segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Vivendo e aprendendo com Poppy


Eu me considero uma pessoa pessimista. Se um rapaz me elogia, já desconfio. Se em duas semanas ele continua elogiando, aguardo pelo momento em que a cobra vai fumar (sem trocadilhos). Se preciso sair e o clima aparenta chuva, com certeza ela cairá. Se decido usar salto, já saio de casa pensando que vai dar merda. Se tenho um trabalho para apresentar, ensaio incessantemente pois sei que alguma coisa vai sair do planejado. Esses são apenas alguns exemplos da extensão do meu pessimismo pessoal.

Sim, pessoal, pois para os outros sou particularmente otimista. Uma amiga está começando um relacionamento? Se joga, vadia! Uma amiga traiu o namorado e ele descobriu? Tudo vai terminar bem! Uma amiga vai viajar para a Faixa de Gaza em uma missão de paz? Encara a aventura! É imensa a lista de positivismo que espalho para aqueles ao meu redor em situações nas quais me dizem "mas Cecilia, está tudo errado!". Não, não está, vai na fé e segura na mão de Jesus.

Como caio mais para o lado negro da força, me irrito facilmente com otimismo alheio. Apesar de ser feliz em meus conselhos para os outros, odeio quando o fazem para mim - afinal, sou pessimista e não acredito em uma só palavra que estão me dizendo. "Ora, francamente, estou aqui entregue na balada da arrasada e você querendo me dizer que tudo vai acabar bem? Vai se foder, não vai e pronto". Logo, as razões para esses dois pólos são desconhecidas para mim. Talvez seja a insegurança que me aflige, ou a preocupação de mãe que sinto por amigos próximos, preferindo acalmá-los em vez de me desesperar. Seja lá qual for o motivo, dentro de mim o pessimismo e o otimismo caminham lado a lado, independente do quanto "O Segredo" tente me convencer do contrário.


Dessa maneira, quando li "Pollyanna" e "Pollyanna Moça" no auge da minha adolescência, literalmente atirei o livro longe em um surto de ira. "Porra, cai na real minha filha, contente com muletas? Mas que inferno". Nunca compreendi a extensão desse otimismo descontrol da garota até assistir "Simplesmente feliz" ("Happy go lucky" no original).

"Happy go lucky" nos apresenta a Poppy, professora primária que adora sair, ama seu trabalho, apóia as amigas, cumprimenta passantes e puxa conversa com qualquer criatura que faça contato, e até se não o fazem. Hiperativa que só, Poppy faz ginástica, anda de bicicleta, realiza aulas de direção de carro e se acaba na dança flamenca. Poppy combina roupas na cor verde, azul, amarela, rosa e usa cinco mil pulseiras barulhentas. Seu cotidiano é turbulento e cansativo, mas ela não se abate, realizando suas atividades com um belo sorriso no rosto e rindo de tudo, desde preocupações diárias a relações familiares turbulentas. Em suma, Poppy é a Pollyanna moderna e britânica.


Para uma pessimista, assistir "Happy go lucky" é um teste de paciência. Porém, algo estranho ocorreu comigo: tive diversas reações durante todo o filme. De início, achei engraçado. Depois, me irritei com o alto astral exagerado, risadinhas a troco de nada e pequena irresponsabilidade da protagonista (qualquer pessoa como Poppy em geral cai para esse lado, por acreditar que tudo acontecerá na mais perfeita harmonia). Então, fiquei chocada ao perceber que ela não é tão sonhadora como pensava - ela enxerga as consequências que determinados atos podem causar, apesar de não crer nessas em primeira instância. Finalmente, terminei o filme com um sorriso e tímidas lagriminhas de alegria, desejando ser um pouco Poppy.

Pois é, meu Brasil, me rendi ao otimismo da moça. A maneira leve como ela carrega sua vida, sem dar muita importância para as adversidades de seu dia-a-dia (nem mesmo para a solteirice), é encantador e revitalizante. Poppy é Pollyanna, mas uma Pollyanna com a ponta dos pés no chão: ela não necessita ter ambos calcanhares fixos no solo; apenas o suficiente para percorrer sua jornada. Tudo bem que ela percebe tal fato após um tapa na cara, mas como tudo na existência de Poppy, o tapa é pouco doloroso - claro, ela viu o lado bom do mesmo. E se no começo do filme, ao olhar a capa de um livro chamado "O caminho para a realidade" ela pensa que "esse não é um caminho que ela quer seguir", ao final ela reconhece que precisa de um toque de verdade. Mas nem tanto. Claro, para Poppy, que graça teria se tudo fosse muito real?



Assim, se Amelie Poulain me ensinou a prestar atenção na simplicidade da vida, Poppy levou esse fator a um novo patamar. Com seu way of life, ela me fez crer novamente no positivo, resgatando algo há muito perdido devido as peças que o Destino me pregou. Se algo ruim acontece, porra, dá risada. Vai fazer o quê? As coisas não estão sob meu controle, portanto, vou esquentar a cabeça a troco de nada? Esquenta um pouquinho, o suficiente para a reflexão, porém não se entregue à esbórnia.

Dessa forma, um lembrete a si mesma, Cecilia: diante do errado, do ruim, do mal, da adversidade, faça como Poppy! Reúna as amigas e vá dançar "Commom People" do Pulp, encher a lata e rir feito criança. Ao menos se divirta, pois não há grandes resoluções. Afinal, na realidade, tudo é muito simples.

Tenho consciência que o percurso para o otimismo é árduo. É preciso quebrar muitas barreiras para se chegar a tal ponto, porém, creio que não machucará se eu tentar. Não quero ser uma Poppy completa, mas um pouquinho dela não seria mal. Um dia chego lá. Se não, acabarei com uma úlcera e vítima de aneurisma.



¬ chicago sdtk - I move on.mp3

8 comentários:

tatiana disse...

Olha, minha cara, o que me identifico com seus relatos não 'tá no gibi.

Daí que esse ano a minha única resolução foi: quero ser uma pessoa melhor. Não tenho a menor idéia de como colocá-la em prática, mas estou convicta de que o otimismo é um caminho possível. E tenho me esforçado pra ser mais leve (não literalmente, acabei de comer torta dois amores... enfim).

Se não funcionar, foda-se. Ao menos a gente 'tá tentando.

.duas doses de desdém disse...

Me acho tão estranha...que é difícil me indentificar com alguém...sei lá..

beijo!!!

Anonymous disse...

Adoro ler os seus textos, muito bem escritos e sempre dá pra tirar alguma coisa, principalmente esse que logo no começo você explica como age com as pessoas e com você mesma e depois ainda dá uma bela dica de um filme...
Sempre que posso dou uma olhadinha ak pra ver o que vc escrever!!!
Parabéns...

Flávia disse...

a Poppy parece bem mais legal que a Poliana. Deu vontade de assitir ao filme - e olha que eu não ando numa maré de otimismos mil...

Beijos, moça :)

Sunflower disse...

Cecília, já disse que acho lindo seu nome e que nomearia uma filha assim por causa da musica do Simon & Gafunkel?

Na música, Cecilia é uma menina que sai por ai, despedaçando corações e o cara ainda fica feliz depois que ele é aceito de volta, cada vez que ela chuta ele.

Não acredito em pessimismo nem otimismo, acho que as pessoas são só realistas. Se ela vem o lado pior é porque sempre aconteceu isso com elas, a mesmo o ocorre com o bright side of everything.

Não foi só a uma ou mais Anas cair e ficar na cadeira de rodas que ela ficou de lundu?

beijas

Ava E. disse...

TE AMO!

Garota no hall disse...

Quando esse filme estréia por aqui, hein? Estou aguardando, pois adoro Segredos e Mentiras, do mesmo Mike Leigh que dirigiu Happy go lucky.

 Thiago Margato disse...

Eu acho que eu já vi seu lado Poppy la no Tim, porque minha impressao foi a melhor possivel, voce tava super animada, era a Poppy em pessoa hehe... Beijão Lu!

PS: Saí do Orkut, férias, volto em breve! :)