terça-feira, 27 de julho de 2010


Procura emprego. Manda currículo para meio mundo. Ocasionais entrevistas. É rejeitada porque é gorda, ou porque fuma, ou porque não tem registro na carteira, ou porque ninguém dá valor ao trabalho em videolocadora. Pensa que um dia dará um tapa na cara de quem diz que indicar filme é fácil. Faz uma tradução cá e lá com o auxílio da fairy godmother of translation. Manda mais currículo. Tenta entender o motivo pelo qual há tanta vaga para Representante Comercial. Manda mais currículo.

Pensa em fazer cursos. É tudo caro. O que dá, é sacanagem pedir. Afinal, você é formada em Letras, a troco de que se interessou pelo curso de Consultoria de Imagem. O de Auto-Maquiagem já foi e deixou gostinho de quero-mais. Cogita a graduação em Moda, mas tem preguiça só de pensar em qualquer coisa que dure mais de seis meses. Aproveita o surto fashionista e tem orgasmos comprando um kit de pincéis e vendo vitrine de loja de sapato. Conclui que nasceu para ser Elke Maravilha.

Lê numa tacada só os dez livros "Sookie Stackhouse Novels" de Charlaine Harris, alimentando ainda mais a obsessão por "True Blood". Mentira, a obsessão pelo elenco masculino de "True Blood". Mentira, a obsessão por Alexander Skarsgard que, por ser loiro, já representa uma mudança drástica em seu gosto pessoal por morenos. Sonha com o cara três vezes na mesma semana. Acorda carente e pensa que talvez seja hora de ligar novamente para aquele ex-capeta. Mas está muito mimimi para enfrentar a situação com a biscatice necessária. Na verdade, está muito puta com a crise de mulherzinha que o sujeito teve na última conversa, e sabe que não se controlará caso ele venha com o papo de moço sensível de novo. Decide permanecer fascinada pelos machos bons de Charlaine e Alan Ball, e 'tá ótimo assim. Quando não está envolvida com essa ficção, emociona-se com a novela das seis e se vê apaixonada por Humberto Martins - mais uma mudança drástica. Pensa que isso deve ser sinal da idade e sente-se um pouco velha, embora saiba que está no auge da juventude.

Sem paciência para o mundo. O jornal a irrita, o Twitter dá nauseas, e quando decide visitar os blogs dos colegas, mal sabe o que comentar. Está calada por falta de palavras ou por reconhecer que falar nem sempre é um bom negócio. Olha para o quarto e percebe que esse está cada vez mais desarrumado, mas não tem coragem de botar a mão na massa. Vai para a academia com o mp3 porque não sente-se bem para papear. Conversa com as irmãs pelo MSN porque é mais confortável escrever.

Prefere ficar reclusa em seu canto, pois ninguém precisa aguentá-la quando ela está desse jeito. É melhor assim, para ela e para aqueles ao seu redor. Está louca para chegar quinta-feira, porque mal vê a hora de jogar tudo isso na mesa da terapia.

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