Eu não poderia terminar 2009 sem evidenciar um dos (poucos) grandes momentos do ano: O show do Zezé Di Camargo e Luciano, visto no dia cinco desse mês no Credicard Hall.
Para uma pessoa que costuma ostentar a bandeira do rock 'n' roll, entendo que optar por Zezé e Luciano como "último show do ano" pode ser estranho. No entanto, uma pessoa foi de extrema influência para que eu fizesse tanta questão de vê-los: a Vilma.
A Vilma é a senhora que trabalha aqui em casa há dez anos, que por vezes me deixa bilhetes dizendo "Cecilia, acorda porque seu quarto está imundo" e já virou testemunha ocular dos mais bizarros momentos rotineiros da família, desde aqueles dias de beleza em que passeio pela casa besuntada de blondor até aqueles dias de calor em que saio do banho enrolada numa toalha minúscula. Fã confessa do Zezé (o Luciano é sempre esquecido, coitado), seu barraco - como ela mesma chama seu lar - possui posters dos cantores das Lojas Marabraz, a coleção de CD e, no radinho, é o pai da Wanessa que domina. Reza a lenda que o marido da Vilma possui um ciúmes louco do sujeito, compreendendo que ela venderia a alma só para dar um abraço no objeto de sua afeição.
Desde que ela chegou em casa e eu descobri seu fanatismo, às vezes coloco as canções do Zezé no computador só para animá-la, e já a presenteamos com um DVD do mesmo. E há tempos a prometo: "quando tiver show deles, eu vou contigo", reconhecendo que o marido ciumento jamais faria isso por ela.
Essa promessa se arrastou por anos, quando enfim fiquei sabendo desse show no Credicard Hall. Prontamente falei com minha irmã, que é uma amiga e confidente da Vilma. Mamãe passou o convite, uma vez que os odeia, mas decidiu presentear a Vilma com o ingresso. Era o início da saga: avisamos que haveria o show, mas que talvez não seria possível ir. Ela entendeu, meio tristonha, e disse que não tinha dinheiro para tal, rezando pelo 13º. Depois de horas no telefone com o Ticketmaster e muito esquema para que ela não visse a embalagem, enfim os ingressos chegaram. Quando mostramos para ela, a Vilma mal pôde aguentar a emoção. Quem a visse, acharia que ela estava lá no camarote, mas não, a realidade é que, mesmo na arquibancada mais baratinha e num lugar longe, ela estava feliz só de poder finalmente vê-los, uma vez que ela nunca tivera a oportunidade.
Chega o dia do show e, numa excursão em que minha irmã de 30 anos era considerada uma adolescente (logo, eu era uma criança), fomos ao Credicard Hall. Tiramos fotos, e começamos a encher a cara. Pois eu, já bêbada, não estava contente com o lugar marcado. Além de pouco longe, havia ao nosso lado dois casais e muitas famílias que pareciam estar lá mais pelo evento do que pelo show em si. Eu sabia que, assim que começasse o show, nós teríamos que nos privar de surtos e gritos só por causa desses ensossos. Pois passei a falar com todos os seguranças possíveis e imagináveis, dizendo que aquele era o sonho da Vilma e isso não poderia ser impedido por causa de pessoas sem graças. Acabamos sentando na primeira fileira - ainda longe, mas já era um avanço.
Daí que começou: "A ferro e fogo", uma das minhas preferidas, foi logo a segunda. E quando achei que só estava lá pela Vilma, percebi que aquilo era muito bom e eu também estava realizando um sonho antigo, de quando tinha dez anos e ouvia Leandro e Leonardo, e testemunhei minha própria voz num grito fino: ZEZÉÉÉÉÉÉÉÉ.
Sim, eu gritei para o Zezé. A Vilma, rindo de mim, não aguentou e gritou junto. Quando dei por mim, estávamos as três gritando o nome do sujeito em uníssono, e cantando cada letra - letras que até então eu nem achava que sabia. Enquanto a Vilma só chorava, foi com emoção que cantei "É o amor", "Coração está em pedaços" e "No dia em que saí de casa", me surpreendi com Luciano embalando "Hey Jude", versão Kiko Zambianchi (obviamente, chorei), e quase esfolei minha garganta com "Pão de mel". No entanto, nada me prepararia para o auge: "Mexe mexe que é bom".
Quando eles começaram a cantar tal música, ignorei a necessidade de ficar sentada (maldito Credicard Hall) e, atentendo aos pedidos do Luciano, levantei e comecei a dançar freneticamente, de olhos fechados, erguendo os braços para o céu e fazendo "tchá tchá tchá". De repente, um segurança surge a minha frente pedindo para eu me sentar. Olhei para trás e vi que somente eu havia saído de controle. Entretanto, algo em mim havia feito eu me descontrolar daquela forma. Era felicidade.
Se no show do Jason Mraz eu sabia que podia enfim dizer que era uma pessoa um tanto feliz, foi com Zezé que essa confirmação chegou com tamanha convicção. Há algo em shows de sertanejo, pagode e Roberto Carlos (outro importante marco de 2009) que faz você liberar toda e qualquer restrição. Há uma entrega em conjunto, uma energia positiva - a famosa vibe - que aprova os momentos mais livres do ser. A primeira vez que senti isso foi há mais de cinco anos, num show do Art Popular em que cantei "Nani" como se não houvesse amanhã. Finalmente revisitei a totalidade desse sentimento, e concluí que essa é a minha resolução principal para 2010.
Não quero amarras. Quero poder cantar, dançar, gritar e não sentir medo de fazê-lo por qualquer motivo que seja. Quero ter aquela velha liberdade que me fazia feliz sem temer o dia seguinte - apenas saber que esse existe, porém, sem dar muita importância para o que vier. Lidar com as coisas na maneira que elas se apresentam e seguir em frente. Ser eu novamente.
E tudo isso por causa de "Mexe mexe que é bom". Aliás, outra coisa que concluí: nada como dançar tal canção estando completamente bêbada. E feliz.
Um comentário:
Comadre, mas que delícia de texto! :D
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