
À meia noite do dia 31 de dezembro de 2009, eu estava na praia junto a família, tentando equilibrar a embriaguez com o levinho pânico que insistia em mostrar as garras. Olhando para o "show" de fogos de artifícios, eu sabia que era necessário traçar alguns planos para o ano vindouro, com o intuito de não perder o ritmo de atividade que a faculdade de um modo ou de outro trazia. Ficar parada é um perigo, e dada as circunstâncias, não poderia me entregar novamente a procrastinação. Também naquele momento, decidi dar início ao Resgate, que consiste em revisitar o passado a fim de peneirar entre o bom, o blé, e o uó - uma teoria simpática no papel, mas não tão agradável quando colocada em prática.
Dessa maneira, já no dia primeiro, abri um documento do Word e distribuí em tópicos os planos para 2010. Do lado concreto estava: um curso preparatório de inglês para o certificado; arrumar um emprego qualquer para juntar uma grana e me sentir útil na vida; fazer um curso rápido de maquiagem e excel (sim, sou porta e ainda usava o 97 então); ver outros cursos para encontrar uma profissão diferente daquela escrita no diploma; entrar na academia; trocar os óculos; e ir em tudo quanto é médico. Do lado abstrato, e o mais difícil de realizar, constava: emagrecer; beber moderadamente; ser uma boa filha, irmã e amiga - whatever that means; estar aberta para novas pessoas; confiar um pouco mais nos amigos e na sua capacidade de compreensão; encarar The Panic Syndrome Reloaded para chegar à Revolutions sem remédios; manter a sanidade; e o maior dos desafios, ter paciência. Tudo isso em meio ao Plano Resgate.
Pois bem. Um ano se passou e aprendi que planejar é ridículo. A intenção é boa, mas o mundo não está nem aí para sua tabela no Word. A busca pelo emprego foi abandonada após milhões de entrevistas mal sucedidas, nas quais tive que engolir uma pedra para não soltar os cachorros em funcionários de RH. Se valeu para alguma coisa, foi pelo fato de eu ter dominado a arte do poker face. A tradução freelancer não caminha graças à minha falta de experiência e uma aparente crise na área, já que, embora seja "colaboradora" de duas empresas, nenhuma enviou um trabalho até agora. Fiz o curso de auto-maquiagem e de inglês, mas o certificado foi para o saco quando não teve número suficiente de participantes na wicked little town. Aprendi na marra o Excel 2007 e não arranjei uma nova profissão. A academia durou três meses e mal queimei calorias. Aliás, não emagreci, mas também não engordei (1 ponto para Cecilia). E se fui em vários médicos, foi para me divertir com a quantidade de profissionais bizarros que só a Sulamérica oferece. Mas eu troquei os óculos.
As questões subjetivas ficaram em situação pior, uma vez que o Big Brother, a Copa do Mundo e as Eleições fizeram seus papéis em me deixar desiludida com esse país. Ou com a raça humana. Na realidade, com os dois. Parece que o Universo sabia que na minha tabela estava o item "ter paciência", pois ele me testou de todas as maneiras. E eu falhei. É impossível ser paciente quando se vê absurdos ao redor, e fica ainda mais difícil se abrir para novas pessoas quando todas parecem determinadas em mostrar seu lado mais deplorável. Talvez seja uma epidemia de caída de máscaras, e me incluo nessa, com a diferença de que a minha já estava no chão há algum tempo. Ser uma boa filha, irmã e amiga provou-se o fail-mor, já que enfim abri minha boca e tudo que saiu dela não serviu para me deixar em bons lençóis. Foi necessário, mas doloroso. Nessa brincadeira, comprovei aquilo que suspeitava desde criança: we're all alone, salvo alguns lindos instantes divididos, que para mim são cada vez mais valiosos justamente por causa desse Eureka. Enquanto isso, a saga The Panic Syndrome prossegue firme e forte, pois continuo tentando compreender meus limites - sim, lá se vão quase dois anos desde o caso catalisador, mas as cicatrizes são mais antigas que isso. Até então, esse é um plano bem sucedido mesmo com minha tradição de fugir de conflitos. Aliás, pouco corri (2 pontos para Cecilia). Já o Plano Resgate serviu ao seu propósito: retornei a velha terapeuta e, com ela, fui garimpando pelo passado e sem querer querendo, recuperei um pouco da leveza de outrora.
No final das contas, a consciência atingida em todos os aspectos valeu o ano. Ela me liberou, e tenho uma certa tranquilidade ainda que meu lado fofa mal tenha vindo à tona. Não tenho grandes arrependimentos - ser mais dura e macho man era o exigido, e se não tivesse respondido a esse chamado, eu estaria me debatendo a essa altura. Isso não significa, no entanto, que me entregarei de vez ao macho man; pelo contrário, espero que 2011 traga a fofurice de volta. Foi prazeroso ser a outra vertente, mas ainda me prefiro como uma criatura terna e cheia de mimimices.
Ok, 'tá aí uma frase que nunca imaginei dizer (ou melhor, confessar). Porém, é o que o fim da década ocasionou: Uma mocinha com vontade de ser boa, ponto. O que, para mim, é o suficiente.
(a ser continuado)
2 comentários:
OI guria, querendo vir pra Irlanda é? Me add ai no msn alinekummrow@hotmail.com ou manda email. A gente conversa melhor!! beijoo
Não se empolga na fofurice não, ok? Também não funciona muito...
Beijocas
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