
Era 27 de outubro quando o vôo Dublin - Madrid esquentou as turbinas. Indo contra a própria superstição de olhar pela janela no momento da decolagem, dei a última olhada para a cidade que me acolheu por cinco meses e meio e fui tomada por um fluxo surreal de lágrimas. Aquela havia sido minha decisão, mas não pude conter o medo: Eu fiz certo? Será que não me arrependerei? Fui precipitada? Me deixei levar pelo lado mimada? Eu tentei o máximo que pude? Meu retorno é um sinal de fraqueza? Sou mais loser do que imagino?
A verdade é que Dublin vinha se tornando um verdadeiro desafio. A companheira de casa era tão neurótica que me senti no Big Brother, suplicando por um paredão que nunca vinha. A internet não funcionava direito, dando apenas para assistir "Cordel Encantado" e falar com a família. Os empregos não surgiam, e bastava prestar atenção às conversas na fila do supermercado para saber o impacto da crise financeira européia. O temor da falta de dinheiro me impedia de fazer qualquer coisa que não fosse ligada à vida doméstica. A falta de companhia também era um problema, já que não podia dividir a alegria. A saudade apertava a cada dia, e minha única fonte de prazer era falar com mamãe às quartas-feiras após a novela. E havia, principalmente, a preocupação com os acontecimentos na casa que deixei para trás.
Não demorou muito para a idéia do retorno começar a se formar na cachola. Bastou um show do Take That para que todos os sentimentos escondidos por dois meses de estadia viessem à tona. Mas eu insisti - até que todas as tentativas frustradas se tornaram impossível de ignorar. Sabendo que não poderia tomar essa decisão na cidade, por compreender que meu amor por ela influenciaria e portanto atrapalharia um raciocínio lógico, arrumei minhas malas num impulso e parti para Estocolmo, sob a desculpa de stalkear a família Skarsgard. Em quatro dias, a Suécia surpreendeu por confirmar todos os sinais que a Irlanda vinha me mostrando (e a Emerald City pode ser muitas coisas, menos sutil). Num tete-a-tete interno, concluí: a melhor coisa que faço é voltar.
Foram mais dois meses de datas adiadas, viagens e gastos absurdos de dinheiro, que fiz com a plena consciência de que "se não agora, quando?". Encarei a temida solidão e parti para a exploração de Dublin, me entregando totalmente e sendo retribuída com tanto carinho que parecia que a cidade sabia que aqueles eram meus últimos dias ali. E mesmo com tudo marcado e determinado, eu tentei ainda mais. Pensei: oras, se é para eu ficar, algo vai aparecer - um emprego, uma casa nova. Nada.
Ao invés disso, o que me era oferecido eram chances de realizações de sonhos. Uma bico como figurante de filme. Uma estadia num hotel 5 estrelas. Um musical. Ouvir Beatles no Cavern Club. Machos irlandeses para uma noite e nada mais. Festival de música na lama. Uma das montanhas-russas mais enlouquecedoras ever. Salzburgo. E ainda assim, chegando ao dia 27 de outubro, fui possuída pela dúvida.
Lá se vão três meses de wicked little town. O mais estranho é que, embora tenha passado pouquíssimo tempo fora, tudo me parece diferente. É como se estivesse redescobrindo as pessoas, as ruas, a família, e o próprio quarto, que tanto senti falta. Ok, vou além: é como se estivesse me redescobrindo. E está sendo difícil conciliar a Cecília de antes e a Cecília que só vim a conhecer fora do ambiente de conforto. As falhas me parecem mais claras, e não sei até que ponto isso é bom para mim e para os outros ao redor. É como se minha vida tivesse se tornado uma tábula rasa, e não tenho picas de idéia do que fazer com ela.
No entanto, e o mais surpreendente, isso não significa um arrependimento. Sim, às vezes a mesma saudade que sentia daqui, sinto de lá, e fico extremamente abalada. Mas somente agora tenho completa certeza de que não havia mais nada para mim naquele lugar. Fiz o que queria e precisava, e se isso de certa forma me modificou, só resta eu descobrir como aplicar este novo ser à realidade que estou novamente inserida.
Uma realidade que é tão desconhecida que não tem muito jeito se não aceitá-la.
6 comentários:
As nossas experiências são o que nos formam e transformam nessa vida. Tudo é válido... e, oras, é óbvio que sentimos falta das partes boas de todas as experiências, mas como você mesma disse, às vezes não há nada mais para nós em um determinado lugar além daquilo que já vivenciamos.
Abra os braços pro desconhecido e não se esqueça de que você sempre poderá transformar a sua realidade. O mais difícil você já fez - partir e retornar. Torço muito por você =)
Ei, seja bem vinda. Como diria Paulinho Moska "é tudo novo de novo", não?!
Menina, achei que vc tinha desistido de vez de escrever nesse blog :) Bom ter noticias suas, ainda que seja uma pena que as coisas em Dublin nao tenham sido exatamente como vc queria - me refiro ao contexto, falta de emprego, colega de casa, essas coisas. Mas sair da bolha é sempre bom, com o tempo vc vai assimilar melhor isso tudo. E "you'll always have Dublin", poxa! :)
Que bom que vc voltou a postar no blog, acompanho sempre o tumblr...
E sinto muito por Dublin, mas pelo post você pareceu feliz e nada arrependida e fico feliz por isso. E, por favor não deixe de postar...
Eu me identifiquei com esse seu "fluxo de consciência". Parece uma realidade paralela, né? Daí, aos poucos, as duas realidades vão se encontrando, até que você se dá por si e precisa tomar uma decisão. É difícil, mas estamos aqui pra isso.
Mas o que foi que Estocolmo fez? Eu morei na Suécia dois anos diretamente, e depois mais dois anos indiretamente (meu marido ficou la e eu me mudei pra Bélgica).
Sempre achei que Estocolmo, em especial, nao ia muito com a minha cara... =)
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