quinta-feira, 17 de junho de 2010

Escrito nas Estrelas


Como boa parte da população, adoro uma novela. Desde criancinha, quando algum folhetim em especial me envolve, assisto religiosamente, dou risada com o elenco de apoio, piro no galã, sofro com a mocinha e choro feito uma dona de casa - ou seja, sigo à risca aquilo que as novelas proporcionam. No entanto, em meu histórico global, somente duas novelas realmente me pegaram de jeito: "Da cor do pecado" e "A Viagem". Eis a hora de adicionar mais uma nessa seleta lista: "Escrito nas Estrelas".

Quando se fala em novela das seis, já se imagina peões, escravos, um barão do café. Também imagina-se uma história de amor água-com-açucar, maniqueísmo, temas não muito complexos (diferente das novelas das nove, numa obrigatoriedade já cansativa de discutir assuntos polêmicos - olha aí "Passione", que pelo o que corre na boca pequena, terá até pedofilia). Apesar de curtir esse clima gostoso, meio inocente de novelas das seis, foi com alegria que constatei em "Escrito nas Estrelas" a coragem de retratar algo que vai além dos clichês usuais do horário - e para melhorar, isso se expande por todos os núcleos, não somente ao tema central; no caso, o Espiritismo.

A história é simples: Numa bela tarde, a fofa e marrenta Viviane conhece Daniel, um moço de enorme coração com grandes sonhos. Entre eles há uma sintonia ímpar, mas antes de qualquer beijinho ocorrer e após Daniel prometer que ajudará a menina - afogada em problemas "semi-criminais" causados por um pai chegado num carteado -, um acidente de carro mata Daniel e Viviane entra em coma. Com o falecimento do garoto, Dr. Ricardo Aguilar, um médico bem sucedido de reprodução humana, decide usar os espermas que Daniel deixara para ter um neto. Eis que entra Gilmar, o assistente faz-tudo de Ricardo, que vê na busca do chefe pela barriga de aluguel ideal a chance de tirar uma grana. Ele tem então a brilhante idéia de fazer de Viviane a mãe do herdeiro Aguilar. Como ela está em maus lençóis perante a lei (para não dizer na merda), Gilmar chantageia a moça, dando a ela novo nome, Vitória, e um emprego na mansão do Doutor. Enquanto isso, Daniel está no além observando agoniado a sucessão de acontecimentos.

É, eu também tive dificuldade de acompanhar essa premissa nas primeiras semanas da novela. Entretanto, a beleza de "Escrito nas Estrelas" está na forma como se apresenta: a partir dessa história, conhecemos uma gama de personagens que se interligam, tornando-se responsáveis, pelo bem ou pelo mal, por um determinado passo que culminará no objetivo final - o nascimento do neto Aguilar. Ainda assim, jamais deixamos de acompanhar a vida de cada um, desde a pobre apaixonada Suely que come o pão que o Gilmar amassou, passando pela malandragem deliciosa de Jair, até Dr. Guilherme e sua dinâmica familiar.

Portanto, o que há são personagens complexos que jamais caem no óbvio. Peguemos Gilmar, o rei: Apesar de ser o vilão principal, sempre queremos testemunhar o que ele aprontará a seguir. Inteligente, egocêntrico e manipulador, Gilmar fascina por não ser o rapaz maldoso normal, a começar pelo fato de trabalhar sozinho, usando peças externas somente para um objetivo específico e descartando-as assim que o dito for cumprido (em outras palavras, o sujeito sequer tem capangas!). Porém, lá no fundo há um homem preso no desejo de ser mais quando não o é, sendo então impossível não sentir sua dor velada quando Dr. Ricardo o trata tão mal.

Da mesma forma, temos Sofia e Beatriz, as outras vilãs (tem vilão pra dar com o pau em "Escrito nas Estrelas"). Como não perceber que Beatrizinha é fruto da influência direta da mãe Sofia e sua superficialidade? Mesmo quando estão tramando algo, Beatriz apresenta uma consciência surpreendente, chegando a reconhecer que aquele plano é furado, mas, levada pelas palavras certeiras da mãe, acaba fazendo o que ela deseja. Aliás, é só observar como ambas estão sempre sozinhas num canto, ilustrando assim como uma não funciona sem a outra.

O que se pode ver também é que "Escrito nas Estrelas" é construído como um seriado - um grande avanço quando se trata de novela. Por exemplo, há um tempo atrás, os médicos da clínica do Dr. Ricardo discutiam sobre um evento chamado "Futuras Mamães". Embora parecesse cenas aleatórias, tal evento foi palco de situações que mudaram ou confirmaram o rumo que estava sendo traçado, como o fato de Ricardo, já começando a considerar Viviane como a mãe de seu neto ao mesmo tempo que se vê atormentado por sonhos estranhos com a mesma (regressão urgente, meu filho), observa de longe a moça brincando com crianças - e nem foi necessário um diálogo expositivo para perceber que naquele instante Ricardo se apaixonou um pouquinho mais por ela.

No entanto, o sensacional da novela não é somente isso. O mais lindo é ver ali, em pleno horário do jantar, uma coragem impressionante de jogar sutilmente temas que, a meu ver, são tão importantes quanto o básico gravidez na adolescência. Vide aquela cena estupenda de flashback de Francisca, a mãe falecida de Daniel e esposa de Ricardo, dizendo que nem toda mulher nasceu para ser mãe (atenção: numa novela em que o centro é justamente a maternidade!). Vide a maneira como fomos levados a acreditar que o casal principal seria Viviane e Daniel, ainda que post-mortem, quando agora é Viviane a alma gêmea de Ricardo desde vidas passadas - logo, Daniel é só o link. Vide o ceticismo científico do Doutor e seu embate constante em clima de amizade com o espiritual Vicente. Vide a negação de Mariana diante do fruto proibido de jaleco Guilherme. Vide as trapaças de Gilmar, essenciais para completar a missão divina, o que causa nossa torcida para que seus planos dêem certo.

A essa altura já ficou claro o meu envolvimento com "Escrito nas Estrelas". Mas é uma felicidade imensa ver que por causa de uma simples novela das seis, parte do processo evolutivo retratado na "Profecia Celestina" vem se tornando real a cada dia. Para mim, é isso que novelas deveriam ser, principalmente por serem tão vitais no cotidiano de metade do país. Não há graça atirar um assunto e então, após o final da novela, este ser esquecido. O que me agrada é que tenho certeza que "Escrito nas Estrelas" não deixará o povo na mão ao seu término. De uma forma ou de outra, o que nos tem sido apresentado marcará para sempre a vida pessoal de muita gente. Quer comprovar? Vá na padaria no horário da novela. Ou pegue um ônibus e discuta sobre a mesma com a senhora sentada ao seu lado. Está ali. Como disse, é sutil. Entretanto, é esse o grande triunfo: a saga de Viviane também é nossa.

E que fique claro: eu sou a mãe do herdeiro Aguilar.



Obs.: Se não falei do elenco, é porque é óbvio. Grande parte do sucesso da novela é esse grupo maravilhoso de atores que transmitem tanta coisa num simples olhar, gesto ou entonação de voz. Gilmar, nas mãos erradas, não teria a graça que tem na pele de Alexandre Nero. Viviane seria só mais uma caso Nathalia Dill não unisse doçura à intensidade impulsiva da personagem. Ricardo não seria tão bacana se não fosse por Humberto Martins - e eu nem ia muito com a cara dele, traumatizada por seus heróis descamisados de novela das sete. A fofura, inocência e jeito moleque de Jayme Matarazzo é essencial para Daniel. Isso sem contar os coadjuvantes, em especial a família de Jair, um verdadeiro banquete de naturalidade e carisma.

Obs. 2: Colocar "Pai", do Fábio Jr, como música-tema do Ricardo é golpe baixíssimo.

Obs.3: Vou chorar feito condenada no último capítulo.

Um comentário:

Cristina disse...

Cecília, adorei sua postagem!
Tbém estou acompanhando "Escrito nas estrelas" e gostando muito. É uma das novelas mais bem, digamos, direcionadas que vi nos últimos tempos, em se tratando dos temas, do ritmo e da qualidade de composição dos personagens.
Bem, eu já chorei em algumas cenas - confesso - do plano espiritual. Igual chorei no último capítulo de "A Viagem", qdo a mãe da Dinah chegou no "céu" e encontrou c/ a filha...
;)