domingo, 1 de novembro de 2009

O show da vida

Meses atrás, comentei que uma amiga de infância iria se casar. O casal estudou comigo durante anos e, embora tenhamos perdido aquele contato diário, a moça recorria a mim e minha melhor amiga (que também estudava na mesma turma) quando estava desesperada - lê-se "ele me traiu e não sei se caso". Ela acabou decidindo que casaria de qualquer modo, afinal, não conhece outra vida a não ser aquela que ele está junto.

Tudo bem. Semana passada, decidimos levá-la para uma balada, a fim de mostrá-la que não há problema algum em ser solteira, que ainda havia tempo de desistir. No meio da noite, ela nos conta: "ataquei o irmão dele no meio da noite". E deu risada. Ontem, no casamento, presenciamos seu show. Sim, pois aquilo não foi um casamento, foi um verdadeiro espetáculo no qual ela era a diretora. Enquanto o noivo se desabava em lágrimas, visivelmente nervoso e emocionado perante os pais, ela sorria quando percebia que a câmera estava focando nela, ajeitava o cabelo, e passava as coordenadas aos padrinhos e madrinhas. Ela abraçou o irmão do sujeito, que obviamente estampava a culpa. Antes dela entrar, recebemos klinex que vinham com uma tag: "Não segure suas lágrimas". Na festa, ela fez questão de realizar uma coreografia. Em suma, um show digno de Bono Vox.

E se até aquele momento eu sentia pena e acreditava que meu papel como amiga era mostrar suporte e tentar salvá-la de um casamento infeliz que está fadado ao divórcio, eu logo abandonei tal sentimento. Tento não julgá-la, já que nunca vivi situação similar, mas não consigo evitar a frustração de ver alguém que, além de incrivelmente dependente, ainda faz o diabo para ser o centro das atenções. Para ela, pouco importava se o casório na melhor igreja da cidade e a festa chiquérrima representavam o início de uma vida em conjunto. O importante era que ela estivesse com o vestido mais bonito e que as luzes estivessem em cima dela. Ou seja, a hora da estrela.

Durante toda a noite, não pude deixar de me sentir desconfortável, como se estivesse compactuando com o maior crime de todos os tempos. Embora não tenha planos de casar e tampouco seja religiosa o suficiente para achar bacana as palavras do padre, creio que o bom e velho casamento-do-vestido-branco seja um ritual de passagem que merece ser respeitado. Se você está jurando amor e fidelidade eternos, que seja de verdade. Se você faz com que toda sua família e amigos estejam ali com roupas chiques e saltos altos para testemunhar um momento único de um casal, que seja verdadeiro. Se os votos falados podem não ser tão condizentes com a rotina, que tenha pelo menos a ilusão de que o eterno jurado seja de fato eterno. Mas não. Ali era tudo um teatro. Para comprovar, bastou que eu comparasse o casamento ocorrido antes do dela. A noiva anterior só faltou morrer de tanto chorar enquanto caminhava em direção ao futuro marido, também em lágrimas, ao som da música da Ivete Sangalo que suponho significa algo importantíssimo. Não havia um sorriso falso entre família e amigos, todos estavam realmente felizes de estarem ali. Algo que não ocorreu no casamento da minha amiga.

Isso tudo me fez pensar: por que raios hoje há essa necessidade de "put on a show" para algo que fo inventado para significar bem mais do que isso? Mais que isso: será que eu teria a coragem que ela teve de realizar tal festança sabendo que aquilo tudo nada mais era que um atestado de burrice extrema?

Acredito que não. Quero acreditar que não. Se há algo que mamãe muito bem me ensinou foi tentar ser o mínimo verdadeiro comigo mesma, antes de qualquer coisa. Posso não ter um namorado ou um vislumbre de futuro marido, mas sei que isso só ocorre porque não me coloco num papel que não me pertence. Eu poderia muito bem estar com um sujeito qualquer. Eu poderia ser a mãe do filho de um ex-affair que está para ser papai. Eu poderia ser a companheira de outro ex-affair. Hell, eu poderia até mesmo ser a amante oficial do rapazote que só me vê como um alívio do cotidiano. Mas a que custo? Para chorar dentro do banheiro escondida? No-fucking-way.

Se um dia eu casar, que eu tenha a alegria de jurar amor e fidelidade verdadeiramente. Que eu olhe nos olhos da minha família e de meus amigos e saiba que todos estão felizes da vida de me verem ali. Que eu tenha ao meu lado alguém que faça com que a piada que o noivo da minha amiga fez (nas solas de seu calçado, estavam as palavras "já era") soar como uma piada, e não como confirmação infâme de um relacionamento afundado. Que seja o início de uma novidade maravilhosa, e não o início de um infinito jogo de gato-e-rato para ver quem consegue ser mais vingativo que o outro.

Que seja, enfim, verdadeiro. E não a palhaçada a qual presenciei. No final das contas, não sinto pena, nem desconforto. Sinto-me triste, de ver algo que deveria ser lindo e significativo transformado num programa do Amaury Jr.


¬ boyzone - all that I need.mp3

4 comentários:

Alexandre disse...

Mas o mundo não é das aparências? Taí a prova cabal disso.

Infelizmente muita gente acha que casamento é brincar de ser feliz. Mas se você não bota sinceridade e convição num ato desses, depois aguente a reação em cadeia.

Anna Carla Lourenço do Amaral disse...

Talvez este tenha sido apenas o jeito dela de lidar com a situação.
Você sabe que pra muita gente ser culpado é melhor do que ser coitado. Ela preferiu ter culpa de algo (pegar o cunhado -clichê de Nelson Rodrigues)e seguir em frente casando com quem ela na verdade gosta. Só que assumir que gosta de um cara que te traiu e admitir isso numa boa casando com ele e passar por coitada (vc mesmo e sua outra amiga deram a ela esse entendimento, que vcs jamais casariam com um homem traidor). Só que aí o buraco era mais embaixo, o que eu acho que ela não revelou a ninguém é que, com todo o lance da traição e da dúvida é desse mequetrefe aí que ela gosta e que o fato dele tê-la traído não faz a menor diferença neste sentimento que deve ser muito maior mas, assumir isso sem ser culpada de nada é ser coitada e isso tenho certeza, ninguém quer.

Aline-NC disse...

Você me lembrou um casamento em que fui há uns 4 anos. Eu sabia que, durante a organização da cerimônia, entre uma visita ao buffet e uma encomenda de flores, a feliz noiva tinha pulado a cerca com um amigo nosso de faculdade. Aí agora me vinha com aquela cara de "emocionada" entrando de branco na igreja (também a mais chique da cidade). Tanta falsidade, ainda mas dentro de uma igreja (posso não ser praticamente, mas respeito) me deu muito, muito nojo de tudo aquilo.

Cristina disse...

Não me estranha, nem deve ser raro esse tipo de situação. Não sei onde as pessoas andam procurando felicidade, mesmo.