Sou uma verdadeira negação quando se trata de futebol. Não consigo entender a contabilidade do Brasileirão, tampouco a regra do impedimento, e às vezes tenho dúvidas sobre como se dá o escanteio ou o tiro de meta. Para mim, caiu no chão, fez escândalo e saiu carregado pelos médicos é motivo de pênalti ou no mínimo aquela falta da barreira. E não adianta explicar: lá se vão homens e mais homens que tentaram fazê-lo, mas, embora compreenda no primeiro instante, tal informação é rapidamente esquecida, e todo o trabalho foi em vão. Creio que essa falta de habilidade futebolística provém do criação numa casa de mulheres - aliás, acredito que só o fato de ser mulher já estabelece minha incapacidade de armazenar esses detalhes, razão pela qual fico fascinada ao observar uma mesa de machos comentando aquele passe de um zagueiro que nunca ouvi falar lá no Campeonato Paulista de 82.
No entanto, isso não impede meu envolvimento com a Copa do Mundo e ocasionais Campeonatos Brasileiros, desde quando era criança e fui palmeirense porque amava o Edmundo, até o presente momento no qual me encontro santista pela simples possibilidade de ter celebração na wicked little town. O que me atrai no futebol não é a competição, o esporte pelo esporte, e sim a alegria que esse acarreta. Por isso gostava tanto de ir a Vila Belmiro antes do famigerado diagnóstico: mesmo nos jogos mais chinfrins da história, aquele povo gritando, se abraçando durante o gol, é um momento único no qual o mundo ao redor é esquecido em nome de algo comum. E apesar de entre a Copa e as Olimpíadas sempre ter preferido a última, mas nada se compara ao clima do país de quatro em quatro anos, quando times são esquecidos e só a seleção importa.
Ainda que já tenha presenciado porradas e achado-as ridículas, eu sabia que aquilo ocorria por causa de um amor incondicional pelo time - não justifica, mas não deixa de ser um motivo real na cabeça de muita gente. O futebol causa emoções extremas, especialmente no Brasil. Mas nunca, nunca em meu curto tempo de vida tinha presenciado tamanho desprezo pelo time que mais necessita de nosso suporte (ou talvez eu fosse muito criança para percebê-lo). É com tristeza que vejo que essa Copa nada tem da alegria que costumo encontrar no futebol. Criticar a atuação? Claro. Xingar o Dunga? Sim. Descer o cacete no Kaká? Tudo bem. Porém, esse mimimi que se alastrou deixou de ser charmoso, se é que um dia foi. É quase impossível ver aquele amor por aí quando se discute a Copa. É natural ter raiva quando desejamos o melhor para o time e não o vemos, mas me parece que esse ódiozinho é gratuito.
E não é apenas no embaraçoso embate Globo x Dunga, mas em todos os sentidos. O que me choca é que parece que ninguém percebeu ainda que a Seleção não é mais aquela do Tetra, ou como os mais antigos dirão, a da Copa de 50 e bolinha. Sequer o futebol é o mesmo. Seja pela qualidade semelhante de todos os times (até os mais fraquinhos), seja pelo fator 2012, seja por pura sorte, todas as seleções estão no mesmo barco. Ora, até a Grécia conseguiu ganhar uma partida. O que diferencia uma da outra é a tradição. Então por que essa exigência toda? Não só de histórico se faz um belo time, não adianta nada ser chamada de Fúria, Azzura, Seleção, ou qualquer outro nome provido da glória de outrora quando na hora do "pega-pa-ca-pá" os jogadores atuais não exercem a função apropriadamente.
Sim, é possível que eu realmente não entenda picas de futebol, mas o que vejo são bons jogadores em ação no time brasileiro. Talvez não 100%, porém, o suficiente para ganhar uma partida ainda que a duras penas. E se eles são assim, é porque o técnico está fazendo um trabalho bacana. O que eles precisam é o apoio, a energia positiva, e isso vem de nós aqui, cantando "deitado eternamente em berço esplêndido" e really meaning it, mesmo que só pela duração do campeonato. Eu que nunca fui lá tão patriota passo mal com o hino a cada partida, e me emociono de ver aqueles homens nos representando. Só isso já me faz atirar para o Universo todo o otimismo necessário para que eles joguem seu futebol na maior paz de espírito. No entanto, me é impossível não pensar que o nervosismo e tensão que eles têm transparecido é culpa nossa - ou melhor, daqueles que têm enviado as energias erradas.
Usarei uma história patética para exemplificar: no dia do meu TCC, eu estava quase tendo um ataque do coração. Tenho uma péssima oratória e ali estava eu dependendo dessa para um seminário bem sucedido. Mas foi só ver a tranquilidade e a confiança de minhas irmãs, mãe e amigas lá no fundo da sala que rapidamente fiquei calma. Ao final, minha amiga contou que a patroa estava nervosíssima. Por que então ela parecia tão zen? Porque foi assim que ela queria que eu ficasse.
Pois bem, é isso que fazemos em Copas do Mundo. Pode ser uma teoria furada da minha parte, mas é o que eu acredito. Se cada sujeitinho que está mais preocupado em apontar o dedo mandasse uma boa energia, talvez isso ajudasse. Parar com essa mimimice cansativa e confiar nos caras. O Brasil pode perder, mas não será feio como a última Copa, pois aquele time lá estava envolto demais em si mesmo para se abrir da forma que esse time atual o faz. Eles aprenderam, e estão prontos para receber, cabe a nós agora enviar o material. Largar dessa frescura e ser a torcida que eles merecem ter.
A única coisa que me conforta é que a Seleção costuma ver na adversidade a oportunidade de se provar. Eu torço por eles, mas torço principalmente pelo momento em que eles poderão dizer um belíssimo "chupa" para essa gentinha deprê que só anda atrapalhando.
Tamo junto, Dunga. Tamo junto, Fabuloso. Tamo junto, Robinho. Tamo junto, Brasil. Vamo que vamo e esfrega na cara de todo mundo que vocês são maiores que isso.
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