Dois meses de procura de emprego, três entrevistas. Na mais recente, para uma vaga na recepção, a sujeita decidiu que não bastava ser entrevistadora, precisava ser psicóloga. Uma psicóloga deselegante, diga-se de passagem. Em vez de indagar sobre atributos e experiências, ela sutilmente exaltou que eu ter feito Letras foi uma perda de tempo. Não contente, ela disse que há escolas desesperadas por professores com minha formação, nem que seja para ficar de palhaço no corpo docente, e que eu nem deveria tentar em escolas de inglês, uma vez que precisa ser "super fluente" (e isso ela falou sem ao menos perguntar qual era meu nível). Ou seja, ela não só ofendeu a única virtude profissional que possuo, como ainda se achou no direito de dar pitaco na minha vida.
Veja bem, estou acostumada com essas questões. Não é a primeira, e com certeza não será a última vez que alguém me pergunta porquê raios fiz Letras se não quero ser professora. Caso a pergunta seja feita de forma natural e possuir uma conotação curiosa, realmente não me incomodo, já que é de fato algo estranho. O que me revoltou foi o modo arrogante que essa sujeita decidiu que minha vida é um cu. Naquele momento, meu Elenita-Feelings foi às alturas. Minha vontade era recorrer a um discurso Big-Brotheriano: "você não me conhece, não conhece minha história, cuide de sua vida". Porém, me controlei, respondi a pergunta independente das interrupções dessa mulherzinha chinfrim, e saí de lá com um sorriso no rosto, para desabar logo depois em uma mar de fúria - que sobrou para o taxista, forçado a ouvir minhas lamúrias.
Diante disso, fiquei pensando: Oras, então no que sou boa? O que quero fazer? O que posso fazer, tendo confiança no meu taco? Qual seria meu cargo dos sonhos? Minha mente inquieta prontamente entrou em ação. De cargo administrativo à tradutora, passei a imaginar possibilidades "bem" alcançáveis, como as que listo a seguir:
- Figurante de musical
Mais do que prestar atenção à estrela no meio do palco, meus olhos se focam naqueles dançarinos lá atrás. Claro que adoraria ter um momento-Roxie, mas são os figurantes que me cativam, dando tudo de si para serem cortado na edição e terem sua participação resumida à um close up nas pernas. Não importa. Ser figurante de musical é aparecer pouco, mas fazer parte de um esforço coletivo.
- Secretária de executivos bem sucedidos
Ser secretária de executivos bem sucedidos não se resume a marcar reuniões: é saber de sua vida (além, obviamente, de um salário pomposo). No melhor estilo Manoel Carlos de viver, você sabe que naquele horário ele estará com a amante, embora ele tenha avisado o contrário para a esposa. Você marcará viagens, e provavelmente o acompanhará. Se o chefe virar seu amigo, seu sucesso estará garantido. É como ser mulher de homem rico sem precisar casar.
- Apresentador do Ultimate Fighting
Ele entra no octógano para gritar. Dono de uma voz grave, o apresentador do UFC está lá apenas para introduzir os lutadores, sendo uma espécie de "fogo na palha" - basta ver como o público vibra assim que o apresentador exclama: "Randy The Natural Coutuuuuuuuuuure!", ou "The Huntington Beach Bad Boy, Tito Oooooooooortiz!". Se esse cargo não der certo, posso simplesmente fazer uma lipoaspiração e ser uma das mulheres de trajes mínimos que mostram as plaquinhas dos rounds. A alegria seria a mesma.
- DJ de rádio
Anos atrás, eu e a melhor-amiga cultivamos o sonho de ter uma rádio. Seria a chance de ultrapassar os limites do mix tape. Eu poderia colocar uma canção e mudar o rumo do destino de alguém - pois acredito que uma música na hora certa tem um efeito fantástico na existência alheia. Poderia fazer uma sessão-queimação, com Luiz Caldas e Fafá de Belém, ou uma sessão Trilhas Sonoras, ou uma sessão rock 'n' roll internacional anos 80. Poderia colocar tudo que escuto, ir além do meu quarto e fazer a diferença, mesmo que acidentalmente.
- Dona de locadora
Uma das grandes alegrias da minha pacata existência foi trabalhar em uma locadora. Era um cargo duro, cansativo e por vezes frustrante (é terrível indicar um filme e o cliente xingar ao devolver), mas uma delícia. Se você entrasse na locadora, saberia que meus dedinhos mágicos tiveram uma poderosa influência, uma vez que colocava em evidência nas prateleiras os filmes que julgava necessários. Às vezes arrumava de forma a dar um sinal a alguém - por exemplo, posicionar "Antes do amanhecer" estrategicamente. Meu desejo maior era uma locadora própria para dividi-la em categorias como "Quer chorar? Chega mais", ou "Está desiludido com o amor? Recupere as esperanças aqui", ou "Quer canalizar? Alugue esse". Seria lindo, se não fosse a pirataria. E nem tenho moral para reclamar dessa, pois há séculos não vou a uma locadora - mas isso é porque a minha preferida é longe pra burro.
- Patinadora de gelo
Com nove anos, assisti "Casal quase perfeito", uma comédia romântica sobre patinação no gelo. Na mesma época, me envolvi nas competições do gênero e viciei nos Jogos de Verão do Master System II. Foi quando decidi: vou fazer patinação. Apesar da experiência ter se provado tenebrosa e eu ser uma péssima patinadora, sempre achei o máximo colocar um colanzinho e ser carregada por um macho antes de realizar um triple toe loop.
- Diva
Bem como a patinação, falta-me o talento.
Pois bem, essas são algumas das funções que gostaria de ter. Podem ser impossíveis, ou apenas fora do meu alcance. Mas uma garota pode sonhar, né não?
(Escrever um texto e não revisar dá nisso: alguns erros mínimos de concordância, bem como esquecer de citar a cara Cristina, cujo texto sobre profissões me inspirou a realizar esse. Sabe aqueles momentos em que você tem uma frase certinha na cabeça, mas ela vai embora assim que o espaço em branco do Blogspot aparece? Pois então. Foi mal aê.)
6 comentários:
Ah, comadre, e o nosso karaokê? Um karaokê onde todo mundo será obrigado a homenagear Bonnie Tyler?
Não esquece do bico de narradora de nota de escola de samba também. E eu ainda quero ser atriz de novela mexicana, me acompanha?
Em tempo: morram, wannabe-psicólogos. ¬¬
AHAHAHHAHAHA!!
Parece aquelas listas de profissões que fiz pra mim tbém.
Olá!!!
Adorei tudo e todas as opções!!!
E olha só, há muito tempo assisti o Casal Quase Perfeito e amei...
Sobre ser Figurante Musical...
Sempre sonhei em ser Backing Vocal... Tem quem "tire onda" e diga:
"Se é para sonhar, sonha direito... Seja logo leading vocal..."
Mas eu acho tão sensasional...
Tão glamuroso...
Mas e voz para isso? Quem tem? Eu não!
Ops, não se preocupe. Eu não comentei pensando nisso ;)
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