Em meus tempos de escola, havia algo chamado "Interclasses", que consistia num campeonato de queimada para as meninas e de futebol para os meninos. Num determinado ano, alguém teve a brilhante idéia de me escalar para o time da queimada da 5ª série C, embora todos soubessem de minha total falta de habilidade não só nesse jogo infâme, como em qualquer outro que exista.
Durante o campeonato, eu sempre era a primeira pessoa a ser queimada. Eu podia correr, pular, rebolar, me atirar no chão, mas a bola eventualmente me batia - e como não fazia questão de pegá-la, pois tenho a mão furada, minha saída precoce era notória, sendo alvo fácil para o adversário. Até que na final, por algum motivo inexplicável, eu não fui queimada. Sobraram eu e a melhor-amiga, nossa capitã e a melhor do time. No entanto, a classe inteira já considerava o jogo perdido, uma vez que eu estava lá e a melhor-amiga não poderia segurá-lo contra as capetas em forma de gurias da 5ª D.
Então, o pior ocorreu: ela foi queimada, e eu fiquei sozinha. Olhei para a arquibancada, e todos os meninos exibiam um semblante humilhado. As coleguinhas choravam. A melhor-amiga me lançou um olhar de "fodeu". E lá estava moi, com a incumbência de aguentar aquela tortura e sem o apoio daqueles que deveriam torcer até o último minuto, mesmo diante à iminente derrota.
É claro que segundos depois fui queimada. Sentei em um canto e chorei. Naquele momento, apesar de ainda não saber, surgia uma nova faceta em minha personalidade: eu não sei perder. Mas aquelas lágrimas eram de ódio, pois percebi que a torcida obviamente estava contra mim (como se eu quisesse estar lá in the first place!). Aliás, ninguém acreditava que a mulherada da 5ª C sequer chegaria a final. Os moleques sempre foram melhores, eram os vencedores certos de todo Interclasse, os queridinhos dos professores de Educação Física. Nós éramos a zebra que por acaso chegou longe, não graças ao suporte alheio.
Não é à toa que esse momento de minha curta e traumática experiência esportiva veio em mente ao testemunhar a eliminação do Brasil em um jogo bonito - suado, desesperador, mas bonito. Ainda que claramente nervosos e precisando de uma maracujina urgente, os meninos da Seleção tentaram lutar ao final, porém, era tarde demais. Vou além: Já era tarde desde o começo dessa Copa, que ilustra o 2012 feelings atual, pois ninguém fez questão de torcer.
Em um texto recente, escrevi que um pouco de boas vibrações faria bem. O Brasil sempre criticou, como é natural quando se trata do time penta-campeão, mas nunca deixou de gritar e sofrer junto aos nossos maiores representantes, mesmo quando tudo estava fadado ao fracasso. A esperança sempre foi a última a morrer, exceto neste ano. Dessa vez, parece que a nação estava mais preocupada com "Cala Boca Galvão", com "Dia sem Globo", em xingar o Dunga, em estampar sua idiotice no Twitter (que está insuportável), em clamar por Ganso e Neymar - nesse último caso em particular, um verdadeiro absurdo. Posso ser santista e gostar deles, mas o que dois meninos deslumbrados e despreparados para a grande responsabilidade que é vestir a camisa verde e amarelo poderiam fazer de tão especial? O que os faz melhores que aqueles que estavam lá? Não há mais Pelé, Garrincha, Romário. Abre esse olho, minha gente, temos poucos jogadores de fato ilustres. Há ótimos jogadores, mas não o luxo, o tal "futebol arte". É o que tem pra hoje! Conformem-se, mas não desistam.
O que vimos nessa Copa foi feio, muito feio - não da parte deles, mas da torcida. Renato Thibes já falou com maior propriedade que eu, mas reitero: dentre muitas atrocidades, a de torcer para a Argentina é a pior. Isso não é bacana, não é "in", é patético. A não ser que você tenha nascido lá ou tenha um filho argentino, nada justifica essa mania de falar que a Argentina é a solução. Que heresia! Sim, eles estão jogando bem e acho até fofo ver o carinho do Maradona pelo seus homens, mas pare e pense: Qual a razão dessa campanha bem sucedida? Ahá, a torcida! O amor pela camisa! O apoio ao seu técnico mesmo que ele faça uma cagada imensa! O patriotismo descontrolado que facilmente surge em Copas do Mundo!
Agora, torcida canarinho, fique feliz que enfim há argumento para essa raiva gratuita. A meu ver, não fomos eliminados por culpa do Kaká contundido, do Fabuloso "apagado", do Felipe Melo (ok, ele é nervosinho, mas já estou com pena do sujeito, sabendo o que ele sofrerá agora). Tampouco foi culpa do Dunga, da escalação, da CBF, do Galvão, do juiz, do cacete a quatro. Foi culpa desse país de merda que tem que aprender que a gente aqui também tem um papel. Como dito, uma dose de vibe positiva vai bem, e foi justamente a falta dessa que causou isso.
Parabéns, "brava" gente brasileira. Way to go.
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