quinta-feira, 15 de julho de 2010

Sem moral


Dezoito primaveras: me jogo nas baladenhas, descubro o prazer da bebida alcóolica, a adolescência BV se transforma em maioridade biscate, e sequer ligo para faculdade, prestando Fuvest só para dizer que estava fazendo alguma coisa da vida.

Dezenove primaveras: Os planos não dão certo, então aproveito o que é aceitável no momento e parto para a Grande Maçã. Perambulo pelas ruas escuras da primeira metrópole a esmo, estava num carro que quase capotou no meio de uma estrada perdida na Carolina do Norte, falo com estranhos, e ainda arranjo tempo para caçar um irlandês. Um mês de aventuras no universo paralelo americano depois, retorno para a wicked little town somente para cair na boemia junto ao amigo músico.

Vinte primaveras: Entro na faculdade sofrida e faço amizade com um sujeito que só auxilia no quesito bêbada-da-rua. A cervejinha pós-aula virou rotina, e estudar que é bom, nada. Desempregada, acordava às cinco da tarde e sequer pensava em procurar algo para fazer, porque estava de ressaca. Tenho crush em meio mundo e acabo pegando sujeitos de procedência duvidosa.

Vinte e uma primaveras: Uma repetição do ano anterior, em maior grau.

Vinte e duas primaveras: No ápice do descontrole, e com o advento do salário mínimo provido de um estágio, arrumo a mochila e vou para Salvador, apesar dos inúmeros avisos de que os fracos não têm vez no carnaval da capital baiana. E Deus, o Destino, ou seja lá qual nome se dá, resolve que está de saco cheio da minha brincadeira e envia um soco na cara.

Vinte e três primaveras: Síndrome do Pânico, depressão e self-chibatadas diárias. Só há cervejinha quando amigas insistentes me tiram de casa à força. Passo as noites fazendo trabalhos da faculdade. Engordo quinze quilos. Viro assistente da patroa, realizando serviços de escritório no sistema housewive office. E o único macho com quem tenho contato é meu porteiro.

Chego às vinte e quatro primaveras decidida a retornar com a velha Cecilia daqueles cinco anos. Porém, cai a ficha: Ela não mais existe. A Cecilia-vinte-e-três não apenas a enterrou, como se recusa a aceitar as palhaçadas de outrora. Torna-se uma pessoa completamente diferente, o bastante para fazer com que aquela-de-dezoito tenha siricuticos só de pensar sobre o que ocorreu a si mesma no futuro. A irresponsabilidade desenfreada que flertou - trepou! - com a morte deu lugar a mimice de alguém que viu de perto o que é rir na cara do perigo. Criei limites que nem sabia que tinha, e estes apareceram depois de fazer muita cagada. Os erros podem não ensinar, mas ao menos reconheço quando os cometo e o que acontece quando abuso da sorte.

No entanto, aparentemente o mundo ainda me vê como a Cecilia-daqueles-cinco-anos. Não importa se estou toda pudica, continuo uma vadia. De que vale a academia, se eu tinha um corpinho muito mais bacana então. Não adianta nada garantir que o organismo não está respondendo negativamente ao álcool, se logo vem alguém querendo segurar meu cabelo a fim de evitar um desastre capilar. Se eu peço mais um drink porque sei que não estou bêbada o suficiente para dar blackout, logo surge olhares de julgamento. Se num determinado dia acordo ao meio dia após ter levantado às nove durante a semana, já estou sendo uma maldita preguiçosa.

Eu não tenho moral. E se até compreendo o motivo - afinal, meu passado definitivamente me condena -, creio que estou num ponto em que mereço o mínimo de confiança. Pode parecer papo de menina mimada que curte um feedback, e de certo modo o é (e apenas o fato de admitir essa faceta deplorável já é um passo gigantesco), mas o benefício da dúvida vai bem. Está com medo de um revival da old Cecilia? Vê sinais de desastre? Beleza. Avisa e eu direi se isso está acontecendo ou não. Acredite, eu tenho consciência, e estou trabalhando muito para dar um jeito em todas minhas falhas.

Porém, não vou me desculpar pelo que fui, e tampouco pelo que sou. Não irei carregar a culpa de algo que decidi fazer apesar de todos os alertas. Se antes eu corria na vida sem um pingo de noção, agora eu sei o que estou fazendo. É verdade! Não é incrível? Tudo que faço é muito bem pensado, óh! Hoje eu me conheço, embora tenha muita coisa aqui dentro que ainda não entendo. Mas conheço.

Então, honestamente e com todo amor no coração, meu cu.

Um comentário:

Tatiana disse...

'tá fácil p'ra ninguém, viu.