
E aí que semanas atrás me olhei no espelho e não me reconheci. Me senti um nojo, um projeto de gente, uma carcaça que estava apenas assustando o mundo. Eis que, em meio ao surto, uma amiga - igualmente gordinha (eufemismo way of life) me chama no msn: "Faaala Cecilia, tudo em cima?". Não, tudo para baixo. Tudo caído e jogado às traças. Para minha surpresa, ela inicia um piti semelhante, concordando e se identificando. E vem a proposta irrecusável: "Cecilia, 'bora no Vigilantes do Peso?".
Minha primeira reação foi o riso, que cessou no momento em que percebi a seriedade da pergunta. E eu concordei. A situação está precária e é necessário apelar para todos os lados. Se Herbalife não funcionou, se academia é tortura, preciso recorrer ao que está disponível: a dieta dos pontos e uma caminhada na praia ou em volta do quarteirão.
Primeiro dia. Eu e minha amiga, que chamarei de Camarada V.G., fumávamos em desespero e nervosismo. E ali estávamos nós, entre moças magras que precisam emagrecer dois quilos, moças incrivelmente obesas que devem estar sofrendo mais que nós, donas de casa preocupadas com a saúde, um ou outro executivo com barriga de chopp visivelmente envergonhado no ambiente feminino. E duas senhoras que, ao nos ver na fila, gritam no corredor: "Ah, é ali! É só seguir as gordinhas!".
O clima no ar é de medo e insegurança, e também de proteção. Afinal, todos ali estão na merda e se sentem simultaneamente observados e tranquilos. Você pode estar um bujãozinho de gás, mas basta olhar para o lado e ver tanto pessoas em pior situação, como as que parecem procurar somente por uma palavra de otimismo. Você sabe que nada sairá de lá (por vergonha) e que todos buscam o mesmo objetivo, personificado na secretária do local, que alegremente conta sua história na Associação, dizendo que emagreceu 30kg. Vê-la já é um incentivo em si: loira, alta e dona de corpinho invejável, que jamais imaginaríamos que um dia já esteve como o nosso atual.
Ir ao Vigilantes é a última saída e ninguém gostaria de ter alcançado esse ponto, porém, como se provou necessário, encará-lo é admitir uma falha imensa de sua parte e, por isso, a pressão pessoal é ainda maior. Contudo, a troca recorrente e a palestra com dicas que vão de "escute uma música clássica enquanto come" e "arrume um canto privado em sua casa para meditar" a "modifique sua rotina e verá que emagrecer será um processo fácil" auxiliam na jornada.
Para mim e a Camarada V.G., Vigilantes é motivo de escárnio. Sim, levamos a sério e estamos engajadas, puxando uma a outra, tendo como objetivo ganhar a "chave de ouro", cuja obtenção ocorre quando você alcança sua meta. No entanto, é impossível não rir. Em nosso cantinho escolhido à dedo (um lugar escondido que nos dá a visão geral do espaço e, assim, podemos falar à vontade sem chamar atenção), comentamos de tudo e de todos, observando as características daquelas pessoas e analisando seus trejeitos. É impressionante como cada um reage de uma forma. Umas se resumem ao silêncio, outras dão risadinhas tímidas, algumas levantam a mão educadamente para apontar algo que se aplica àquilo que está sendo exposto; enquanto outras decidem dar seu depoimento de vitória, ao passo que as mais defensivas exclamam algo como "ai, que saco, quem me dera comer esse pudim, mas não vou usar meus pontosflex semanais".
Porém, muita da graça reside na palestrante, a qual apelidamos carinhosamente de Dona Edith (do Terça Insana). Em seu estímulo, Dona Edith se atenta aos mínimos detalhes, utilizando trechos de músicas como "Eu nasci assim, eu cresci assim, Gabriela" e realizando metáforas que nunca julguei serem possíveis. Gentil, ela esclarece para nós, as bêbadas, que uma cerveja são três pontos, o equivalente a uma trufa (desnecessário dizer que abandonamos qualquer vislumbre de chocolate, preferindo o álcool a essa tentação). Para finalizar sua explicação, ela mostra uma foto sua quando estava 20kg mais gorda, e se ela em si já é uma figura, a foto era ainda melhor: ela, vestindo um suéter cinza completamente diferente de seu estilo elegante no presente, abraçava um rapaz, posando atrás da mesa de um aniversário infantil. Caso não a conhecesse agora, jamais diria que eram a mesma pessoa. Ela olha para a foto com um olhar vencedor, um leve brilho surge em seus olhos, e, após visitar seu próprio passado por um segundo, ela guarda a foto.
Já na saída, eu e minha Camarada discutimos a foto, rindo da simplicidade de Dona Edith e comentando sobre a alegria que esse povo emana, sem atentarem à completa bizarrice da situação. Vigilantes é o clássico exemplo do "rindo para não chorar", e por isso mesmo funciona (não sei quanto a dieta, pois este foi apenas meu primeiro dia). O pessoal se sente acalentado, apesar de terem que encarar a balança toda vez que chegam. É a realidade batendo a sua porta, porém, realizado de uma forma que não os deixam deprimidos diante da situação catastrófica.
Não sei se dará certo, mas farei meu possível. Para mim, basta apenas saber que tentei. Seja lá como for, espero que meu 1m57 e 90kg se tornem 1m57 (este, infelizmente, não pode ser modificado) e, sei lá, 60kg? Independente do resultado, uma coisa é certa: se rir emagrecesse horrores em um só dia, já estaria um palito.
¬ flo rida feat. t-pain - get lown.mp3 (fazendo a dancinha do tom cruise, em homenagem à sua passagem em terra brasilis. droga, ele nem foi à quadra da mangueira. pagaria para vê-lo com as mulatas)
6 comentários:
Giant step! Congratulations dude! You go girl! I can´t hardly wait to read the all the adventure!
Meninaaaa, que ótima decisão! Olha só, acho super legal quando, mesmo com a vergonha, as fofocas e aquele sentimentozinho de 'ai meu deus q q eu to fazendo aqui?' a gente resolve resolver (assim mesmo) um problema. Qualquer problema: 40kg ou 5 kg, sair de casa, casamento falido, ou trabalho de Metodologia.... qualquer um... Pq, convenhamos, eu adoro minha poltroninha quente e confortável, dá um trabalho desgraçado levantar. E, sem muito mais papo de auto-ajuda: no final, a gente acaba se sentindo melhor.
(Ao menos eu espero)
Tome por exemplo a minha tentativa de incursão no maravilhoso mundo da educação. Eu tentarei! Bravamente, já sabendo o que me espera... eu tentarei! Obrigada pela força, de qualquer forma. Ao menos, eu vou conseguir tirar de lá bons textos pro blog ;)
E sorte! Pra nós duas!
PS: "FFLCH" - Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Sociais, da USP. É, se vc não conhece a expressão, não a dividmos, claro... mas, obviamente, já vi que compartilhamos mais que colegas comunistas!
PS2: quando eu tiver uma filha, terá seu nome, e se tudo der certo, um blog parecido com o seu!
Banana
'Camarada V.G.'= vigilante gorda ou vaca gorda? de qq forma, ainda me identifico mais com a segunda!
Dona Edith aguarda ansiosamente nossa presença mesmo q a gente naum valha 1 pontoflex!
E jah sei pq dei akela reviravolta apagando a luz do lugar e 'tropicando' nos copinhos de água...foi por ter escutado a palavra 'sucesso' mais de 3 vezes, ficando assim, temerosa com q algo semelhante ao beetlejuice (em forma de Dona Edith gordinha) aparecesse!
SUCESSO!!!
fiquei imaginando a cara da Dona Edith.... ah, e rir emagrece sim, porque a gente fica feliz e não precisa recorrer aos prazeres do prato para se sentir bem! eu emagreci 14 kg em um ano fazendo reeducação alimentar, acredito que vigilantes do peso funcione da mesma forma. o segredo é não ter muita pressa - good things take some time.
Tentar já é algo. E você já olhou pro quesito cigarro? Pra algumas pessoas ele é uma bomba pro sistema endocrinológico. Think about it. :)
Gostei do relato estilo crônico. E quanto ao comentário do Alexandre, ele tem razão. Trabalho em revistas sobre saúde e beleza, e sei que fumar dá barriga...
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