência vigente nos Estados Unidos no momento. Além disso, relatei a obra para uma preocupada amiga educadora, pois ela queria saber o porquê raios suas alunas só falavam em vampiros. Ou seja, se citei "Crepúsculo" para o mundo, foi por razões puramente acadêmicas.

No entanto, nunca tive coragem de admitir o segredinho que agora divido com a boa alma que ainda tem paciência de ler este blog: eu já reli os livros algumas vezes. Sim, isso mesmo, eu os revisitei, pulando as partes chatas de Jacob e as ceninhas de ação, me concentrando apenas nas passagens de mimimices descontrol entre Bella e Edward.

É claro que isso é um tanto vergonhoso, afinal, sou uma estudante de Letras, tenho 24 anos na cara e, em geral, considero-me uma pessoa de bom gosto. Mas por algum motivo, era eu estar levemente carente que caçava meus cd's em busca das minhas queridas versões em PDF da obra original, em inglês. Abria o arquivo do primeiro livro e daí passava a noite lendo e ouvindo música clássica, para logo depois dormir com o coração mais tranquilo.

Pois havia algum meses que não retornava ao mundinho de Bella Swan. Em meio a sorrisos simpáticos do moleque com o qual me atraquei há alguns meses e uma crush num colega altamente pegável e obviamente impossível, aquele sujeito-Fantasma-da-Ópera decide ressurgir na minha vida. Na biblioteca, no bar, e perturbando minha paz celibatária no MSN. E então, durante um papo descontraído no boteco, no qual tentei em vão resgatar minha porção-biscate, ele diz: "Você acha que sou parecido com o cara do Crepúsculo?". Chocada com a mudança de assunto abrupta, respondo um tanto grosseira: "Nem fodendo". Ele, igualmente chocado com minha súbita raiva, responde envergonhado: "Ah... É que algumas pessoas me disseram isso, só estava querendo confirmar". Puta da vida, parti para o próximo tópico de discussão, tentando disfarçar o sentimento que me assolava no momento.

A verdade é que me ofendi. Minha vontade era dizer "não venha aqui estragar meu refúgio carente com suas mãos sujas". Pior: eu queria socá-lo, pois ele acabara de aplicar em minha mente a imagem dele como Edward Cullen, sendo que ele está longe de sê-lo.

Não que ele e o ator não sejam um pouco parecidos. Até são em algum grau. Altos, magrelos, patetas, cabelos desgovernados, aquela cara carrancuda e a habilidade de fazer um biquinho sacana que ao mesmo tempo irrita e me destrói em pedaços. O grande problema é que Edward Cullen é o príncipe encantado moderno, e mais um na minha grande lista de homens ideais fictícios, que vão desde Jack Dawson a Mr Ferrars. Evidente que "Crepúsculo" está longe de ser Jane Austen (muito longe, aliás), contudo, ainda assim, é o desejo ficcional mais recente da famigerada lista, e vem me acompanhando há quase um ano. É o protagonista que me acalenta em noites de carência-mor, uma vez que Edward é o esteriótipo do macho que gostaria de ter ao meu lado nesses ataques-mimimi: aquele cara romântico, protetor, gentleman, disposto a atender qualquer pedido meu e a passar a eternidade comigo - algo que por si só já é um desafio e tanto, uma vez que sou chata pra burro. O sujeito-Fantasma se comparar a tal figura não é apenas ofensivo, mas uma infâmia tremenda. Na realidade, caso ele se comparasse a qualquer outra figura idealizada hollywoodiana, eu já ficaria indignada, mas ele tocou fundo (oi) ao se igualar a mais recente adição na lista.

Com medo do comentário do sujeito-Fantasma ter arruinado de vez minha fonte de segurança emocional adolescente, estabeleci um desafio comigo mesma: Reler os livros sem pular "Lua Nova" (mas continuando a recorrer à barra de rolagem na parte do Jacob). Ora, já entreguei meu TCC, as atividades acadêmicas estão em dia, e tenho sido acometida por uma insônia e um mau humor que impede qualquer contato simpático com indivíduos, então não havia problemas. E embora no começo de fato minha imaginação - ou melhor, inconsciente - tenha insistido em fazer uma colagem de Photoshop com o rosto do sujeito-Fantasma na figura de Edward, foi com surpresa e alívio que percebi que a idealização do personagem continua intacta. Alegremente permiti que a ilusão de um príncipe encantado inundasse minha cabeça, e enfim, estava de volta ao meu lugar seguro, onde posso me entregar sem medo e vergonha a meu lado mais ridículo - aquele que acredita que um dia, quem sabe, eu também possa ter um amorzinho tão inocente e juvenil como esse que compreensivelmente assola metade da população de 10 a 18 anos mundial.

Ao perceber tamanha "revolução" provida de meu surto irracional, cheguei a duas conclusões igualmente aterrorizantes: 1) Estou mais mimimi do que nunca, carente até o talo, um verdadeiro poço de mulherzinha feelings, e 2) Sou Crepusculete sim, e daí.

E finalmente posso assumir ambos sem um pingo de vergonha, por mais que me assustem - em especial a primeira opção. Pois ser Crepusculete é fácil. Quero ver arranjar um macho decente para saciar os desejos de "casar, ter filhos e morar numa casa de cercas brancas".

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